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Beleza americana

A qualidade de vida nos EUA é melhor do que em Ruanda sob qualquer índice econômico e social. A percepção negativa dos americanos reside na distância entre expectativa e vida real

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2016 | 05h00

A primeira impressão foi de estranheza, embora com alguma simpatia. Eu havia pedido um café e recebera de volta um líquido insosso e pardo que mal cheirava à bebida, com aroma predominante de canela. Hesitei em receber o copo de isopor cheio, mas o vendedor tinha as mãos estendidas em minha direção, os olhos vidrados nos meus e um sorriso congelado no rosto. Engoli a bebida quente forçando um semblante que indicasse aprovação, na tentativa de retribuir seu sorriso, mas mal dei o primeiro gole e ele já sorria para outro cliente. Era meu primeiro contato com a cultura americana, durante uma escala no Aeroporto de Miami.

Nos meses seguintes, eu seria recebida com um alegre e sonoro “Hi! How are you doing today?” assim que colocava os pés em uma loja, farmácia, no caixa do supermercado. Ofereciam-me “happy meals”, batatas fritas no formato de um sorriso, descontos em “happy hours”. “Have a happy day”, eu ouvia ao sair. Ao voltar os olhos em direção à voz, encontrava fatalmente o mesmo olhar e o sorriso congelado do rapaz da lanchonete. 

Eu pensava: “que simpáticos!”, até saber que uma rede varejista obrigava seus funcionários a sorrir sempre que um consumidor estivesse a três metros de distância deles. O sorriso era uma estratégia de marketing ensinada nos MBAs. Uma busca rápida na Amazon traz 924 livros com as palavras “smile & sales”, coisas como “Sorria e venda mais”. No Google, aparecem ensaios como: “A ciência por trás do marketing do sorriso”. Quando “o sorriso americano” passou a ser alvo de zombaria e se tornou sinônimo de uma expressão falsa de felicidade, os gerentes de marketing passaram a exigir de funcionários não apenas o sorriso, mas que fosse sincero. Eles deveriam se sentir realmente felizes. 

A felicidade se tornara imperativo para alcançar sucesso, e sua busca alimentou uma bilionária indústria de autoajuda e o maior mercado de antidepressivos do mundo. Certamente não era o que imaginava Thomas Jefferson ao imprimir a busca pela felicidade no DNA da sociedade americana. “Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade”, ele cunhou na Declaração de Independência.

Angústia. Em America the Anxious, lançado esta semana, a jornalista britânica Ruth Whippman mostra como a obsessão americana pela felicidade criou uma nação de infelizes. Os ingleses não são exemplos de bom humor e amabilidade pública, mas a observação aguçada de Ruth sobre o efeito reverso da busca pela felicidade é confirmada por estudos na área de psicologia, como o da Universidade de Berkley, em que entrevistados que tinham a felicidade como ambição pessoal sentiam-se menos felizes e tinham maior probabilidade de manifestar sintomas de insatisfação e depressão. Um índex do instituto Gallup, de 2014, para comparar o grau de felicidade em vários países colocou os EUA em 25.º lugar, dois atrás de Ruanda. 

A qualidade de vida nos EUA é melhor do que em Ruanda sob qualquer índice econômico e social. A percepção negativa dos americanos reside na distância entre expectativa e vida real. O crescimento econômico não impediu a desigualdade crescente desde os anos 1970. A desindustrialização, as mudanças tecnológicas dos anos 1990, que automatizaram a produção, e a globalização resultaram no declínio do emprego para as classes menos educadas. O economista David Autor, do MIT, em artigo recente para o Council on Foreign Relations, fala no surgimento de “uma próspera classe global de elites no topo (da pirâmide social) e uma classe estressada que compreende todos os outros”. 

O impacto disso na sociedade americana foi particularmente devastador. Um dos efeitos colaterais da obsessão americana pela felicidade, como mostrou Whippman, foi reduzir a responsabilidade do Estado sobre o bem-estar social dos cidadãos. A felicidade passou a ser uma busca e uma responsabilidade de cada um, uma competição individual. Em última instância, se não tem emprego, educação, saúde, a culpa é sua ou de seu vizinho – especialmente se ele for um imigrante. Os americanos têm uma palavra para isso: loser (perdedor).

“Para um grande número de pessoas, Donald J. Trump representa talvez a encarnação final dessa ideia. É difícil argumentar que ‘o Donald’ não é, a seu modo, feliz”, escreveu Bruno Kavanagh, na Spectator. Uma pesquisa do Pew Research mostrou que 81% dos eleitores de Trump acham que sua vida é pior hoje do que há 50 anos, contra 19% de Hillary Clinton. “Donald Trump é a obra-prima da melancolia americana”, ele conclui. “Eu derroto as pessoas,” disse Trump à Fox News ao anunciar sua candidatura. “Eu venço.” Se isso será suficiente para chegar à Casa Branca, nós saberemos na terça feira.

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