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Beleza roubada e uma região em perigo

Quando belas mulheres do mundo inteiro encontrarem-se em Londres, dia 14, para disputar o título de Miss Mundo, muito se falará de um sorriso desfalcado. Maria José Alvarado, a Miss Mundo Honduras, foi morta a tiros no início do mês.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2014 | 02h03

A jovem modelo de 19 anos foi abatida juntamente com a irmã, Sofía, após saírem de uma festa. A polícia afirma que o autor do crime foi o namorado de Sofía, Plutarco Ruíz, de 26 anos. Os corpos foram encontrados uma semana depois, numa cova rasa, à beira de um rio, no oeste do país. Desde o seu enterro, dia 20, não se fala de mais nada no pequeno país centro-americano a não ser sobre a cultura letal do machismo e o papel crescente das beldades cuja ascensão às passarelas terminaram numa lápide. A hondurenha é a terceira miss das Américas golpeadas pela violência este ano.

Tiaras caídas fazem narrativas comoventes, mas o enredo nas Américas é mais complexo. Mais do que beleza roubada, a morte da jovem é sintoma de uma praga bem maior: a desmoralização da lei e o sequestro por quadrilhas de instituições nacionais, que juntos conspiram para sufocar oportunidades e desperdiçar talento e graça.

Esqueça-se de aids, dengue e chikungunya. A epidemia mais ameaçadora na região é a violência. Com apenas 9% da população mundial, a América Latina responde por 30% dos homicídios, segundo o Banco Mundial. Das 50 cidades mais violentas do planeta, 42 são latino-americanas. Pior para as mulheres. Das 25 nações onde elas mais morrem assassinadas, 14 ficam na América Latina, segundo a ONU.

No topo da lista está Honduras. Com 91 assassinatos para cada 100 mil hondurenhos, é a mais violenta das nações. Lá, como na região, 30% da matança é obra das "maras" ou gangues de drogas, como a Salvatrucha e Barrio 18, que fazem da América Central seu quartel-general.

A 70 quilômetros de Santa Bárbara, cidade natal de Maria José, está San Pedro Sula, central das maras e cidade mais violenta do mundo há três anos seguidos. A polícia pouco ajuda: acumulou 13 mil mandados de prisão não cumpridos em 2012.

A violência não poupa ninguém. Entre 2005 e 2013, enquanto o número de mulheres hondurenhas assassinadas cresceu 263%, 95% dos crimes contra elas ficaram impunes, segundo a ONU.

Foi essa a realidade da qual Maria José queria escapar. Filha de uma família de classe média baixa, estudava informática, literatura e até falava de uma carreira diplomática, enquanto ensaiava os primeiros passos de modelo. A trajetória é rara em Honduras, onde apenas 14 de cada 100 jovens chegam à universidade - metade da média latino-americana - e muitas beldades acabam virando troféus de bandidos.

Para quem teima em andar na linha, as oportunidades são escassas. Honduras amarga a maior parcela de pobres das Américas, 63% em 2013, e a terceira pior taxa de desigualdade, atrás apenas de Haiti e Bolívia. Cerca de 1 milhão de hondurenhos não estudam nem trabalham. Melhor para a bandidagem, que só cresce: 87% dos aviões que levam cocaína aos EUA passam por Honduras, segundo o Departamento de Estado americano.

Maria José viu na passarela uma porta de fuga, mas também um palco para mudar a imagem de seu país. "Meu país não é como eles o retratam", escrevera no discurso que redigira para o Miss Mundo e não teve chance de pronunciar. Suas palavras dariam um belo epitáfio.

É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW' E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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