Drew Angerer/Getty Images/AFP
Drew Angerer/Getty Images/AFP

Bastidores: Por que Trump decidiu matar um alto militar iraniano

Funcionários deram versões incompletas e divergentes sobre quais foram as informações que levaram Trump a ordenar o ataque

Missy Ryan, Josh Dawsey, Dan Lamothe e John Hudson, The Washington Post

04 de janeiro de 2020 | 14h30

No domingo, os principais conselheiros para segurança nacional do presidente Donald Trump reuniram-se com ele em seu resort de Mar-a-Lago, na Flórida, onde o presidente começava uma segunda semana de férias. Os funcionários disseram a repórteres que aviões americanos F-15 Strike Eagles haviam acabado de atacar bases de grupos milicianos patrocinados pelo Irã no Iraque e na Síria, em resposta a uma série de ataques com foguetes que matou um empreiteiro americano dois dias antes.  

Mas, privadamente, outro assunto estava sendo discutido com um agitado presidente: matar ou não o general iraniano Qassim Suleimani, que os líderes militares americanos participantes do encontro acusaram de ser responsável pela morte de americanos.

Entretanto, por que Trump escolheu aquele momento para autorizar a operação contra o líder da força iraniana Quds, depois de tolerar agressões iranianas durante meses, é matéria de debate no próprio governo.

Funcionários deram versões incompletas e divergentes sobre quais foram as informações que levaram Trump a atacar. Alguns se disseram atordoados pela decisão, que poderia levar à guerra com um dos mais antigos adversários dos Estados Unidos no Oriente Médio.

“Foi algo tremendamente ousado e surpreendeu muitos de nós”, disse, na condição de anonimato, um alto funcionário do governo por dentro das discussões entre Trump e seus conselheiros.

Na sexta-feira, horas após um drone americano matar Suleimani e um líder miliciano iraquiano no aeroporto de Bagdá, altos funcionários do Departamento de Estado disseram a repórteres que o Irã planejava “ataques iminentes para matar centenas de americanos”, mas não deram detalhes.

O secretário de Estado, Mike Pompeo, disse à CNN na sexta-feira que Suleimani “conspirava ativamente na região para executar ataques”, o maior dos quais, segundo Pompeo, “poria em risco dezenas, senão centenas de vidas americanas. Sabíamos que isso era iminente”.

No Congresso, funcionários, parlamentares e assessores discutiram a situação, mas não deram detalhes sobre supostos alvos iranianos ou por que os ataques eram considerados iminentes, segundo pessoas presentes.

Alguns analistas estão céticos quanto à necessidade de matar Suleimani.

“Talvez houvesse planos de ataque em andamento como diz Pompeo, mas Suleimani era um estrategista, não um alvo operacional”, afirmou Jon Bateman, que foi analista da situação do Irã para a Agência de Informações para a Defesa. “Assassiná-lo não era nem necessário nem suficiente para desmantelar um ataque iminente. Seria mais eficaz interferir nos cálculos iranianos para impedir futuros ataques”, disse Bateman.

Numa coletiva de imprensa na sexta-feira, o conselheiro para segurança nacional Robert O’Brien disse que a ação contra Suleimani ocorreu após uma recente visita do militar a Damasco e que ele estava planejando atacar militares e funcionários diplomáticos americanos.

“Nosso ataque visou a desmantelar planos de Suleimani e deter futuros ataques iranianos contra americanos pelas Forças Quds e aliados do Irã”, disse O’Brien.

Funcionários do Departamento de Defesa descreveram os planos de Suleimani como continuação de provocações iranianas anteriores, incluindo os ataques com minas a navios no Golfo Pérsico em maio. Um mês depois, Trump cancelou, praticamente no último minuto ataque aéreo destinado a retaliar a destruição de um drone americano de vigilância pelo Irã.

O general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse que Suleimani foi morto após funcionários de inteligência ficarem sabendo da “escala e alcance” de seus planos e concluírem que seria um grande risco não agir.

