Erin Schaff/ The New York Times
Erin Schaff/ The New York Times

Bastidores: Vice abandona subserviência para defender a verdade

Mike Pence se comprometeu a comparecer à posse de Biden e começou a se despedir dos funcionários

Josh Dawsey e Ashley Parker, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2021 | 04h00

WASHINGTON - O vice-presidente Mike Pence estava se escondendo de uma violenta multidão de apoiadores de Trump no Capitólio, na quarta-feira, quando o presidente publicou um tweet atacando-o.

“Mike Pence não teve coragem de fazer o que deveria ter sido feito para proteger nosso País e nossa Constituição, dando aos Estados a chance de certificar um conjunto de fatos corrigidos, e não os fatos fraudulentos ou imprecisos que eles tiveram que certificar. Os EUA exigem a verdade!”, o presidente Donald Trump escreveu às 14h24.

Trump não chegou a telefonar para o vice-presidente naquele dia ou nos dias seguintes para saber como Pence estava – muito menos para discutir uma resposta governamental aos tumultos mortais que incitara.

O notável rompimento entre os dois – ocorrido durante os dias tensos que o país atravessou enquanto convulsionava por causa do motim incitado pelo presidente – é o ponto culminante de um relacionamento há muito definido pela lealdade e subserviência de Pence. O vice-presidente, que antes passava horas por dia com Trump, defendia alguns de seus comentários mais incendiários e tomava o cuidado de não falar mal do presidente, até mesmo para seus conselheiros mais próximos, agora pode estar totalmente afastado dele.

Pence se comprometeu a comparecer à posse do presidente eleito Joe Biden e da vice-presidente eleita Kamala Harris, mesmo que Trump não vá. O vice-presidente também começou a se despedir dos funcionários, posar para fotos e ter momentos sentimentais com assessores importantes em seu gabinete executivo.

Um alto funcionário do governo disse que Trump e Pence finalmente se encontraram no Salão Oval na noite de segunda-feira e “tiveram uma boa conversa, discutindo a semana que se inicia e refletindo sobre os últimos quatro anos de trabalho e as realizações do governo”. Pence está sob pressão dos democratas para invocar a 25ª Emenda, um processo para destituir o presidente do cargo, mas não se espera que ele o faça, disseram assessores.

O tratamento de Trump para com Pence repercutiu na Casa Branca e entre assessores de campanha, muitos dos quais o consideram impróprio e injusto. Um alto funcionário do governo o descreveu como “indefensável, até mesmo para os padrões do presidente”.

“Temos muita sorte de Mike Pence ser um cara decente, racional e sensato”, disse Joe Grogan, ex-chefe do Conselho de Política Doméstica de Trump. “Se nos últimos meses ele tivesse sido substituído por alguém tão maluco quanto as pessoas que cercam o presidente, como alguns dos seus principais conselheiros, poderíamos ter tido um banho de sangue ainda maior. Imagine o que teria acontecido se Pence fosse um cara vil e desonesto, que não defendesse a Constituição”.

Judd Deere, porta-voz da Casa Branca, se recusou a comentar as atuais opiniões do presidente sobre Pence ou por que Trump o pressionou tanto para anular a eleição.

“O vice-presidente Pence tem um papel crucial neste governo e ajudou o presidente Trump a alcançar sucessos sem precedentes em nome do povo americano. Todos somos gratos pelo serviço do vice-presidente ao país”, disse Deere.

Os críticos dizem que Pence merece menos crédito depois de ter defendido o presidente por tanto tempo – sem denunciar firmemente a separação de crianças na fronteira, as ligações de Trump com o presidente da Ucrânia e seus inúmeros abusos. Muitos observam que ele escolheu trabalhar com Trump por quatro anos e que foi o chefe da resposta do governo ao coronavírus; mais de 375 mil americanos morreram.

“Há décadas, os republicanos dizem que não se pode negociar com terroristas, e Trump é um terrorista. Pence decidiu negociar com ele porque achava que seria do seu interesse e que seria inevitável”, disse Stuart Stevens, antigo consultor do Partido Republicano e crítico de Trump. “Mike Pence jogou fora tudo aquilo em que dizia acreditar – tudo. Quero dizer, temos aqui um cara que esbravejou contra o adultério em seu programa de rádio e depois se juntou a Donald Trump, é claro que ia acabar assim”.

Agora Pence também enfrenta o opróbrio dos seguidores de Trump, entre eles alguns que exigiram seu enforcamento durante o cerco de quarta-feira ao Capitólio, gritando: “Onde está Mike Pence?”.

