Bem-vindos à geopolítica do livre comércio

China está de fora, mas nova ordem poderia acolhê-la em um jogo global que muitos chamam de geoeconomia e conta com grande variedade de países

O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2013 | 02h06

Oculto numa selva de siglas e minúcias, um novo jogo de enormes proporções se desenrola no planeta. Chamado por alguns de geoeconomia, não deixa de ser também geopolítica. O atual jogo de poder consiste em uma variedade extraordinária de países sentados ao redor da mesa para negociar grandes acordos de livre comércio e investimentos. Ele pode ser considerado uma Widest West Web (A Maior Rede do Ocidente) - uma definição de Ocidente que inclui Japão, Peru, Brunei e Vietnã dá realmente uma ideia de sua amplidão. Outra maneira de defini-lo é EBC, Everyone But China (Todos Menos a China).

A maior dessas negociações começou na semana passada, quando uma delegação da Comissão Europeia se reuniu com uma delegação dos Estados Unidos na Casa Branca. O acordo que seus integrantes pretendem discutir se chama atualmente Transatlantic Trade and Investment Partnership (Parceria de Comércio e Investimento Transatlântico), o TTIP, uma sigla terrível. A primeira coisa que essas negociações deveriam fazer é mudar o nome para Trans-Atlantic Partnership (Parceria Transatlântica), ou TAP, que seria uma alternativa muito melhor.

A TAP poderia ser um ótimo complemento da TPP (Trans-Pacific Partnership, ou Parceria Transpacífica), outro grande show da Broadway na área de geoeconomia. O valor total do comércio e dos investimentos transatlânticos é avaliado em torno de US$ 4,7 trilhões. A região da TPP que vem sendo proposta - e deverá incluir EUA, Canadá, México, Austrália e Japão, bem como relevantes democracias de mercado como Vietnã e Brunei - representa cerca de 33% do comércio mundial.

Também estão em curso negociações entre União Europeia e Canadá e União Europeia e Japão, enquanto americanos e europeus tentam intensificar seu intercâmbio e investimentos com países como Índia e Brasil.

Com o glorioso e confiante otimismo americano, a Casa Branca descreve sua iniciativa de colocar os EUA no TTIP - que espero mude para TAP - como uma tarefa para "um tanque de gasolina". O que, aparentemente, significa um prazo até as eleições de meio de mandato de 2014. Ocorre que, nos EUA, os tanques de gasolina são enormes, embora seja preciso dizer também que, com os SUVs americanos, o Congresso faz pateticamente poucos quilômetros por litro. Quanto aos países europeus, esse prazo valeria até o fim da Comissão e do Parlamento Europeus. A maioria das outras conversações, incluindo aquelas sobre a TPP, UE-Canadá e UE-Japão, também têm como prazo 2014.

Talvez isso nunca ocorra. A recente história do comércio foi marcada por pontos mortos ou, para usar a metáfora do governo de Barack Obama, pela falta de gasolina. O fato de os países envolvidos serem, em sua maioria, democracias contribui para dificultar a situação.

As democracias contemporâneas que funcionam de fato se destacam na agregação das necessidades especiais de grupos de interesse, sejam eles interesses referentes a riqueza (corporações, lobbies setoriais) ou os que têm grande importância em termos de votos, como os produtores agrícolas. A própria UE é um agregado de 28 dessas agregações nacionais. Não por acaso, Bruxelas compete com Washington pelo título de nirvana dos lobistas.

No entanto, imaginemos que, enquanto a mente dos políticos está obcecada por uma recessão global e pela ascensão da China, tudo ocorresse ao mesmo tempo. Seria um fenômeno monumental. Primeiramente, um enorme potencial de ganhos para a economia mundial e um enorme desafio para a China.

Na celebração do centésimo aniversário de 1914, voltaríamos a algo parecido com o mundo do livre intercâmbio que tínhamos antes de 1914 - mas numa escala maior, com um colonialismo menos formal e com formas de interconexão mais complexas e mais profundas.

Nem todos seriam vencedores, mesmo na Widest West Web, mas os benefícios potenciais seriam enormes. As projeções dos economistas devem ser avaliadas com prudência. Apenas para dar uma ideia: segundo um estudo encomendado pela fundação Bertelsmann, a TAP - ou TTIP, se insistirem - poderia significar um aumento, no longo prazo, de mais de 13% do Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos EUA, um crescimento da renda per capita média de 5% para a UE - e não menos de 10% per capita para a Grã-Bretanha.

A Comissão Europeia calcula que um único acordo entre a UE e o Japão poderia resultar na criação de 400 mil empregos. Para a UE, que tem cerca de 6 milhões de jovens desempregados, isso não é nada. Conduzida de maneira correta, a expansão do livre comércio e dos investimentos é o mais próximo que se pode chegar, em termos de assuntos humanos, de uma situação em que só se tem a ganhar. Portanto, vamos abrir a torneira da TAP, como eu prefiro, e todas as outras também.

No entanto, trata-se também de um desafio geopolítico para o Partido Comunista Chinês. Pois, na geopolítica do livre comércio, o dr. Pangloss encontra Maquiavel. Os americanos sabem disso. Os europeus sabem disso. Os japoneses sabem disso. Os chineses sabem também. Um artigo publicado na Washington Quarterly, escrito por Guoyou Song, da Universidade Fudan, de Xangai, e por Wen Jin Yuan, da Universidade de Maryland, cita "um respeitado expoente dos círculos acadêmicos e políticos chineses" que caracteriza a TPP como um instrumento americano cuja finalidade é frear a ascensão da China.

Entretanto, a conclusão de sua análise muito séria sobre os inúmeros interesses e lobbies de que é feita a política chinesa é intrigante. "Vale a pena ressaltar que a China não fechou suas portas para a possibilidade de aderir à própria TPP. Se o governo chinês chegar à conclusão de que os benefícios da adesão superam os custos, poderá candidatar-se."

É nesse ponto que o Pangloss econômico e o político Maquiavel poderiam coincidir de maneira dialética. A Widest West Web é um desafio para a China, mas também um incentivo. Se ela resolvesse ingressar numa rede de áreas de livre comércio e investimentos propriamente dita, agir de acordo com as normas e nós tivéssemos de dizer "não", estaríamos nos comportando de maneira quase tão irresponsável quanto os líderes europeus em 1914.

Nosso objetivo último nesse novo jogo de enormes dimensões não deve ser o bloco EBC. Ao contrário, essas áreas de livre comércio deveriam ser consideradas todas como elementos fundamentais de uma ordem internacional liberal que poderia incluir e acolher a China.

Pequim, obviamente, teria então o direito de participar da constituição dessa ordem juntamente com as potências ocidentais, mas sua participação também poderia contribuir, por fim, para convencer a China a adotar internamente uma maior abertura, o pluralismo e o estado de direito, como deseja uma parcela cada vez mais ampla de sua população. Bem-vindos à dialética da TAP e da TPP. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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