Bebês roubados são ferida aberta na Argentina

Criança levada pela ditadura hoje dirige entidade das Mães da Praça de Maio; 'sei como a verdade é importante'

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h05

Há 37 anos, tinha início a ditadura argentina (1976-1983), que afetou a vida de 30 mil pessoas, torturadas, sequestradas ou mortas. Uma delas é Manuel Gonçalves Granada. Aos 5 meses, ele ficou órfão, sobreviveu a uma chacina e atualmente é o primeiro "neto recuperado" a integrar o Comitê Executivo da ONG Avós da Praça de Maio.

O destino de Manuel, hoje com 37 anos, mudou no dia do golpe, quando seu pai, Gastón Gonçalves, foi sequestrado. "Minha mãe (Ana María Granada) estava grávida. Então, ela saiu de Buenos Aires e eu nasci pouco depois. Chegamos à cidade San Nicolás e uma família nos abrigou em sua casa."

Os pais de Manuel e o casal faziam parte da organização Montoneros, que lutava contra a ditadura.

Em 19 de novembro de 1976, militares invadiram a casa, jogando bombas de gás lacrimogêneo e mataram todos - exceto Manuel - no que ficou conhecido como o massacre da Rua Juan B. Justo. "Fui salvo porque minha mãe me colocou dentro de um móvel envolto em toalhas e isso me protegeu do gás."

Manuel foi levado pelos militares a um hospital. Depois ficou sob custódia jurídica por quatro meses e então foi adotado.

Após 19 anos, foi surpreendido com a visita de uma mulher dizendo saber de sua história. "Foi uma surpresa, mas fiquei alegre, pensava por que não estava com minha família biológica. No fim, percebi que me procuraram por muitos anos. Fiquei muito comovido e pude compreender minha história", lembra.

A busca por Manuel começou por sua avó paterna, Matilde, auxiliada pela Avós da Praça de Maio. "Ao longo da história, das pesquisas, temos a verdade e a associação é uma ferramenta de ajuda. No ano passado, conseguiram incorporar em seu Comitê Executivo um neto, que sou eu. Vou fazer o que está ao meu alcance porque sei o quão importante é saber a verdade", diz Manuel sobre integrar a associação.

Omar Amestoy, a mulher dele e seus dois filhos, na época com 5 e 3 anos, foram as pessoas que abrigaram Ana María e Manuel. Após descobrir sobre o massacre, a família de Omar tentou obter a guarda de Manuel.

"Dois meses antes, nossa mãe esteve na casa, segurou Manuel nos braços. Nossa família quis ficar com ele, mas os militares não o dariam a extremistas", afirma Miguel Amestoy, o mais novo dos três irmãos de Omar.

Em 2011, o ex-prefeito de Escobar Luis Patti foi condenado à prisão perpétua pelo desaparecimento e morte de Gastón - morto poucos dias após o sequestro e enterrado em uma vala comum. Ano passado, o ditador Reynaldo Bignone e outros militares também foram condenados, pelo assassinato de Ana María e da família Amestoy.

A morte de Omar está retratada no projeto "Ausencias" do fotógrafo argentino Gustavo Germano. Uma fotografia de 1975, na qual Omar está ao lado do irmão Alfredo, foi reproduzida em 2006; desta vez, um vazio ocupa o lugar de Omar. "Esse projeto é muito importante para cobrar e manter viva a memória. Sem memória, ficamos atados", diz Miguel Amestoy.

Germano iniciou o projeto pela própria experiência. Quando tinha 12 anos, seu irmão Eduardo, então com 18, foi sequestrado e não foi encontrado, integrando a lista de "desaparecidos". "O momento de fazer a foto é muito emocionante. Tenho de ser bastante profissional, mas há aquele instante em que um olhar dos parentes diz muito mais do que contar toda uma história. É uma troca de sentimentos", explica Germano.

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