Batalha de rua no Cairo mata 11 e fere 200

Candidatos suspendem campanha eleitoral após ataque a manifestantes diante de ministério

JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2012 | 03h02

Cenas de batalha de rua retornaram ontem ao Cairo, três semanas antes do primeiro turno das eleições presidenciais do Egito. Homens com roupas civis - supostamente a serviço de grupos leais ao ex-ditador Hosni Mubarak - atacaram manifestantes que protestavam contra a junta militar diante do Ministério da Defesa. Pelo menos 11 pessoas morreram e cerca de 200 ficaram feridas.

Os confrontos lançaram ainda mais incerteza sobre o processo eleitoral egípcio. O primeiro turno da disputa está marcado para os dias 23 e 24.

Ontem, vários candidatos anunciaram a suspensão de suas campanhas, enquanto líderes do bloco islâmico boicotaram uma reunião com o Conselho Supremo das Forças Armadas para discutir a nova Constituição. Marcado para ontem à noite, o primeiro debate na TV da campanha - entre o candidato islâmico Abdel-Moneim Abolfotoh e o diplomata Amr Moussa, ex-chanceler de Mubarak - foi cancelado.

"Não podemos dialogar enquanto sangue está sendo derramado nas ruas", afirmou Essam el-Erian, membro do partido da Irmandade Muçulmana, o Liberdade e Justiça. Em nota, a Irmandade - que controla quase metade das cadeiras do Parlamento eleito no início do ano - acusou os generais de "obstruir a transmissão do poder". O grupo islâmico convocou novos protestos para hoje na Praça Tahrir.

A maior parte dos manifestantes que protestavam diante do Ministério da Defesa era de partidários do salafista Hazem Salah Abu Ismail, cuja candidatura foi barrada pelo Comitê Eleitoral sob o argumento de que a mãe do político tinha cidadania americana. Os salafistas têm uma interpretação ultrarradical do Islã, que prega o retorno aos costumes do tempo do Profeta Maomé. Com a intensificação dos protestos, outros grupos - como a Irmandade Muçulmana e jovens seculares - juntaram-se à manifestação.

Líderes seculares e religiosos culparam "delinquentes" a serviço do Conselho Supremo das Forças Armadas pela violência. Os generais usariam a violência para atrasar a dissolução da junta militar, acusaram manifestantes. Segundo o calendário oficial, o conselho militar que assumiu o poder imediatamente após a queda de Mubarak, em fevereiro, será dissolvido em 1.º de julho, uma semana após o anúncio do novo presidente.

Espadas e garrafas. Fontes hospitalares afirmam que oito manifestantes foram mortos com tiros na cabeça e três, a facadas. Os homens que atacaram a multidão carregavam armas de fogo e até mesmo espadas, segundo jornalistas estrangeiros que estavam diante do ministério, no bairro de Abbasiya, centro do Cairo. Manifestantes responderam com pedras, garrafas e coquetéis molotov.

A batalha de rua continuou após o anoitecer, diante da falta de poder ou vontade das forças de segurança para encerrar a violência. Tarde da noite, um novo contingente de policiais antidistúrbio chegou ao local e pôs fim ao confronto.

"O Conselho Supremo das Forças Armadas e o governo são incapazes de proteger civis ou estão ligados aos delinquentes. O Egito está indo pelo cano", postou no Twitter o diplomata Mohamed ElBaradei, ganhador do Nobel da Paz e uma das vozes críticas aos militares do Cairo.

O candidato da Irmandade, Mohamed Mursi, anunciou que suspenderá por dois dias sua campanha em respeito aos "mártires" de ontem. Abolfotoh, o outro nome forte do campo islâmico na disputa, disse ter parado por tempo indeterminado sua busca por votos. Tido como representante do campo pró-Mubarak, Moussa afirmou que a inércia das forças de segurança foi "inaceitável". / AP

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