BBC e Reuters criticadas por não chamarem Bin Laden de terrorista

Mesmo após os eventos de 11 de setembro nos Estados Unidos, dois grupos de comunicações britânicos com forte presença mundial, a BBC e a agência de notícias Reuters, mantiveram a sua antiga política de não empregar a palavra "terrorista" para descrever os ataques contra o World Trade Center e o Pentágono e nem mesmo para qualificar os autores dos atentados. Essa conduta, segundo as empresas, justifica-se pela necessidade de procurar manter a imparcialidade diante dos fatos, evitando termos emotivos. A Reuters, por exemplo, usa apenas "ataques", e a BBC prefere termos como "seqüestros suicidas". Mas nem todo mundo concorda com isso. A Reuters foi alvo de uma série de críticas no final do mês passado quando um memorando interno para os jornalistas da empresa, ressaltando a necessidade de manter a imparcialidade, vazou para o público. No documento, os diretores da agência disseram que "o que para uma pessoa é um terrorista, para outra é um lutador da liberdade". O memorando provocou uma forte reação negativa entre os próprios funcionários da agência e entre seus clientes. Diante da repercussão, o diretor-executivo da agência, Tom Glocer, divulgou um comunicado, desculpando-se pela frase, que, segundo ele, foi interpretada como um julgamento de valor em relação aos ataques. "Essa nunca foi a nossa intenção, nem nossa política", disse Glocer, que, no entanto, defendeu a linha editorial de evitar termos como "terrorista". "Nossa política é evitar o uso de termos emocionais e não fazer julgamentos de valor em relação aos fatos que tentamos descrever com precisão e equilíbrio." Segundo ele, como uma organização global de comunicação cobrindo 160 países, "a missão da Reuters é fornecer relatos precisos e imparciais dos eventos, para que indivíduos, organizações e governos possam tomar suas próprias decisões baseadas nos fatos". Na BBC, a proibição do termo terrorista é antiga e consta inclusive do guia que norteia o seu comportamento editorial, as "guidelines". O conflito na Irlanda do Norte, por exemplo, sempre foi tratado com extrema cautela pela corporação. Grupos extremistas católicos ou legalistas nunca foram qualificados como "terroristas", mas sim como "paramilitares". Esse postura é levada ao pé da letra, principalmente no Serviço Mundial de rádio da BBC, que transmite em mais de 40 idiomas, inclusive para a etnia pashtu, maioria no Afeganistão. Segundo o editor regional para as Américas, Robert Plummer, essa postura da BBC reforçou a credibilidade de seus noticiários em diferentes partes do mundo, independentemente de raça ou religião. "Evitamos termos como terrorista para manter uma postura imparcial diante dos fatos", disse Plummer à Agência Estado. "Acho também que as palavras terrorista ou terrorismo vêm sendo usadas de forma exagerada pela imprensa, que deveria buscar descrever com maior exatidão o que ocorreu nos Estados Unidos. Ao invés de falar em ´ataques´, porque não usar ´seqüestros suicidas´, por exemplo?" Segundo ele, essa busca pela imparcialidade do Serviço Mundial da BBC é comprovada pelos elogios que a cobertura vem recebendo na Grã-Bretanha e pela forte penetração das transmissões em idioma pashtu no Afeganistão. Estima-se que mais de 60% dos afegãos escutem as transmissões do Serviço Mundial. Mas é impossível agradar a todos. Líderes muçulmanos da Grã-Bretanha exigiram recentemente que a BBC pare de descrever Osama bin Laden como um "fundamentalista islâmico", pois consideram o termo ofensivo. O Conselho Muçulmano, que representa mais de dois milhões de pessoas no país, quer que Bin Laden seja descrito apenas como "terrorista", sem referência à sua religião. "A BBC nunca se refere ao IRA (Exército Republicano Irlandês) como uma organização extremista católica ou chama os membros do IRA de extremistas católicos", disse um porta-voz do conselho. A BBC decidiu não alterar a sua conduta. Leia o especial

Agencia Estado,

16 Outubro 2001 | 18h27

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