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Bataclan reabre, um ano após ataque

Entre homenagens discretas às 130 vítimas de ataque terrorista, casa de espetáculos se renova para continuar como parte da história de Paris

Andrei Netto - Correspondente/ Paris, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2016 | 17h11

O hall será mais iluminado, a fachada foi renovada, a estrutura segue a mesma. O resto foi demolido e reconstruído no Bataclan, casa de shows aberta em 1865 que se tornou conhecida por um massacre. Na noite de 13 de novembro de 2015, 90 pessoas foram assassinadas no local por membros do Estado Islâmico - ao todo, 137 morreram, incluindo 7 terroristas. Um ano depois, a sala reabre com um show do cantor Sting.

A reabertura do Bataclan, na noite de sábado, seria um dos pontos altos de homenagens em um fim de semana em que as famílias de vítimas pediram por introspecção e recolhimento. A reabertura, com a presença de sobreviventes e famílias - 400 convidados ao todo -, serve como símbolo de que a capital da França busca retomar sua vida normal após a sequência de atentados que atinge o país desde janeiro de 2015. 

Ainda em estado de emergência - um regime de exceção que amplia os poderes da polícia, do Ministério Público e da Justiça no combate às células terroristas -, a França ainda se ressente dos efeitos dos atentados. O turismo teve queda de cerca de 15% no número de visitantes e a frequência das salas de espetáculo também está em baixa.

Boates registram queda de 25% no número de clientes. Cafés, bares e restaurantes indicam redução similar. “Há uma queda de 20% no conjunto do segmento”, diz Michel Bénezet, presidente do Sindicato Nacional dos Hoteleiros, Restaurantes e Cafeterias.

O recuo não se explica apenas por receio ou medo de parte da população. Desde os atentados de 13 de novembro, Paris vive sob normas mais estritas de segurança, que pouco a pouco causam estresse e levam alguns habitantes a desistirem - ao menos temporariamente - de seus hábitos de lazer e consumo. 

Como no Brasil, shoppings centers agora têm seguranças, visitas a museus e concertos de música são precedidos de revistas e, não raro, longas filas. “A festa se faz cada vez mais em casa”, afirma Bénezet, que lamenta a psicose causada pelos ataques.

Em Paris e no interior, essa psicose é enfrentada com mais polícia nas ruas. Nos últimos meses, reservistas chamados pelo governo de François Hollande têm retornado aos seus postos e voluntários se unem ao treinamento e às forças de segurança que vigiam os locais mais sensíveis, como pontos turísticos e redes de transportes. 

Um desses reservistas é Pierre Matelot, de 18 anos, que aderiu à Marinha, vigiando os pontos considerados mais suscetíveis de ataques. “Eu me engajei porque é impossível ficar insensível ao que se passou”, diz o jovem, que circula em roupas militares, colete à prova de balas e fuzil de assalto. “Essa é a minha maneira de reagir.”

Em meio a um país ameaçado, entretanto, há aqueles com muito mais dificuldade de virar a página. Esse é o caso dos familiares de vítimas dos ataques de Paris e Saint-Denis, que solicitaram ao governo cerimônias discretas, sem grandes manifestações públicas no primeiro aniversário da tragédia. “Queremos que o dia de 13 de novembro guarde um caráter solene, inteiramente voltado à memória dos eventos, à lembrança e à solidariedade”, explica Georges Salines, presidente da associação 13onze15, que reúne sobreviventes e parentes de vítimas.

Alexis Lebrun, sobrevivente do Bataclan e porta-voz de outro grupo de vítimas, Life for Paris, confirma que a maior parte das famílias deseja nesse primeiro aniversário resguardo, silêncio e reflexão. “O evento foi tão desproporcional, tão fora do normal, que as pessoas que viveram esse acontecimento horrível têm a impressão de que os eventos lhes escapam”, diz.

É entre os pedidos de silêncio e reflexão e à lutar pelo retorno à normalidade que os proprietários do Bataclan decidiram, após longa reflexão, reformar o prédio e reabrir as portas na véspera do primeiro aniversário dos ataques. Um dos defensores desse “ato de resistência” foi Jérôme Langlet, um dos proprietários, que ainda se emociona ao falar a respeito. “Eu nem podia falar no assunto, porque ninguém está preparado para o que aconteceu”, diz ele. Mas hoje, entende, o momento é de reconstrução. “O Bataclan não deve morrer. Ele tem uma alma e uma história.” 

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