Batalha de rua tomou quase todo o centro de Túnis

Cenário: Yan Boechat e Dubes Sonego

SÃO JORNALISTAS, EM TÚNIS, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2013 | 02h06

Ainda não eram 10 horas quando os primeiros manifestantes começaram a se aglomerar na frente do Ministério do Interior, um prédio imponente localizado na principal via de Túnis, a Avenida Habib Bourguiba - e símbolo do regime do ditador Zine al-Abidine Ben Ali, deposto há dois anos no estopim da Primavera Árabe. Em questão de minutos, o que era uma tímida manifestação contra a morte do líder da oposição, Chokri Belaid, transformou-se em um evento de milhares de pessoas contra o governo de coalizão liderado pelo partido islâmico Ennahda. Rapidamente os gritos de protesto contra os policiais que faziam a segurança do edifício passaram a ser acompanhados por pedras, pedaços de pau, garrafas de água e tudo o que os manifestantes - principalmente os mais jovens - encontravam.

A partir de então, a manifestação converteu-se em uma batalha de rua, tomando as principais vias do centro de Túnis, em especial perto da região conhecida como Palácio de Barcelona, onde fica o principal terminal dos bondes que interligam a cidade. Foi nessas mesmas ruas que, há dois anos, os manifestantes enfrentaram as forcas de Ben Ali exigindo sua deposição. E, também como na última vez, a resposta dos policiais veio na forma de bombas de gás lacrimogêneo, porretes e mesmo pedras para tentar dispersar os manifestantes.

Em meio ao corre-corre, jovens recuavam e avançavam em ondas, atirado pedras e garrafas nos policiais do batalhão de choque. A cada ofensiva da polícia, os grupos se dispersavam em ruas adjacentes. Em seguida, voltavam a se reunir em outros pontos, fazendo com que os enfrentamentos tomassem conta de dezenas de ruas da região central.

Policiais à paisana misturados aos manifestantes usavam pedaços de pau para agredir os mais exaltados. A cada bomba de gás, quem podia buscava abrigo em shoppings e lojas, que imediatamente cerravam as portas.

Quando a noite começou a se aproximar, os policiais passaram a perseguir e cercar os manifestantes, quase sempre homens jovens, vítimas do desemprego que assola o país. Muitos deles foram espancados antes de serem colocados em carros da polícia ou mesmo veículos sem nenhuma identificação.

Em uma rua nas proximidades do terminal de bondes, os manifestantes tentaram criar uma barricada com pedaços de madeira de um prédio em reforma. Atearam fogo, mas o pequeno monte de entulho não foi capaz de impedir o avanço dos policiais, que passaram a contar com o auxilio de blindados equipados com lanceadores de bombas de gás lacrimogêneo.

Uma das poucas aglomerações poupadas pela polícia foi o cortejo fúnebre do líder de oposição, acompanhado por uma multidão e por outros líderes políticos, que caminhavam dando entrevistas à imprensa nacional e estrangeira. Centenas de pessoas seguiram a ambulância que levava o corpo sem serem importunadas pela policia e gritando palavras de ordem pedindo a deposição do governo de coalizão. Nas ruas adjacentes, no entanto, os enfrentamentos continuavam.

Em meio ao caos em que se transformou o centro da cidade, milhares de trabalhadores tentavam voltar para casa, driblando os conflitos entre manifestantes e polícia, buscando alternativos no labiríntico emaranhado de ruas da área comercial de Túnis.

Apesar da violência de policiais e manifestantes, apenas uma morte foi registrada, a de um policial, que recebeu uma pedrada na cabeça. As forcas de segurança não fizeram uso de armas de fogo, apesar de alguns deles apontarem fuzis para os manifestantes.

Nas primeiras horas da noite, a região central de Túnis ficou totalmente deserta. Os bares sempre animados da Avenida Habib Bourguiba não abriram e poucas pessoas se aventuraram pelas ruas da cidade, com exceção de alguns taxistas. Após um dia inteiro de sons de bombas, sirenes e muita gritaria, Túnis foi dormir estranhamente silenciosa.

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