Há o risco de possíveis reações iranianas? “Há, com os diabos”, disse Milley. “A bola agora está no campo deles e eles decidirão quais os próximos passos.”

A rápida sequência de eventos que culminaram na morte de Suleimani deixou claro que o conflito de décadas entre os dois países atingiu o ponto de fervura.

Na sexta-feira após o Natal, uma barragem de mísseis atingiu um posto conjunto iraquiano-americano em Kirkurk, Iraque. Dos 30 mísseis lançados, 9 explodiram perto das instalações. Funcionários americanos imediatamente acusaram a Kataib Hezbollah, uma poderosa milícia iraquiana que recebe dinheiro e armas do Irã. Foram feridos três soldados americanos e dois policiais federais iraquianos. Um intérprete morreu.

Ataques iranianos com foguetes vinham sendo incomuns depois que os americanos se viram na incômoda posição de lutar ao mesmo lado de milícias apoiadas pelo Irã contra o Estado Islâmico. Mas os ataques recomeçaram em meses recentes quando o governo Trump decidiu continuar com sua campanha de “pressão máxima” contra o Irã por meio de sanções econômicas.

Exatamente 48 horas após o ataque a Kirkurk, aviões americanos F-15 bombardearam cinco núcleos milicianos na Síria e no Iraque. O secretário de Defesa, Mark Esper, disse então que os EUA adotarão “medidas adicionais, se necessárias, para impedir futuras manifestações de mau comportamento”.

A retaliação gerou uma imediata crise política em Bagdá, quando militares foram avisados dos planos de seu principal aliado ocidental de atacar milícias iraquianas ligadas a seu poderoso vizinho.

A reação foi especialmente feroz entre líderes milicianos. “A resposta às forças americanas no Iraque será dura”, advertiu Jamal Jaafar Ibrahimi, subchefe das Forças Populares de Mobilização, mais conhecidas como Abu Mahdi al-Muhandis.

Dois dias depois, milhares de apoiadores das milícias convergiram para a Embaixada dos EUA em Bagdá, jogando coquetéis molotov. derrubando paredes que circundam a embaixada e estabelecendo um núcleo de protesto do lado de fora. Os EUA mandaram cem marines para Bagdá e puseram mais 750 soldados de prontidão no Kuwait.  

A tensão pareceu diminuir no dia seguinte, quando líderes milicianos ordenaram aos manifestantes para partir e o governo iraquiano pediu calma. Funcionários americanos, porém, se queixaram da lentidão com que a liderança iraquiana reagiu ao cerco.

No resort da Flórida, o presidente foi informado de que o líder iraniano viajaria para Bagdá, numa demonstração de que pode continuar se deslocando livremente.

Funcionários lembraram a Trump que ele não havia respondido aos ataques iranianos a navios no Golfo, à derrubada do drone americano e à destruição de uma refinaria saudita. “Se o senhor não responder agora, eles se sentirão livres para fazer o que quiserem”, teriam sugerido ao presidente.

Trump também teria sido motivado pela cobertura negativa da imprensa após ele cancelar o ataque aéreo ao Irã em retaliação à derrubada do drone.

Os EUA acompanharam a movimentação de Suleimani por vários dias, decidindo que a melhor oportunidade para matá-lo seria quando ele estivesse se aproximando do aeroporto de Bagdá.

Trump também há muito pensava na falha de Barack Obama em prever o ataque de militantes islâmicos à missão americana em Benghazai, na Líbia, em 2012, quando foi morto o embaixador J. Christopher Stevens. Trump provavelmente entendeu que uma resposta agora seria uma reação que o faria mais forte em comparação a Obama, disseram congressistas e assessores.

Após a morte Suleimani, funcionários americanos avaliaram uma série de possibilidades - de ataques diretos por parte do Irã a uma ordem do governo iraquiano para que o pessoal americano deixe o país. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.