Batalha entre muçulmanos e hindus se intensifica na Índia

A Irlanda dividida entre protestantes e católicos. Israel massacrada pelas brigas entre muçulmanos e judeus. O Afeganistão dominado por um fanático chamado Osama bin Laden, que está tentando aniquilar o mundo cristão. O presidente americano George W. Bush, que sonha com o tempo das Cruzadas. Sem dúvida, o fanatismo religioso é uma das pragas no nosso século. Esse fanatismo ganhou uma nova manifestação na Índia. E precisamente no próspero Estado de Gujarat - ao norte de Bombaim, na costa oeste -, onde nasceu o campeão mundial da tolerância e da não-violência, o Mahatma Gandhi. Certamente, a não-violência acabou em Gujarat, e também em toda a Índia, onde a batalha entre muçulmanos e hindus, intensificada pela vizinhança do Paquistão (país muçulmano fanático), ganha força a cada dia. No estado de Gujarat (50 milhões de habitantes, quase tanto quanto a França) se realizaram, ontem, eleições regionais. E o candidato dos nacionalistas hindus ganhou com grande margem. Não os hindus moderados, do Partido do Congresso, de Nehru e Indira Gandhi, mas uma facção radical dos hindus, o BJP. Essa vitória é simbólica. Em fevereiro passado, 59 peregrinos hindus morreram carbonizados em um trem incendiado por muçulmanos. Essa confusão provocou uma onda de ódio religioso. Uma caça aos muçulmanos foi lançada pelos hindus e duas mil pessoas foram assassinadas de maneira bárbara. Pensava-se que este horror poderia ter moderado um pouco as paixões religiosas, especialmente dos hinduístas. Nada disso. O candidato do partido nacionalista BJP, Narendra Modi, longe de silenciar sobre o assunto na campanha, evocou-o a todo instante. E ele foi eleito de modo triunfante. Esta onda de nacionalismo antimuçulmano iniciada em Gujarat pode contaminar toda a Índia. Um outro partido hinduísta, o VHP - ainda mais fanático que o BJP - quer reproduzir o mesmo discurso no resto da federação. E, como mais nove Estados votarão em 2003, a eloqüência extremista do vitorioso Modi, que teve lugar em Gujarat, tem todas as chances de triunfar. Esta irrupção de extremismo hinduísta é tanto ou mais perigosa que aquela que se reuniu para desafiá-la no vasto combate que, no mundo inteiro, da Argélia ao Afeganistão, alimenta a guerra e a morte. O fato está particularmente comprovado pelo Gujarat, onde o candidato hinduísta está quase invadindo o Paquistão. Na independência, em 1947, a Índia foi dividida entre os hindus, com uma minoria de 100 milhões de muçulmanos sob uma população hindu de um bilhão, e o Paquistão, exclusivamente muçulmano. Ora, o Paquistão, hoje em dia, reclama certos territórios atribuídos então à Índia, ainda que fossem habitados sobretudo por muçulmanos. É o caso de uma parte da Caxemira, onde uma guerrilha muçulmana assombra as regiões hindus, promovendo assassinatos. Por outro lado, o Paquistão está na linha de frente do grande confronto entre o Ocidente e o fundamentalismo islâmico. Próximo do Afeganistão e há muito tempo padrinho dos ferozes talebans de Cabul, o Paquistão é, certamente, aliado dos ocidentais graças ao general Musharaff. Mas, neste país, e apesar dos esforços de Musharaff, as escolas religiosas, os arautos das mesquitas, uma grande parte do exército e o povo pregam a guerra santa contra os não-muçulmanos, sejam cristãos ou hinduístas. Deste modo, a proximidade dos dois enormes países - Paquistão e Índia - dominados um pelo hinduísmo e o outro pelo islamismo, um mais fanático que o outro, constitui um perigo muito grande. Até na Índia, os partidos hinduístas - nacionalistas como o BJP, que triunfaram em Gujarat, ou extremistas, como o VHP - não param de incentivar o ataque ao islamismo dos vizinhos paquistaneses. Durante a campanha de Gujarat, Modi não parou de lançar ataques contra os "muçulmanos indianos, os traidores, que deviam ir para o Paquistão".

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