“Ele não tem futuro no Partido Republicano”, disse Stevens. “Quando a base do partido não está vaiando você, mas berrando pelo seu enforcamento, não é bom sinal”.

Questionada sobre os gritos e palavras de ordem, Deere não mencionou o nome do vice-presidente em sua resposta. “Condenamos veementemente todos os chamados à violência, incluindo aqueles contra qualquer membro deste governo”, disse Deere.

Para Pence, trata-se de uma posição desconfortável e desconhecida. Um antigo funcionário dos altos círculos do governo disse que Pence chegara a dizer que seu trabalho era fazer quase tudo que Trump lhe pedia.

“O presidente dizia ‘Mike, eu quero que você vá para a Ásia’, e ele ia. Ou, então, ‘Mike, eu quero que você assuma a força-tarefa do coronavírus’, e ele assumia. Ele nunca questionou nada”, disse um ex-funcionário do governo, que como alguns outros falou sob condição de anonimato para se expressar mais francamente. “Pence passava horas no Oval. Ele entrava, ouvia o briefing diário e aí ficava sabendo quando o presidente chegaria ao Oval, depois ia lá e os dois passavam várias horas juntos. O fato de eles não se falarem mais é um paradigma que eu jamais teria imaginado”.

A ruptura começou em 15 de dezembro, quando Trump decidiu, erroneamente, que Pence era seu último recurso para impedir a derrota nas eleições. O presidente começou a dizer a outras pessoas para pressionar seu vice-presidente a se opor à contagem final dos resultados do colégio eleitoral no Congresso, e o assunto surgiu seguidas vezes em conversas entre o presidente e o vice-presidente, disseram funcionários.

Entre os que fizeram pressão estavam os advogados Rudy Giuliani e John Eastman, o conselheiro comercial Peter Navarro e o aliado conspiratório Sidney Powell, disseram funcionários, além de outros advogados e consultores externos enviados pelo chefe de gabinete Mark Meadows. Trump disse a “quase todo mundo que ligou para dizer que ele ainda podia ganhar para ligar para Pence”, disse um alto funcionário do governo. Pence às vezes estava no Salão Oval quando Trump ligava para as pessoas para tentar convencer o vice-presidente, disse um funcionário.

Pence foi submetido a repetidos telefonemas de Trump – entre eles uma chamada na manhã da última quarta-feira – e a ameaças implícitas de que ele o atacaria se não se opusesse à vitória de Biden, disseram funcionários.

“Tome coragem, Mike”, disse Trump em uma reunião, de acordo com uma pessoa presente.

“Vai ser ruim para você e para o país se você não tomar coragem”, disse Trump em outro momento, de acordo com um funcionário que descreveu a conversa.

Alguns dos argumentos eram espúrios, disseram os funcionários. Um deles lembrava a certificação dos votos do colégio eleitoral em 1801, quando o vice-presidente Thomas Jefferson considerou viciosos os delegados da Geórgia. Outro defendia que Pence poderia desconsiderar alguns estados porque estes tinham enviado múltiplas cédulas eleitorais. Quando os assessores do vice-presidente se reuniram com os parlamentares, ficaram sabendo que muitas pessoas enviam votos falsos do colégio eleitoral todos os anos, entre elas um remetente que assina “General Magnifico”, disse um alto funcionário do governo. A eleição de 1800 não teve nada a ver com a eleição atual, disseram as autoridades.

“Nunca houve qualquer tipo de argumento convincente feito pelo presidente ou por qualquer um dos advogados ao seu redor”, disse um alto funcionário do governo. Pence tentou ser respeitoso e ouvir a todos, mas disse para sua equipe conduzir uma análise independente.

Marc Short, chefe de gabinete do vice-presidente, começou a se preparar para uma ruptura inevitável, disse uma pessoa que conversou com ele, e nunca imaginou que Pence pudesse agradar ao presidente.

A equipe de Pence se convenceu de que Trump estava por trás de um processo contra o vice-presidente e que isto também era obra de Powell, disseram dois funcionários.

A Casa Branca não quis comentar. Powell não respondeu a um pedido de comentário.

Trump ficou furioso ao saber que Pence decidira encerrar o processo com a ajuda dos advogados do Departamento de Justiça – e partiu para o ataque, de acordo com funcionários do governo.

Os senadores seguidas vezes disseram ao vice-presidente que não tinham provas para fundamentar as afirmações do presidente e que, embora quisessem ajudar, precisavam de evidências, disse um conselheiro de Pence. O vice-presidente disse a eles que repassaria as mensagens, mas a Casa Branca nunca forneceu provas para os senadores, disse o conselheiro.

