Korea Summit Press Pool via AP
Korea Summit Press Pool via AP

Bastidores da cúpula coreana: sorrisos e apertos de mão

 

O Estado de S.Paulo

27 Abril 2018 | 11h54

SEUL - Os portões dourados do imponente edifício norte-coreano se abriram e o líder Kim Jong-un, vestindo um terno preto à la Mao Tsé-Tung e cercado por uma comitiva de funcionários, desceu uma série de degraus rumo à fronteira. Nenhum líder norte-coreano punha os pés em solo sul-coreano desde a Guerra da Coreia (1950-53).

Sorrindo, Kim estendeu a mão ao também sorridente presidente sul-coreano, Moon Jae-in, que o esperava entre os edifícios baixos e azuis que se estendem pela divisa em Panmunjom. O vilarejo é um dos poucos locais sem cercas de arame farpado ou campos minados entre os dois territórios, separados por um conflito que terminou com uma trégua, não um tratado de paz — o que significa que tecnicamente ainda estão em guerra.

Os líderes das duas Coreias deram o aperto de mãos que seus países esperavam há mais de uma década. Todos os aspectos da reunião de cúpula intercoreana foram bem ensaiados, mas Kim saiu do roteiro quando convidou seu colega para o outro lado da fronteira.

"Moon perguntou ao sr. Kim: 'Quando poderei visitar o Norte?' E o líder norte-coreano respondeu: 'Por que não agora?'", revelou o porta-voz da Presidência sul-coreana ao contar os detalhes desse momento. Foi assim também com o prolongado aperto de mãos na linha que demarca a fronteira. Moon, com um sorriso aberto, convidou Kim a cruzar para o lado da Coreia do Sul.

Os dois posaram para a imprensa para imortalizar o momento em que Kim se convertia no primeiro líder norte-coreano a cruzar para Sul desde o final da guerra em 1953. Então Kim fez sinal para que Moon cruzasse para o outro lado. A princípio, o presidente sul-coreano pareceu hesitar, mas o jovial líder norte-coreano não ia se conformar com um "não" e pegou a mão do outro, conduzindo-o até seu lado da fronteira, onde os dois voltaram a dar um aperto de mão.

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Com um amplo sorriso, os dois líderes voltaram a cruzar para o Sul, projetando uma imagem de unidade. Este não foi o único momento de improviso do dia. Na sequência, ambos pediram às suas delegações que posassem para uma foto que aparentemente não estava programada.

Esses momentos mostraram que mesmo em um evento tão planejado como a primeira cúpula intercoreana, centrada no arsenal nuclear da Coreia do Norte, os preparativos raramente são cumpridos à risca. A cerimônia de boas-vindas foi carregada de simbolismo quando os dois líderes caminharam pelo tapete vermelho, à medida que uma guarda de honra usando uniforme tradicional levava bandeiras ao longo de sua passagem.

Durante o dia, houve alguns momentos cômicos, como quando a irmã do líder norte-coreano, Kim Jo-jong, e outro membro da delegação se afastaram bruscamente quando se deram conta de que estavam cobrindo a visão dos fotógrafos. Também houve momentos incômodos, como quando Kim levou muito tempo para assinar o livro de visitas na Casa da Paz, que abriga a cúpula, e Moon parecia não saber para onde olhar.

O longo aperto de mãos da reunião desta sexta-feira contrastou com a última saudação observada no ano 2000, quando o pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, também apertou a mão do então presidente sul-coreano, Kim Dae-jung. O aperto foi vigoroso, mas não durou mais de cinco segundos. A versão de 2007 foi ainda mais breve e durou apenas três segundos, quando Kim Jong-il recebeu Roh Moo-hyun em Pyongyang.

Desde então, a Coreia do Norte avançou significativamente em seu programa armamentístico e, no ano passado, realizou seu sexto teste nuclear e lançou mísseis que podem alcançar o território continental dos Estados Unidos. Durante os momentos de maior tensão, Pyongyang ameaçou Seul e Washington com um "mar de chamas", em alusão a seu arsenal nuclear.

Mas a imagem que ficou marcada desta sexta-feira foi a de dois líderes cruzando a fronteira de mãos dadas para uma cúpula que muitos esperam que leve a um futuro mais pacífico. “Fiquei entusiasmado de nos encontrarmos neste local histórico, e é realmente comovente que você tenha vindo até a linha de demarcação para me receber pessoalmente”, disse Kim ao apertar a mão de Moon na fronteira. “Foi uma grande decisão sua fazê-lo aqui”, respondeu Moon, vestido com um terno escuro e uma gravata azul clara, convidando Kim a passar por cima da linha divisória, o que ele fez, mais uma vez sorridente.

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Passar pela mureta foi algo que Kim Il-sung, seu avô e líder fundador da Coreia do Norte, e seu pai, Kim Jong-il, jamais fizeram. Kim contou ter sentido “um turbilhão de emoções” ao percorrer a distância curta até a divisa, perguntando-se “por que demorou tanto”, disse a Moon posteriormente no início das conversas

Os dois líderes plantaram um pinheiro em um gesto simbólico de paz. Durante a cerimônia na Zona Desmilitarizada de Panmunjom, Kim e Moon regaram a árvore e revelaram uma placa de pedra com os dizeres “Plantando paz e prosperidade” acima dos nomes dos dois líderes.

Em seguida, os mandatários seguiram para a Casa da Paz, instalação na ao sul da fronteira na qual foi realizada a cúpula. “O mundo inteiro está assistindo” disse Kim, com grande expectativa, no início da reunião na Casa da Paz, do lado sul da divisa. “Temos muita coisa sobre nossos ombros”.

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Mais tarde, já próximo do pôr do sol, os dois se sentaram a uma pequena mesa instalada em uma ponte de pedestres ao longo da fronteira para uma conversa particular de meia hora, às vezes rindo e às vezes com a feição mais séria — uma cena extraordinária, tendo em conta a tensão de poucos meses atrás, quando uma Coreia do Norte desafiadora realizava testes nucleares e de mísseis. / Reuters e AFP

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