Nir Elias/Reuters
Nir Elias/Reuters

Como um time de futebol e sua torcida organizada revelam a profunda divisão em Israel

Um magnata da tecnologia de Tel-Aviv comprou a equipe no ano passado e agora está enfrentando a torcida La Familia, que abala os estádios com seu grito 'Guerra'

Steven Zeitchik / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2019 | 08h00

JERUSALÉM - Os radicais torcedores do Beitar Jerusalem Football Club, de Jerusalém, são orgulhosos por seu time nunca ter contratado um jogador árabe muçulmano e por uma vez terem boicotado seus jogos quando o clube contratou, por um breve período, dois jogadores muçulmanos da Chechênia. A torcida, que leva o nome de La Familia e abala o estádio com seu grito "Guerra", se tornou a mais notória do futebol israelense.

Mas, de uma maneira impressionante, um magnata da tecnologia de Tel-Aviv comprou a equipe no ano passado e agora está enfrentando o La Familia. Moshe Hogeg prometeu livrar o clube de sua base de fãs racistas - seus advogados chegaram a enviar cartas aos fãs ameaçando com ações judiciais - e assinou com um jogador africano chamado Ali Mohamed. A La Familia viu isso como uma afronta, embora Mohamed seja um cristão.

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O esforço de Hogeg para reformar o Beitar Jerusalem e sua torcida se tornou um ponto de tensão nas guerras de classes de Israel, que colocam uma tradicional e antiga classe trabalhadora contra os chamados 'novos ricos'.

As eleições de Israel na semana passada revelaram um país extremamente polarizado, dividido entre religioso e secular, pró-guerra e moderado. Mas, sob muitos aspectos, é o cisma entre a classe trabalhadora, tão leal ao antigo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e ao Beitar Jerusalem, e a elite liberal, que despreza ambos, que deixou a política israelense diante de um impasse tão desesperador.

A questão agora é se o partido Likud, de Netanyahu, e seu rival, o Azul e o Branco, encontrarão uma maneira de superar a divisão e talvez formar um governo de unidade.

A linha de divisão é tanto de classe como cultural. Os críticos da La Familia podem chamá-la de nativista e racista, mas seus integrantes dizem que são simplesmente representantes de uma classe trabalhadora de Israel que os israelenses mais ricos não entendem. 

"Moshe Hogeg acha que pode chegar e nos dizer como viver nossas vidas, como se ele soubesse mais do que nós por  ganhar mais dinheiro", disse Mati Suleimani, de 18 anos, membro da La Familia, do lado de fora do estádio durante o jogo de abertura da equipe no fim de agosto contra o Hapoel, em Be'er Sheva. "E ele está enganado."

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Hino e ofensas na arquibancada

Dentro do estádio lotado, quando o jogo estava prestes a começar, os fãs seguiram o exemplo da La Familia, cantando uma versão arrebatadora do hino nacional israelense antes de, finalmente, recorrerem ao grito de guerra e uma tempestade de xingamentos aos oponentes.

A La Familia dá a cara de uma orgulhosa equipe de direita fundada em 1936, mais de uma década antes de o Estado de Israel ser fundado (1948). 

A equipe fazia parte do movimento liderado por Zeev Jabotinsky - a filosofia "sionista revisionista", combinando a ideia de uma pátria judaica com política nacionalista - e rivalizava com o movimento sionista liderado pelo fundador de Israel, David Ben-Gurion.

Ao longo de sua história, Beitar Jerusalem permaneceu estreitamente associado ao sionismo revisionista, que mais tarde deu origem ao movimento Likud, de Menachem Begin. Entre os fãs mais recentes estão o próprio Netanyahu e o falcão Avigdor Liberman, ex-ministro da Defesa.

Israelenses que se sentem deixados para trás

Beitar é formado fortemente por um segmento de israelenses que se sentem cada vez mais deixados para trás.

A economia israelense tem sido forte nos últimos anos, impulsionada por um boom da tecnologia. Empresas como Waze, Mobileye, Sirin Labs, e a plataforma social Mobli transformaram Israel em uma "nação de start-ups" com o maior número de empreendimentos per capita do mundo.

Esse boom, no entanto, envolveu e beneficiou amplamente israelenses instruídos, normalmente na cosmopolita cidade de Tel-Aviv. Israel ainda não vai muito bem quando o assunto é igualdade de renda, ocupando o 27º lugar dos 37 países do mundo desenvolvido, medido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2018.

