Lincoln Holder/Courtesy Newsday/Handout via Reuters
Lincoln Holder/Courtesy Newsday/Handout via Reuters

Bebê venezuelano morre durante perseguição a barco de migrantes que ia para Trinidad e Tobago

Guarda Costeira afirma que tentou impedir embarcação de cruzar a fronteira, mas teve os alertas ignorados, então atirou em uma ação de defesa

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2022 | 12h00

CARACAS - A Guarda Costeira de Trinidad e Tobago disparou contra um barco que transportava imigrantes venezuelanos na noite do sábado 5, ferindo uma mãe e matando o bebê em seus braços. O tiroteio ocorreu quando agentes tentavam interromper a embarcação de cruzar da Venezuela para Trinidad e Tobago e foi descrito como uma ação de defesa. 

A informação foi divulgada no domingo 6. Advogados de direitos humanos da Venezuela e políticos opositores ao chavismo condenaram a ação e pediram uma investigação. 

Segundo o grupo venezuelano Foro Penal, no barco estavam cerca de 20 venezuelanos. "Que tipo de gente é essa que sai atirando? Que consolo pode ter uma mãe depois disso?", afirmou Orlando Moreno, advogado que integra o Foro Penal. 

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, não fez nenhum pronunciamento sobre o caso. Por outro lado, o líder opositor Juan Guaidó postou uma mensagem de indignação no Twitter. "A morte de um menino venezuelano, que junto com sua mãe fugiu da ditadura, fere nossa alma como país”, tuitou. “Os tiros disparados pela Guarda Costeira de Trinidad e Tobago são injustificados, eles o mataram.”

A perseguição

A Guarda Costeira avistou o barco cruzando a fronteira venezuelana para as águas de Trinidad e Tobago pouco antes da meia-noite de sábado, de acordo com um comunicado publicado no Facebook e assinado por Kerron Valere, tenente e relações públicas da Guarda Costeira de Trinidad e Tobago. O barco havia saído do Delta Amacuro, no leste da Venezuela. 

A tripulação da Guarda Costeira tentou interceptar o barco usando sua buzina, holofote e sinalizadores, seguidos de tiros de advertência, de acordo com o comunicado, mas o barco continuou em frente com movimentos “agressivos”, tentando colidir com um navio da Guarda Costeira.

A embarcação onde estavam os venezuelanos era maior do que a da Guarda Costeira, segundo o comunicado, e seus avanços fizeram com que a tripulação "temesse por suas vidas". Nesse momento, agentes dispararam contra o motor da embarcação, de acordo com o comunicado da Guarda Costeira, que não especificou quantos tiros foram disparados. 

Autoridades disseram que o uso recente dessa “técnica evasiva” contra a Guarda Costeira causou danos ao navio e arriscou a segurança dos membros da tripulação.

Segundo as autoridades de Trinidad e Tobago, somente depois que o barco parou, a Guarda Costeira percebeu que havia migrantes “escondidos” a bordo e uma mulher estava sangrando. 

A mulher foi levada para uma unidade de saúde local, mas seu bebê foi encontrado morto. As autoridades não especificaram quantas pessoas estavam na embarcação, mas disseram que as outras a bordo serão processadas “de acordo com os protocolos de imigração e saúde”.

Tragédia

A mãe ferida disse a seus parentes que o capitão do barco queria voltar para a Venezuela quando viu a Guarda Costeira, contou a cunhada da mulher, Daicelis Salgado, de 38 anos, em entrevista ao jornal The Washington Post. “Mas a Guarda os seguiu e começou a atirar nos motores”, completou Daicelis. “Ela estava perto do motor. Ela disse que sentiu algo bater em seu peito e imediatamente olhou para baixo e viu a cabeça do bebê quebrada. Ela estava com ele no peito quando foi baleada.”

A mãe ferida disse a seus parentes que o capitão do barco queria voltar para a Venezuela quando viu a Guarda Costeira, contou a cunhada da mulher, Daicelis Salgado, de 38 anos, em entrevista ao jornal The Washington Post. “Mas a Guarda os seguiu e começou a atirar nos motores”, completou Daicelis. “Ela estava perto do motor. Ela disse que sentiu algo bater em seu peito e imediatamente olhou para baixo e viu a cabeça do bebê quebrada. Ela estava com ele no peito quando foi baleada.”

O bebê, sua mãe e sua irmã estavam a caminho de Trinidad para conhecer o pai das crianças, disse Daicelis. As autoridades ainda não informaram o pai ou outros membros da família sobre o paradeiro da criança mais velha ou o corpo do bebê, segundo a venezuelana. "Meu irmão não sabe onde a filha está."

Daicelis deixou a Venezuela em direção a Trinidad há quatro anos, fugindo da crise econômica em seu país natal. Oito meses depois, o irmão fez a mesma escolha. A venezuelana só soube que a família do irmão estava a caminho de Trinidad. 

"Eu disse a ele que não concordava porque as coisas não estão muito boas aqui agora. Mas ele me disse que alugou um quarto e comprou um ventilador para seus filhos. Queria que todos ficassem juntos”, contou Daicelis.

Crise

Entre 6 e 10 barcos deixam diariamente a Venezuela em direção a Trinidad e Tobago, enquanto os venezuelanos continuam fugindo da crise econômica. 

O caso é mais um no momento em que venezuelanos cruzam em números recordes em direção aos Estados Unidos, geralmente após passarem por México e andarem pela fronteira. De acordo com o serviço de fronteira dos EUA, 24.819 venezuelanos foram detidos em dezembro, um salto em relação aos 206 detidos em dezembro de 2020. 

Desde 2018, a saída de barcos clandestinos desde a Venezuela deixaram ao menos 100 mortos e desaparecidos. A travessia é perigosa, as embarcações são precárias e fazem o percurso de 120 quilômetros com sobrepeso. 

As Nações Unidas estimam que mais de cinco milhões de venezuelanos deixaram seu país desde 2015, forçados pela grave crise econômica, e 25 mil deles vivem em Trinidad e Tobago, país caribenho de 1,3 milhão de habitantes. 

Trinidad e Tobago endureceram sua política de deportações para prevenir a entrada ilegal de migrantes. / AFP e W.POST

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