´Bem-vindo à nova desordem mundial´

Após um mês dos ataques terroristas nos Estados Unidos, as previsões mais catastróficas para a economia mundial, pelo menos por enquanto, não se confirmaram. Logo após 11 de setembro, até os economistas tradicionalmente mais otimistas não deixaram de manifestar um certo temor de que uma profunda recessão mundial, a escalada dos preços do petróleo, um "crash" nas bolsas e o recrudescimento do protecionismo poderiam se materializar. Ao contrário de crises anteriores, como a da Guerra do Golfo, em 1990, ou no calote russo em 1997, o choque ocorreu num momento no qual todas principais economias do planeta - Estados Unidos, União Européia e Japão - já enfrentavam dificuldades. Com isso, sem uma locomotiva disponível, a economia mundial poderia ser arrastada para o fundo do poço, com conseqüências imprevisíveis. Mas numa ação coordenada de dimensões inéditas, os principais bancos centrais injetaram dezenas de bilhões de dólares no mercado nos primeiros dias após os ataques. A forte desvalorização do dólar diante de moedas como o euro e o yen foi contida através de uma ação vigorosa do Banco Central Europeu (BCE) e das autoridades japonesas. Além disso, cortes agressivos nas taxas de juros entre os países do G-7 - que devem continuar - serviram para acalmar um pouco aos mercados. Até mesmo a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) decidiu temporariamente abandonar sua estratégia de manutenção dos preços mínimos, não adicionando um componente explosivo nos mercados. Mas se o pior não aconteceu, não há também motivos que justifiquem o otimismo. Um jornal britânico parece não ter exagerado ao escolher a manchete ?Bem-vindo à nova desordem mundial? para uma reportagem sobre as perspectivas econômicas mundiais. Ninguém contesta que os eventos nos Estados Unidos abalaram a economia mundial, numa extensão que ainda vai demorar muito tempo para ser totalmente contabilizada, ainda mais diante das incertezas em relação à ofensiva militar norte-americana contra o Afeganistão e outros futuros alvos suspeitos de abrigarem terroristas. A desaceleração econômica mundial, cujo início antecede aos ataques, foi acentuada. O FMI recentemente reduziu para 2,6% o crescimento do PIB mundial neste ano, uma forte queda em relação aos 4,7% registrados em 2000. Para muitos economistas, as previsões recentes do fundo andam pecando pelo otimismo exagerado e um desempenho global abaixo de 2,5% já seria considerado um "crescimento recessivo". A agência de classificação de risco Fitch, por exemplo, prevê uma expansão do PIB mundial de apenas 1,25% em 2001, o pior desempenho dos últimos vinte anos. Para o economista-chefe da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o italiano Ignazio Visco, o impacto dos ataques terroristas nos Estados Unidos nas perspectivas da economia global será "significante". Como ocorria antes de 11 de setembro, todas as atenções continuam concentradas nos Estados Unidos, cuja saúde econômica determinará a profundidade da desaceleração européia, a reversão da estagnação japonesa e a capacidade de sobrevivência dos países emergentes que enfrentam dificuldades mais urgentes, como é o caso da Argentina e da Turquia. Poucos duvidam, como é o caso da OCDE, que a maior economia mundial já não esteja em recessão, que deverá se arrastar até, no mínimo, o final deste ano. Os ataques terroristas deverão retardar o início da recuperação norte-americana até, pelo menos, a metade do próximo ano. Alicerçada em fundamentos econômicos sólidos, a União Européia parece estar melhor preparada para absorver os tremores gerados do outro lado do Atlântico. Mas isso não significa que o cenário seja animador e a OCDE prevê que a UE registrará um pequeno crescimento neste ano, em torno de 1%. "O impacto imediato dos ataques aqui na Europa foi a queda de confiança entre os consumidores e empresários", disse à Agência Estado o economista chefe do Dresdner Kleinwort Wasserstein, John Shepperd. "Mas o maior impacto virá com a redução da demanda nos Estados Unidos, que terá um efeito muito negativo no comércio internacional nos próximos meses, afetando as exportações, colocando mais pressão sobre as empresas, gerando desemprego e afetando o crescimento, não só aqui na Europa mas em todo o mundo." Segundo a Fitch, o comercio mundial crescerá apenas 2% neste ano, após atingir uma taxa recorde de 14% em 2000. Petróleo As especulações sobre o comportamento do preço do petróleo contribuíram para a forte volatilidade logo após os ataques. Mas após dar um salto nos primeiros dias, os preços da commoditie recuaram diante dos fortes sinais de queda na demanda mundial e da disposição da Opep - pelo menos por enquanto - de não reduzir a sua produção. Ao longo dos últimos dias os preços retornaram para os seus níveis baixos dos últimos meses, em torno do US$ 22 pelo barril Brent, bem inferior aos US$ 30 ou mais registrados no ano passado. Mas isso não significa necessariamente que o pior já passou. Segundo especialistas, tudo vai depender dos desdobramentos do atual ofensiva militar norte-americana. "Caso o conflito afete os países produtores, é certo que os preços vão subir, e provavelmente muito", disse Julian Lee, analista sênior para assuntos energéticos do Centre for Global Energy Studies (Centro de Estudos sobre Energia Global). Bolsas O mercado acionário também viveu fortes emoções ao longo dos últimos trinta dias, que devem continuar. Completamente desnorteadas