JAMAL SAIDI | REUTERS
JAMAL SAIDI | REUTERS

Beirute, outro alvo de atentado sangrento, sente-se esquecida

Para comentaristaslibaneses, diferença de tratamento refletepercepção de que vidas árabes valem menos

Anne Barnard, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 21h21

BEIRUTE - Ali Awad, de 14 anos, estava picando verduras quando a primeira bomba explodiu. Adel Tormous, que morreria ao tocar na segunda bomba, estava sentado num café ao lado. Khodr Alaa Deen, enfermeira, estava a caminho do trabalho no hospital universitário da American University de Beirute.

Todos os três morreram no duplo atentado suicida em Beirute, no dia 12, juntamente com outras 40 pessoas. Do mesmo modo que as inúmeras pessoas que perderam a vida no dia seguinte em Paris, foram mortos aleatoriamente, numa área urbana movimentada, num momento que praticavam suas atividades normais naquela noite.

Os massacres consecutivos assumidos pelo Estado Islâmico despertaram sentimentos compartilhados de vulnerabilidade global. Mas para alguns em Beirute essa solidariedade se misturava com a angústia diante do fato de apenas Paris ter recebido tantas manifestações de simpatia.

Monumentos em todo o mundo foram iluminados com as cores da bandeira francesa; discursos presidenciais mencionaram a necessidade de defender os “valores compartilhados; o Facebook ofereceu aos usuários a opção de cobrir suas fotos de perfil na rede social com as três cores da bandeira francesa, serviço que não foi oferecido no caso da bandeira libanesa.

“Quando pessoas do meu país morreram nenhuma nação se preocupou em iluminar seus monumentos nas cores da bandeira dele”, escreveu o médico Elie Fares em seu blog. “Quando morreram, não deixaram o mundo enlutado. Sua morte foi uma nota irrelevante no ciclo internacional de notícias, como algo comum que ocorre nessas regiões do mundo.”

O fato é que vidas árabes têm menos importância, se queixaram vários comentaristas libaneses. Ou isso, ou então seu país, relativamente calmo apesar da guerra que é travada ali perto – é percebido como lugar onde a carnificina é a norma, um nicho indiferenciado de uma região turbulenta.

Na verdade, embora Beirute outrora fosse sinônimo de violência, desde que chegou ao fim a opressiva guerra civil, há uma geração, este foi o atentado suicida mais letal a atingir a cidade desde o final daquele conflito, em 1990. A disparidade das reações enfatizou uma percepção das pessoas de que o Líbano foi deixado sozinho, arcando com o peso da guerra mortífera na Síria, que dura quatro anos e levou mais de 4 milhões de refugiados a fugir, especialmente para países vizinhos como o Líbano. Para os libaneses, o governo recebe pouca ajuda, está acossado pela paralisia e a corrupção, o que tem provocado apagões, cortes no abastecimento de água, e, mais recentemente, o colapso do serviço de coleta de lixo.

Certamente os ataques tiveram significados diferentes em Paris e Beirute. Paris foi atacada de surpresa, foi o pior ataque na cidade em décadas, ao passo que em Beirute os atentados constituíram a materialização de um temor que nunca deixou de estar presente de que outras explosões de violência viessem a ocorrer.

Alguns acusam a cobertura dos jornais pela percepção de que Beirute ainda é uma zona de guerra ativa.

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