AFP PHOTO / AHMAD AL-RUBAYE
AFP PHOTO / AHMAD AL-RUBAYE
Imagem Adriana Carranca
Colunista
Adriana Carranca
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Batalha por Mossul

Com a perspectiva de derrota do EI, Assad parece estar virando as costas aos curdos em favorecimento da aliança Moscou-Ancara, que inclui também o Irã xiita

Adriana Carranca*, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2016 | 06h00

Em fevereiro, milícias curdas apoiadas pelos EUA celebraram a recaptura de Shadadi, último reduto do Estado Islâmico em Al-Hasakah, no nordeste da Síria. A vitória era particularmente importante. A província está localizada na metade do caminho entre Raqqa, capital do califado, e Mossul, nas mãos dos extremistas desde 2014. Esperava-se, com isso, bloquear a ligação entre as duas cidades e, assim, a rota de abastecimento de armas e suprimentos ao grupo em Mossul. 

A ofensiva para recapturar Al-Hasakah começara oito meses antes, sob o regime de Bashar Assad. Os milicianos da Unidade de Proteção do Povo (YPG, na sigla em curdo), no controle do restante da província, uniram-se às forças do governo contra o EI. Assad manteve aliança com os curdos, porque eles eram úteis tanto contra o EI como contra os opositores ao regime, já que sua agenda é autonomia regional e não a saída do presidente.

Quando o EI invadiu áreas curdas, os EUA iniciaram bombardeios aéreos, em apoio. Dezenas de combatentes do EI fugiram. Mas deixaram para trás milhares de suicidas, carros e caminhões-bomba, com os quais incendiaram a cidade nos meses seguintes, como no ataque contra o centro de operações do YPG, onde eu e a fotógrafa brasileira Alice Martins aguardávamos o comboio que nos levaria até a trincheira onde poderíamos entrevistar os milicianos na linha de frente contra o EI. As cenas de horror e confusão ainda voltam em flashes. Mais de 100 pessoas morreram naquele dia, algumas a poucos metros de nós. 

A experiência de Al-Hasakah dá pistas do que se pode esperar com o início da ofensiva para a retomada de Mossul. Os relatos e imagens que chegam sugerem que a batalha pelo último reduto do EI no Iraque será ainda mais longa e brutal. Uma foto clicada anteontem por Alice, que continua no Iraque, mostra o corpo coberto de uma menina de 3 anos em uma pequena clínica de Qayyarah. Ela e a avó tentavam fugir de Mossul quando uma bomba foi detonada no caminho.

Há outras lições que se pode tirar de Al-Hasakah. Anunciada sua liberação, o governo de Assad e os curdos começaram a negociar quem assumiria o controle da província. As negociações afundaram e, mesmo antes disso, era possível sentir como a guerra aumentara a hostilidade entre árabes e curdos. 

Há dois meses, aviões de caça russos Su-24 bombardearam posições curdas em Al-Hasakah, em um ataque inesperado, segundo o YPG. Analistas viram no bombardeio a evidência de que os governos da Rússia e Turquia tinham feito as pazes (para o governo turco, que há décadas luta com truculência contra os curdos no próprio país, sua autonomia na Síria é uma ameaça). 

Com a perspectiva de derrota do EI, Assad parece estar virando as costas aos curdos em favorecimento da aliança Moscou-Ancara, que inclui também o Irã xiita. Soldados curdos (peshmergas) e tropas do governo de Bagdá estão lutando lado a lado para liberar Mossul do EI. Mas um detalhe me chamou a atenção, quando as primeiras imagens da ofensiva começaram a chegar: hasteadas nos tanques de guerra, agitavam-se as bandeiras do Islã xiita, e não do Iraque. Mossul é uma cidade majoritariamente sunita.

O Iraque é hoje um país divido. Escorraçado o EI, quem assumirá o controle de Mossul? Curdos, xiitas, sunitas? No norte iraquiano, testemunhei a expulsão de famílias árabes que tentavam voltar a suas casas, agora em território curdo. Ao avançar contra o EI, os peshmergas expandiram seus domínios para áreas antes majoritariamente sunitas, como Mossul. 

Os xiitas, que chegaram ao governo pelas mãos dos EUA, após a queda de Saddam Hussein, temem o retorno dos sunitas. A imagem de terror sunita disseminada pelo EI é mais uma das heranças malditas que deixará a seu próprio povo, além do luto e dos traumas. Por muito tempo ainda, os árabes sunitas pagarão pelos crimes do bando, dos quais foram também vítimas. 

No país dilacerado, a paz é como uma miragem no deserto. A sobrevivência do EI pode ser definida na batalha de Mossul, mas o futuro do Iraque permanecerá em aberto.

*Adriana Carranca escreve aos sábados 

Mais conteúdo sobre:
IraqueEstado Islâmico

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.