diante do fechamento dos mercados em Nova York após os ataques, as bolsas européias e asiáticas inicialmente viveram forte volatilidade, registando quedas limitadas com os investidores migrando para investimentos mais seguros, como ouro ou bônus. Mas no dia 23 de setembro, o pânico, reforçado com os péssimos resultados das empresas, chegou a dominar os mercados, com o pregão londrino despencando mais de 7% e atingindo o seu nível mais baixo dos últimos sete anos. O valor dos estoques europeus perderam dezenas de bilhões de dólares em poucas horas. Mas em seguida, lentamente, os investidores parecem ter assimilado o novo cenário e as bolsas recuperam parte das perdas. Como observou o jornal Financial Times, o velho ditado "venda na crise e compre na guerra" parece ter sido ressuscitado. Apesar do forte movimento inicial de venda, os investidores parecem estar agora procurando posições defensivas dentro das próprias bolsas, se concentrando principalmente nos estoques dos setores farmacêuticos, de saúde e bens duráveis. Mas, a exemplo do petróleo, diante qualquer notícia inesperada e adversa no conflito militar, as bolsas certamente voltarão a tremer. Seguros e companhias aéreas Os ataques terroristas também representaram um forte golpe para alguns setores da economia, como o de seguros, empresas aéreas e de turismo. Segundo a Agência Internacional de Transporte Aéreo (IATA, sigla em inglês), os prejuízos do setor neste ano deverão totalizar cerca de US$ 7 bilhões, o triplo do que havia sido previsto anteriormente. Deverá ocorrer uma queda de 15% no tráfego aéreo, que poderá causar um corte 200.000 empregos . Várias empresas aéreas européias que já enfrentavam sérias dificuldades financeiras não demoraram muito para exibir sua fragilidade. A Swissair chegou a suspender todos os seus vôos enquanto os executivos da empresa suíça tentavam, às pressas, evitar o pior. A belga Sabena também está em apuros. Desde 11 de setembro, as companhias aéreas européias demitiram mais de 30.000 funcionários e cortaram centenas de vôos. E esse número deve crescer ainda mais. Diante desse quadro, a União Européia decidiu oferecer um apoio financeiro limitado às suas empresas. Mas para muitos analistas, nem mesmo essa ajuda evitará a falência de algumas companhias e forte consolidação no setor. Aliás, a ajuda oficial ao setor privado, algo considerado profano na economia de livre mercado, foi outro efeito concreto dos ataques terroristas. Muitos economistas acreditam que o retorno paternalismo oficial, mesmo que de maneira limitada, era inevitável antes mesmo de 11 de setembro. As companhias de seguros também foram fortemente afetadas. As estimativas das perdas do setor com os ataques nos Estados Unidos varia muito, mas devem totalizar, pelo menos, US$ 20 bilhões. A principal seguradora britânica, Lloyds, já anunciou que as suas perdas relacionadas diretamente com os ataques nos Estados Unidos totalizarão, pelo menos, US$ 1,9 bilhão. Caso seja confirmada, essa compensação individual seria a maior já registrada nos trezentos anos de história do setor, superando as perdas de cerca de US$ 1,5 bilhões do Lloyds com o furacão Hugo nos Estados Unidos, em 1989. O próprio Loyds prevê que a partir de agora, os prêmios deverão ficar mais caros, principalmente para empresas aéreas e de transporte marítimo. Brasil Os eventos nos Estados Unidos também serviram para dificultar a situação dos países emergentes mais fragilizados, que já vinha sendo agravada com a desaceleração norte-americana. Segundo analistas europeus, a aversão aos investimentos de risco foi acentuada, pressionando ainda negativamente as perspectivas de mais países com grandes necessidade de financiamento externo, como é o caso da Argentina, Turquia e também do Brasil. Economia asiáticas com forte dependência das exportações para os Estados Unidos, como Cingapura e Coréia do Sul, também foram prejudicadas. Empresas européias, pressionadas em seus mercados domésticos, iniciaram uma onda de cortes nos seus investimentos na América Latina. Apenas nos últimos dias, a espanhola Telefónica e a britânica National Grid informaram que estavam reduzindo os seus investimentos na região. Até mesmo o processo de privatização da Copel foi afetado pelo ambiente adverso. Várias empresas estrangeiras - Endesa, AES, EDF, entre outras ? se retiraram do processo de privatização. ?Estamos todos torcendo que esse recuo seja apenas temporário e não sinalize algo ainda mais grave no futuro?, disse um diretor de um banco europeu com forte presença na América Latina. No caso específico do Brasil, os eventos nos Estados Unidos serviram para reforçar uma situação adversa que já vinha se desenvolvendo com a crise argentina, o racionamento energético e as incertezas em torno da sucessão presidencial em 2001. ?Acho prematuro se falar em impacto direto na economia brasileira, mas certamente os ataques terroristas dificultaram as coisas para o país, pelo menos no curto prazo?, disse o diretor sênior para finanças públicas da Fitch, Richard Fox. Ainda é muito cedo para se contabilizar com segurança todos os desdobramentos dos trágicos eventos de 11 de setembro na economia mundial. Mas certamente, como dizem os economistas, os anos dourados da "era do otimismo", que sobreviveram até o final do ano passado, foram substituídos pelos voláteis e nervosos dias "era da incerteza". A Economia Um Mês Depois dos Atentados nos EUA - Índice

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