REUTERS/Marco Bello
REUTERS/Marco Bello

Beleza roubada - Os cafetões do Miss Venezuela  

Corrupção política se infiltra no último grande símbolo do orgulho nacional

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 05h00

Há alguns anos, poucos eventos esvaziavam as ruas de Caracas como o concurso Miss Venezuela. Ele era transmitido ao vivo de hotéis de luxo que a maioria nem sonhava entrar. As mulheres se enfileiravam e desfilavam em vestidos de gala, fantasias e roupa de banho. Eram apresentadas por seus nomes, idades, medidas e cor dos olhos. A missão era torcer para que a vencedora fosse coroada Miss Universo. Desde o início da disputa, em 1952, a Venezuela venceu sete vezes. 

Era uma questão de tempo até que o Miss Venezuela também sucumbisse à corrupção do Estado chavista. Recentemente, a organização do concurso suspendeu suas atividades após acusações de que seus diretores negociavam garotas para servir de acompanhantes de patrocinadores, incluindo funcionários do governo de Nicolás Maduro. 

+Miss Venezuela é suspenso após denúncias de corrupção

Nos anos 70, quando a fortuna do petróleo jorrava, o Miss Venezuela era o orgulho nacional e todos acreditavam que ele estava livre da corrupção. Seu colapso é o mais novo capítulo da derrocada do chavismo. 

Em novembro, o site Efecto Cocuyo publicou uma série de reportagens sobre casos de abuso no concurso. Em seguida, o jornal espanhol El País noticiou um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo membros do governo e pessoas ligadas ao Miss Venezuela. Em um dos casos, um dos homens estaria ligado a uma ex-participante que teria feito um depósito de US$ 1 milhão em um banco de Andorra. 

A notícia caiu nas redes sociais e várias ex-participantes começaram a acusar umas às outras de corrupção em troca de dinheiro, apartamentos e outros presentes de homens ligados ao regime de Maduro. Outras concederam entrevistas para falar sobre experiências de assédio ou coisas piores. 

A jornalista Ibéyise Pacheco, autora de um livro sobre o envolvimento das participantes com prostituição e corrupção, disse ter conversado com várias jovens que quase se tornaram escravas. Segundo ela, uma das garotas teve de fugir do país depois que um patrocinador rejeitado ameaçou matá-la. 

No centro do escândalo está Osmel Sousa, diretor da Organização Miss Venezuela por 40 anos, que renunciou em fevereiro. Uma ex-miss afirmou que ele e seus assistentes pressionavam as moças a aceitarem programas com políticos e empresários em troca de dinheiro para financiar a disputa. 

Algumas mulheres resistiram, outras consentiram. Debora Menicucci, de 26 anos, conheceu Sousa quando ela tinha 13. Ela representou a Venezuela no Miss Universo de 2014. Nesse intervalo, Sousa a apresentou ao seu futuro marido, Maikel Moreno, 25 anos mais velho. 

Advogado, Moreno cumpriu pena por assassinato nos anos 80. Hoje, presidente da Suprema Corte, ele é conhecido por impor duras sentenças a membros da oposição. Sousa, que se orgulha de ser amigo do presidente americano, Donald Trump, que era dono da franquia do Miss Universo, nega todas as acusações. / NYT 

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