Baviera publicará 'Minha Luta', de Hitler

Será a primeira vez desde a 2ª Guerra que o polêmico livro será editado; para governo, nova versão comentada ajudará a desmitificar a obra

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h06

Pela primeira vez desde a 2.ª Guerra, o polêmico livro Mein Kampf (Minha Luta), de Adolf Hitler, voltará a ser publicado na Alemanha e retornará às escolas do país. O governo regional da Baviera colocará no mercado uma nova edição em 2015, um ano antes do fim dos direitos exclusivos que mantém sobre o livro, considerado a base da ideologia nazista e uma espécie de autobiografia de seu líder.

Oficialmente, não existe proibição de publicar o livro na Alemanha e vendê-lo não é um crime, apenas uma violação de direitos autorais. Após a queda do regime nazista, os Aliados concederam o direito da obra ao governo da Baviera justamente para evitar que ele fosse reeditado. Desde então, o governo da região tem usado o fato de ter os direitos exclusivos para impedir que ele chegue ao mercado. O Estado foi escolhido por ter sido a região onde Hitler tinha sua residência.

Ao final de 2015, a publicação será liberada para qualquer editora, já que a data marca os 70 anos da morte de Hitler. O temor é o de que haja uma corrida entre as editoras para garantir lucros com a venda. Mesmo considerada "maldita", a obra poderia acabar sendo promovida. A meta do governo, portanto, é evitar que o fim do direito exclusivo do livro leve a esse ponto, levando as editoras à conclusão de que publicar a vender a obra de Hitler não trará lucros.

O ditador escreveu o livro em 1924, enquanto cumpria prisão depois de tentar um golpe de Estado. Dois volumes foram publicados, em 1925 e 1926, antes de Hitler tomar o poder. Em menos de dez anos, a obra o tornou milionário. Se não contém detalhes de planos para exterminar os judeus, ela é clara em delinear o antissemitismo como um dos pilares da ideologia.

Em Mein Kampf, o autor alega que os judeus estariam tentando dominar o mundo e promete ações que, uma vez no poder, se traduziriam em leis racistas. Para analistas e historiadores, a obra contém a justificativa ideológica para o plano de executar 6 milhões de judeus nos anos seguintes. Hitler não se limita ao antissemitismo. Propõe substituir a luta de classes dos comunistas pela luta de raças. Em nome da vingança em relação à derrota da 1.ª Guerra, fala em militarização da Alemanha e necessidade de o país ampliar seu território.

Edição comentada. A estimativa é a de que 10 milhões de cópias tenham sido produzidas em 20 anos. Escolas adotaram o livro após 1933, quando Hitler assumiu o poder, e a Alemanha chegou a presentear recém-casados com a obra. A editora responsável afirma que não se trata de uma publicação com a meta de difundir as ideias do regime, mas de ampliar o conhecimento da nova geração em relação ao que ocorreu na Alemanha nos anos 30. Para isso, uma edição especial para estudantes será produzida, com comentários críticos em relação a cada uma das ideias propostas.

Uma das autoras dos comentários, Edith Raim, garantiu que a publicação não significará que movimentos neonazistas terão finalmente sua leitura de referência em mãos ou haverá uma proliferação da propaganda. "Nosso livro não encontrará leitores entre os neonazistas. Será um trabalho científico sólido", declarou. Para o ministro de Finanças do Estado da Baviera, Markus Soeder, a reedição poderá ajudar a "desmitificar" a obra. "Queremos deixar claro como ele não tem nenhum sentido e mostrar como esse perigoso corpo de pensamentos levou a uma catástrofe mundial", explicou.

Entre a comunidade judaica alemã, as posições não são uniformes. O presidente do Conselho Central de Judeus da Alemanha, Dieter Graumann, insiste que preferiria que os alemães lessem a obra com os comentários críticos. Além da edição para estudantes, haverá outra publicação comentada por historiadores de peso. Haverá ainda uma tradução em inglês e até mesmo audiolivros.

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