AP Photo/Felipe Dana
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Batalha de Mossul é a maior desde 2003 

Jihadistas queimam poços e fumaça bloqueia o sol, confunde sensores dos satélites e impede visão dos pilotos ocidentais que atacam cidade

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2016 | 05h00

No campo de batalha em que o dia vira noite e a noite é sem estrelas, a fonte da riqueza da cidade de 2 milhões de habitantes é agora a origem do medo - na grande Mossul, no norte do Iraque, dezenas de poços da segunda maior reserva de petróleo do país são usados como arma: queimam em chamas, incendiados pelo Estado Islâmico (EI). 

As nuvens de fumaça preta bloqueiam a luz solar, embaçam o firmamento, confundem os sensores dos satélites e impedem a visão dos pilotos dos aviões de ataque da coalizão ocidental que apoia as forças de Bagdá. Também intoxicam pessoas, milhares delas. Só os extremistas do EI têm máscaras. 

Nos hospitais de poucos recursos como o Solar da Saúde, os médicos limitam-se a recomendar o uso de compressas de pano molhado sobre o rosto - funciona como uma espécie de filtro. Apenas casos mais graves recebem atendimento especializado. “Essas vítimas geralmente morrem”, relata a iraquiana Ignez, vivendo abrigada por um tempo em uma comunidade religiosa no interior de São Paulo. 

Ex-secretária de uma empreiteira brasileira que manteve negócios no Iraque durante os anos 70 e 80, Ignez está de passagem, vai morar com parentes na Colômbia, muitos, como ela, tangidos pela guerra. Outros primos ainda estão morando em Mossul e, relata, “não saem porque não podem, os homens do Daesh (a sigla em árabe do EI) proíbem, quem tenta fugir corre risco”. 

Surpreendentemente, a internet e a telefonia móvel continuam funcionando, embora irregularmente, em alguns bairros da zona leste, sob cerco das tropas curdas peshmerga. Não inspira confiança. A população local é xiita, os curdos são sunitas. O primeiro-ministro Haider al-Abadi garante que “no momento final” a ocupação será feita pelo Exército e pela polícia. O prefeito Khalid al-Jar pediu mediação dos EUA.

Superioridade. As diferenças dos arsenais na frente de combate são enormes. As unidades regulares de assalto têm tanques pesados, canhões eletrônicos de tiro rápido e fuzis de última geração, além de um vasto sortimento de acessórios, como rádios digitais, foguetes não guiados antiblindagem, granadas e farta munição. 

Helicópteros americanos Apache disparam armas guiadas de longa distância e caças supersônicos de vários tipos e várias bandeiras despejam bombas de um novo tipo, mais leves (128 kg) e mais precisas sobre centrais elétricas, redes de comunicações e estações de bombeamento de oleodutos. Os milicianos, bem diferente disso, vão à luta com equipamentos russos do período da União Soviética, fornecidos por traficantes internacionais a baixo custo, fuzis Ak-47 e metralhadoras Dushka desenhadas em 1939, montadas sobre picapes. 

A luta por Mossul é o maior confronto militar do Iraque desde a invasão americana, em 2003. A cidade foi ocupada pelo EI em junho de 2014. Foi lá que o líder do movimento, Abu Bakr al-Baghdadi proclamou o califado do Iraque e do Levante. A campanha pela retomada, liderada pelo Exército iraquiano, começou em março. Tropas montaram um cerco envolvendo dez vilarejos e oito pequenos centros urbanos que compõem a rede de abastecimento de alimentos de Mossul. Em 16 de outubro começou a ofensiva terrestre, com cobertura da aviação de EUA, França e Reino Unido.

Há quase 90 mil soldados empenhados: cerca de 50 mil iraquianos, mais 40 mil peshmergas. Milicianos sunitas e guerrilheiros das minorias shabak, cristã e yazidi, somam mais 9 mil voluntários. O deslocamento está vindo do nordeste e do leste. Equipes, provavelmente treinadas por assessores dos EUA, estão criando uma linha de contenção a noroeste para cortar as linhas de suprimento e, ao norte, controlar a barragem que abastece a cidade. O comandante das Forças da Província de Nínive, general Najin Abdullah, estima que permanecem na cidade entre 700 mil e 1,5 milhão de pessoas, uma população predominantemente de mulheres, crianças, idosos e doentes. 

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