Bem-vindo à empresa da família

Reprovamos o nepotismo, mas laços familiares são parte da realidade: pergunte a um biólogo

Mary Jo Murphy*, O Estadao de S.Paulo

27 de dezembro de 2008 | 00h00

Acrobatas e donos de funerárias não têm esse problema. Quando eles querem trabalhar na empresa da família, ninguém os acusa de nepotismo. As pessoas aceitam que um irmão agarre o outro que se joga do trapézio, ou que um pai ensine o filho a maquiar um defunto.Na política, a coisa é muito diferente. Nossos narizes apurados farejam o nepotismo. Achamos que deveríamos nos sentir ultrajados ou pelo menos ofendidos. Mas Deveríamos mesmo?Nessa ambivalência encontramos o governador de Nova York, que é filho de um senador estadual. O governador precisa nomear alguém para ocupar a cadeira no Senado federal que a esposa de um ex-presidente está deixando. A filha de outro ex-presidente, sobrinha de dois senadores, manifestou interesse pela cadeira. E também o filho de outro governador, casado com a sobrinha de um ex-presidente, filha de um senador.Está acompanhando? (Os personagens são, pela ordem: David e Basil Paterson; Hillary e Bill Clinton; Caroline, John F., Robert F., e Edward M. Kennedy; Andrew e Mario Cuomo e Kerry Kennedy Cuomo).Talvez seja uma boa hora para olharmos mais de perto esse tal de nepotismo. Ou "empresa de família", se preferirem.Para começar, ela tem tudo a ver com a natureza. Na biologia evolucionista, nepotismo é simplesmente uma maneira de transmitir os próprios genes. Vejam, por exemplo, o esquilo terrestre. Conforme mostrou Paul Sherman, biólogo da Cornell University, esses esquilos conhecem a diferença entre um irmão e um meio irmão. Quando um predador aparece, eles emitem alertas dando preferência ao parente mais próximo, correndo o risco de que a advertência chame a atenção do predador. Parentes próximos que não são comidos passam seus genes para a próxima geração.Segundo esse parâmetro, no caso de Caroline Kennedy não se trata de nepotismo, mas de seu primo evolucionista - a boa vontade sem parentesco. O altruísmo em relação a alguém que não é parente ocorre na evolução porque beneficia a todos. Será então que é a natureza quem deseja que o governador Paterson indique Caroline Kennedy para o cargo de senadora?Não exatamente. A natureza também tem algo a dizer a respeito das qualificações. Particularmente, se elas passam de uma geração para outra. Pode ser razoável pressupor que, se você vem de uma família de políticos bem-sucedidos, a combinação de aptidões e de exposição deveria colocá-lo em uma boa posição para também ser bem-sucedido.Uma das filhas dos Curie foi ganhadora do Prêmio Nobel, assim como os pais famosos. Johann Sebastian Bach foi um músico muito maior do que seu famoso pai, Johann Ambrosius. Artemisia Gentileschi foi uma pintora barroca italiana como o pai, Orazio, apesar dos graves problemas peculiares enfrentados por seu gênero sexual na época.Mas no caso de Caroline Kennedy, os seres humanos estão dispostos a contestar a biologia. O escritor Adam Bellow se admira com essa hipocrisia. Ele cita o caso Kennedy como "um interessante episódio, porque alivia as tensões ideológicas do credo americano; queremos o nepotismo para nós, mas não para os outros"."Temos um verniz idealista. Achamos que somos e devemos ser diferentes dos outros países", afirma. O capitalismo, segundo Bellow, "é essencialmente um empreendimento familiar. A maioria das empresas era fundada por integrantes de uma mesma família".Os americanos, por sua vez, torcem o nariz à idéia de que um nome possa ser uma qualificação, mas "ele implica certa formação dinástica", diz Bellow.O nepotismo pode dar errado até mesmo de acordo com a opinião dos seus defensores, como Bellow. Aquilo que começa com uma ajuda ao filho para que consiga um emprego na sua empresa leva ao desenvolvimento da tradição familiar, o que leva à interação social com outras famílias pertencentes à mesma esfera, o que leva ao casamento entre seus filhos (como no caso dos Kennedys e dos Cuomos). Isso conduz a uma tradição multigeracional e, segundo Bellow, "no fim do arco-íris, temos uma casta fechada, como uma corporação medieval, e ninguém quer que aconteça uma coisa dessas".Caroline, segundo Bellow, encaixa-se no padrão da sucessora dinástica de amadurecimento tardio. Como Michael Corleone, ela não demonstrou interesse nos negócios da família e chegou a trabalhar duro para reduzir as expectativas a seu respeito.Nas sociedades tribais, a questão do parentesco não é tratada com tanta frescura. Para elas, o parentesco é tudo, é a proteção contra desconhecidos. Robin Fox, antropólogo da Universidade Rutgers, descreve uma jornada do pesquisador Philip Salzman ao Baluquistão, no sul do Paquistão, feita em 1968. Ele cita Salzman: "Uma das primeiras perguntas que os baluques me fizeram foi sobre o tamanho de minha linhagem." Salzman respondeu que não tinha linhagem. "Os baluques não podiam acreditar. Perguntaram o que nós fazíamos quando éramos ameaçados, a quem procurávamos para pedir socorro. Ora, procuramos a polícia, respondi eu. Eles gargalharam. "Não, não, não", disseram eles, "apenas os membros da sua linhagem poderão ajudá-lo."*Mary Jo Murphy é colunista do jornal ?The New York Times?

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