'Batalha dos palestinos na ONU está suspensa'

Chanceler palestino diz que não buscará adesão a agências internacionais 'por enquanto' para dar tempo a mediadores

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2011 | 03h06

A Autoridade Palestina deixou temporariamente de lado a luta para ser reconhecida por agências da ONU como Estado soberano - iniciativa que vinha irritando os Estados Unidos. A informação foi revelada ontem pelo chanceler palestino, Riad Malki, em entrevista exclusiva ao Estado. O ministro passou por São Paulo depois de ter participado da cúpula do Mercosul, em Montevidéu, onde assinou um acordo de livre comércio com o bloco. A seguir, trechos da entrevista.

2011 foi conturbado para a diplomacia palestina. Começou com o sonho de adesão à ONU e, no final, não só ficou claro que os EUA vetariam a medida, como palestinos não teriam votos necessários no Conselho de Segurança. Ainda que a Palestina tenha entrado na Unesco, o sr. admite ter sido derrotado na ONU?

De jeito nenhum. Fomos à ONU sabendo que não seria um passeio, o presidente Barack Obama estava disposto a usar o veto no Conselho de Segurança e, na Assembleia-Geral, ele inviabilizaria nossa missão. Não houve derrota. O fato de termos recorrido à ONU, o histórico discurso do presidente Mahmoud Abbas na Assembleia-Geral e a reação dos países já são uma vitória. Tivemos um triunfo na Unesco. Esta semana, 182 países votaram na ONU a favor do direito de autodeterminação dos palestinos.

E a luta pelo reconhecimento em outras agências da ONU, como a Organização Mundial da Saúde, continua?

Decidimos, por conta própria, não recorrer a essas outras agências. Poderíamos obter reconhecimento completo delas e derrotar os EUA em todas elas, se quiséssemos. Mas decidimos não fazer isso.

Por quê?

Demos nossa palavra ao Quarteto (grupo de mediadores formado por EUA, Rússia, União Europeia e ONU) de que, enquanto eles fizerem o máximo para convencer Israel a parar de construir assentamentos, não tomaremos nenhuma medida que mine esses esforços. Quando o período acabar, estaremos livres para recorrer a agências da ONU, à Assembleia-Geral e ao Conselho de Segurança.

Na semana passada, o pré-candidato republicano Newt Gingritch disse que 'os palestinos são um povo inventado'. O que o sr. acha disso? Um presidente republicano pode afastar ainda mais os EUA dos palestinos?

Não. Essa declaração é fruto de completa ignorância. Ele (Gingritch) diz ser historiador, mas precisa voltar à escola. Sabemos que isso é parte do esforço para mostrar quem é mais pró-Israel - e anti-palestino -, na luta pelo voto judaico. Mas, a partir do momento em que se vence a eleição, é preciso se adequar a certas normas.

Como o sr. vê o acordo de livre comércio entre Mercosul e Palestina firmado esta semana?

Trata-se de uma demonstração de solidariedade política, mais do que qualquer outra coisa. Do ponto de vista da troca comercial em si, nós obviamente não temos tanto a oferecer. Esse passo do Mercosul vem depois de a maior parte dos países da região ter reconhecido o Estado palestino.

O Brasil nunca esteve tão disposto a se envolver na questão palestino-israelense. Este mês, o País anunciou uma doação extra de US$7,5 milhões à região e a diplomacia brasileira tem defendido abertamente o reconhecimento da Palestina. Quanto o sr. acha que o Brasil pode realmente influenciar?

Consideramos nossa relação com o Brasil ótima, a melhor possível - desde o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até agora, com a presidente Dilma Rousseff. É por isso que, na abertura da cúpula do Mercosul em Montevidéu, na segunda-feira, pedi um maior envolvimento da América do Sul. Disse que um 'ar novo' trazido pelo continente pode ajudar a superar os impasses de tantos anos do processo de paz. Vemos cada vez mais as limitações do Quarteto.

O sr. vê o Brasil um dia integrando um grupo desses?

Lula falava em abrir o Quarteto e trazer 'sangue novo' às negociações. O chanceler Antonio Patriota fez uma recomendação na cúpula do Mercosul, adaptada ao texto final, para que o Quarteto preste contas periodicamente. É preciso dizer ainda que esse grupo de potências não explicita os "termos de referência" (pontos de consenso que serviriam de base ao diálogo de paz). Talvez chegou a hora de admitir novos negociadores, considerando a ascensão dos Brics.

Mas, se nem os palestinos e israelenses se entendem sobre os termos de referência, como o Quarteto pode se pronunciar?

Em nove anos, o Quarteto não alcançou nada, a não ser a falsa impressão de negociação enquanto crescia a ocupação nos territórios palestinos. Há 20 anos dialogamos com Israel e não conseguimos nada. Sentimos que continuar nesse processo diplomático sem fim, enquanto Israel muda o status quo no terreno é impossível. Por isso países como o Brasil devem trazer novas ideias e arejar o processo de paz. Lula sugeriu a formação de um grupo de amigos da paz no Oriente Médio. Por que não? Podem ser 10, 20 ou 30 nações, que trarão novas ideias e pressão política. O Brasil pode liderar isso, juntamente com países como África do Sul, Índia, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, entre outros.

Como seria o melhor 2012 para os palestinos?

Uma ano em que Estados Unidos e Israel parem de se opor à construção do Estado palestino, que passará a fazer parte da ONU.

E o pior 2012?

Caso Israel, temendo ficar ainda mais isolado, faça alguma coisa estúpida - como atacar a Faixa de Gaza, Líbano ou Irã.

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