O futebol explica a sociedade

"Apenas cerca de 9% dos israelenses trabalham na indústria de tecnologia, mas esses 9% geram muita riqueza", disse Noga Dagan-Buzaglo, diretor-executivo do Adva Center, um centro de estudos em Tel-Aviv que estuda questões sociais. “Isso está tornando o país mais dividido. O que você está vendo com o Beitar é o resultado dessas divisões.”

Embora a diferença de classe seja relativamente moderna, Beitar há muito tempo oferece um refúgio aos desprivilegiados, geralmente judeus do Norte da África e do Oriente Médio, disse Yair Galily, que dirige o Laboratório de Pesquisa em Esporte, Mídia e Sociedade da Sammy Ofer School of Communications do país. 

"É a equipe dos pobres e infelizes que chegaram ao país há 70 e 80 anos", disse ele. "Os fãs de hoje se apegam a essa imagem psicologicamente."

Confronto entre diretoria e organizada

Para Hogeg, é hora de mudar. Depois de enviar cartas ameaçadoras a sete torcedores e processar dois por danos, ele disse que revogou todos os ingressos da temporada e impediu a La Familia de vender suas mercadorias dentro do estádio.

"É uma luta", admitiu ele em uma entrevista. "Mas é importante demais para não lutar."

Hogeg, de 38 anos, discorda das definições que fazem dele de um magnata. Ele diz vir de uma família da classe trabalhadora e seu pai era funcionário do governo. Há dez anos, disse Hogeg, ele não tinha dinheiro.

"Não estou tentando ser o pai da La Familia", continuou ele. "Mas isso não significa que eu precise apoiá-los (torcedores)." 

Ele observou que os patrocinadores que abandonaram a equipe por causa de sua reputação começaram lentamente a retornar.

Hogeg diz que não está tentando mudar o caráter político da equipe. “Você pode ser de direita e do Likud. Isso não significa que você tenha de ser racista."

Mas Beitar continua sendo o único time da principal divisão israelense a nunca contratar um jogador árabe muçulmano.

Talvez para tentar mudar essa questão, Hogeg assinou em junho com Mohamed, um meio-campista de 23 anos do Níger. Na página de 38 mil seguidores do time, os torcedores disseram que vão "mudar" o nome muçulmano de Mohamed no Facebook. A publicação não explicou como poderia fazer isso. 

No estádio, muitos torcedores disseram não se importar com o nome de Mohamed, enquanto outros falaram que só aprovariam a assinatura depois que ela trouxesse vitórias para o time.

 

"O nome me incomodou, para ser sincero", disse Yitzhak Levy, de 38 anos, que trabalha em uma concessionária de carros. "Mas quando você vê que o jogador é tão bom, precisa aceitá-lo."

Alguns fãs disseram que aceitariam um árabe muçulmano no time, mas apenas sob certas circunstâncias. "Eu gostaria que fosse feito apenas pelo futebol, para não agitar as coisas", disse o motorista Aviv Bentolila, de 21 anos, em meio a um mar de pessoas vestidas nas cores amarela e preta do time entre os cerca de 30 mil pagantes do Teddy Stadium, ironicamente nomeado para homenagear o ex-prefeito socialista de Jerusalém, Teddy Kollek.

Apenas alguns fãs disseram estar inequivocamente bem com um muçulmano árabe. Mas quase todos os fãs concordaram que ficaram felizes em ver Hogeg gastando dinheiro com os jogadores e esperam agora que o time possa levar a equipe de volta para seu lugar no campeonato. O clube não conquista um título desde 2008.

E todos os torcedores entrevistados também concordaram em apoiar seus políticos de direita. "Beitar é Likud e Likud é Beitar", disse Amram Temstat, de 56 anos, que trabalha com educação especial.

O papel dominante da ideologia do Beitar fez da equipe uma anomalia no futebol internacional.

"O Beitar é realmente o último clube político de Israel e um dos últimos do sistema europeu a ser criado nesse modelo", disse Galily. "É o último lugar em que o futebol não é completamente uma mercadoria - onde os fãs acreditam que o clube pertence a eles e o proprietário é apenas um convidado. A questão é se Hogeg pode mudar isso.”

Pelo menos por enquanto, Hogeg está tentando enviar uma nova mensagem. Ele tem um novo slogan, tirado da Bíblia, bordado em uniformes, além de outras mercadorias do clube: "Ame a seu próximo como a si mesmo". / W. POST

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