Um dia antes da certificação, Trump estava extremamente zangado, disse uma pessoa presente no Salão Oval, e berrou com Pence, com o conselheiro da Casa Branca Pat Cipollone e com outros quando Pence lhe disse que iria certificar os resultados. Pence não estava envolvido em nenhum planejamento do evento no Parque Ellipse e não tinha ideia de que Trump estava planejando mandar uma multidão para o Capitólio.

Pence se reuniu várias vezes com Trump antes da quarta-feira para lhe esclarecer a dinâmica dos procedimentos e explicar por que ele não podia fazer o que Trump queria, disseram conselheiros. Depois que a conversa final de quarta-feira não saiu como ele esperava, Trump foi ao Ellipse e fez um discurso inflamado e carregado de mentiras, no qual repetidamente ameaçou Pence com uma multidão sedenta de sangue.

Pence foi ao Capitólio, onde sua decisão de certificar o resultado da eleição enfureceu o presidente. Pouco depois, a multidão se mobilizou e Trump atacou verbalmente o vice-presidente.

Pence se recusou a deixar o Capitólio depois que os manifestantes invadiram o complexo, embora seu destacamento de segurança em três ocasiões tenha sugerido que seria bom fazê-lo, disse um alto funcionário do governo. O líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, republicano do Kentucky, e outros parlamentares deixaram o prédio. Enquanto Trump assistia à TV e resistia às súplicas para mandar a multidão ir embora, Pence telefonou várias vezes para oficiais militares e outros no governo para acelerar o envio da Guarda Nacional, disseram funcionários. Ele conversou com McConnell sobre o restabelecimento da votação de certificação ainda naquela noite e se reuniu com oficiais da Polícia do Capitólio, enquanto Trump e seus advogados ainda continuavam a mobilizar outras pessoas para tentar retardar a certificação. Nem Trump nem ninguém na Casa Branca procurou saber a situação de Pence, embora Short enfim tenha ligado para o chefe de gabinete de Trump, Mark Meadows, para atualizá-lo sobre sua segurança.

“Embora o vice-presidente e eu não estivéssemos juntos durante a evacuação, ele se envolveu pessoalmente e manteve contato próximo comigo enquanto trabalhávamos para garantir os recursos urgentemente necessários para barrar a multidão, e eu agradeço muito esses esforços”, disse McConnell em declaração ao Washington Post. McConnell disse a outros que estava furioso com Trump e que nunca mais iria falar com ele.

Pence pulou seu discurso na reunião do Comitê Nacional Republicano, marcada para o dia seguinte, e não foi à Casa Branca. Ele voltou na sexta-feira.

Os assessores de Pence dizem que ele precisa ganhar dinheiro no setor privado e pode escrever um livro. O vice-presidente está mantendo em aberto suas opções para uma possível candidatura presidencial em 2024, disse um conselheiro, e se sente em paz com o que fez.

“Pence resistiu a uma enorme pressão pública e privada em um momento histórico. Ele seguiu a Constituição, defendeu o Estado de Direito e tratou as pessoas de todos os lados com civilidade”, disse Tim Phillips, que lidera o American for Prosperity, um grupo filiado a Koch. “Quem o conhece bem não se surpreendeu”.

Trump disse aos assessores que queria banir Short, o chefe de gabinete do vice-presidente, por ter aconselhado Pence a certificar o resultado, e que não estava a fim de ver Pence. Mas ninguém levou o banimento adiante e Short continuou trabalhando, disseram os funcionários, e agendou o evento de despedida de Pence para sexta-feira.

Na noite de sexta-feira, Pence foi ao seu gabinete com a esposa, Karen Pence, e a filha Charlotte Pence para uma cerimônia de despedida. Ele disse aos assessores que esperava que eles estivessem orgulhosos do que haviam conquistado no governo e os incentivou a continuar trabalhando no serviço público, disse uma pessoa presente à reunião. O vice-presidente foi ovacionado de pé por quatro minutos e ganhou de presente sua cadeira do gabinete.

Ele disse aos assessores que, na manhã de quinta-feira, ao deixar o Capitólio, depois de certificar os resultados de Biden, recebeu uma mensagem de texto de Marc Short, seu chefe de gabinete.

“Timóteo 4:7”, dizia o texto. O versículo bíblico diz: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”. / Tradução de Renato Prelorentzou 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.