AP Photo/Richard Drew
AP Photo/Richard Drew

Bastidores: Irritação com uma história que não sai da primeira página

Toda vez que Trump tenta deixar essa confusão para trás, novos desdobramentos a jogam de volta para o centro das preocupações de Washington 

Peter Baker e Maggie Haberman* / The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2017 | 05h00

Enquanto o Air Force One voltava da Europa, no sábado, um pequeno grupo de assessores de Trump se reuniu para elaborar uma declaração que Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente, pudesse dar ao New York Times, explicando por que ele se encontrara com uma advogada que tem conexões com o governo russo. Eles discutiram o quão transparente deveria ser a declaração, segundo pessoas que souberam das conversas. No fim, o presidente optou por uma resposta tão incompleta que exigiu novos complementos diários, cada um mais revelador que o outro.

Tudo culminou na terça-feira, com a publicação de e-mails que deixaram claro que o filho do presidente acreditava que a advogada russa queria encontrá-lo para fornecer informações incriminatórias sobre Hillary Clinton. As ligações com a Rússia dominaram a viagem presidencial à Europa e não devem desaparecer. Toda vez que Trump tenta deixar essa confusão para trás, novos desdobramentos a jogam de volta para o centro das preocupações de Washington. 

Pessoas próximas do presidente e de seu time jurídico estão sob fogo cruzado, culpando anonimamente umas às outras pelas decisões dos últimos dias. Os e-mails minaram a linha de defesa do presidente. Por meses, Trump dispensara as suspeitas de conluio entre a Rússia e sua equipe como “fake news” e “besteira total”. Seu filho mais velho também afirmara que falar em conluio era “nojento” e “muito mentiroso”. 

Depois, em entrevista à Fox News, Trump Jr. disse que, olhando em retrospectiva, teria feito diferente, mas voltou a dizer que não fez nada impróprio. No entanto, os e-mails mostram, no mínimo, que ele estava não só disposto, mas ansioso para aceitar a ajuda do Kremlin. “Adoraria”, escreveu ele. 

Do encontro com a advogada russa, em junho de 2016, também participaram Jared Kushner, marido de sua irmã e hoje conselheiro da Casa Branca, e Paul Manafort, então diretor de campanha com antigos laços com um partido pró-Rússia na Ucrânia. Tanto Trump Jr. quanto a advogada russa, Natalia Veselnitskaya, disseram que o encontro na Trump Tower não teve nada de mais. 

Na entrevista à Fox News, Trump Jr. disse que Kushner saiu do encontro poucos minutos depois do início da conversa. Se o filho do presidente está no foco da controvérsia por ter marcado o encontro, Kushner encara outros problemas, porque trabalha na Casa Branca e não mencionou o compromisso nos formulários para a obtenção da credencial de segurança. Os e-mails foram descobertos nas últimas semanas pela equipe jurídica de Kushner durante a análise de documentos e a equipe adulterou seus formulários para ocultar esse dado, de acordo com pessoas envolvidas no caso. 

A divulgação dos e-mails deixou a Casa Branca novamente na defensiva, com uma tensão crescente. Trump está exasperado e, a pedido dos conselheiros, não tinha dito nada publicamente em defesa de seu filho até terça-feira, quando emitiu uma declaração de uma frase. “Meu filho é uma pessoa de alta qualidade e eu aplaudo sua transparência”. 

Os assessores disseram que o presidente não ficou chateado com seu filho, mas sim com as manchetes. Três pessoas próximas à equipe jurídica disseram que ele também despejou sua ira sobre Marc Kasowitz, seu advogado de longa data. Trump, que em tempos difíceis desconta nos assessores, ficou desiludido com a estratégia de Kasowitz.

A tensão, porém, cresceu em ambos os lados. Kasowitz e seus colegas ficaram incomodados com o presidente. Eles se queixaram que Kushner vem falando ao ouvido do presidente sobre as investigações da Rússia, deixando os advogados fora do jogo. 

Mas uma pessoa próxima a Kasowitz disse que suas preocupações não têm a ver com Kushner. Os advogados do presidente consideram Kushner um obstáculo, um franco-atirador mais preocupado consigo mesmo do que com seu sogro. Embora não haja nenhum ultimato, os advogados disseram que não podem continuar trabalhando desse jeito, o que aumenta a perspectiva de demissão de Kasowitz. 

Além disso, o presidente confessou a aliados próximos que está avaliando uma mudança no staff, e alguns membros de sua família apontaram para o chefe de equipe, Reince Priebus. Mas a maioria dos assessores de Trump admite que não deve haver grandes mudanças no curto prazo. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

*SÃO JORNALISTAS

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.