Ben Carson mentiu sobre seu passado?

Pré-candidato líder de pesquisas do Partido Republicano diz ter se 'convertido' à paz, mas pode nunca ter sido diferente

Justin WM. Moyer, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2015 | 02h02

Nos anos 60, Ben Carson, era um adolescente de 14 anos, aluno da nona série, que vivia num ambiente difícil em Detroit. Um dia, o futuro neurocirurgião e pré-candidato presidencial republicano à presidência dos Estados Unidos se enfureceu.

A briga, como ocorria entre muitos adolescentes, surgira por um motivo fútil: a estação do rádio a transistor que eles queriam ouvir. Bob, amigo de Carson, ousara trocar a frequência. "Você chama isso de música?", perguntou Bob. "É melhor do que a que você quer ouvir!" gritou Carson.

Tudo poderia ter acabado ali mesmo - bons amigos, às vezes, brigam por motivos muito mais sérios e logo fazem as pazes. Mas Carson, de repente, ficou enfurecido.

"Naquele instante, fui dominado por um ataque de fúria cega - fúria patológica", ele escreveu em Gifted Hands (Mãos talentosas, em tradução livre), sua autobiografia publicada em 1990. "Peguei a faca de camping que carregava no bolso de trás, abri e arremeti contra o menino que era meu amigo. Com toda a força dos meus músculos jovens, enfiei a faca em sua barriga. Ela atingiu a enorme fivela do seu cinto - uma pesada fivela militar que a faca arrancou e jogou no chão".

Seu amigo - e o seu próprio futuro - foram salvos por aquela fivela, disse Carson, acrescentando que o incidente fez desaparecer imediatamente a ira "com a ajuda de Deus".

"Olhei para a lâmina quebrada e me senti muito fraco", escreveu. "Por pouco, eu não o matara. Por pouco, não matara meu amigo."

A história da faca - e outras nas quais ficamos sabendo que Carson socou alguém, atirou pedras e tentou atingir sua mãe com um martelo - são marcos essenciais na estrada de Carson rumo à redenção que o tornou um candidato tão interessante para alguns.

A faca chegou a entrar num filme de TV sobre Carson. Agora, no entanto, a CNN - que empreendeu uma verdadeira investigação a respeito da história - afirma não conseguir encontrar a suposta vítima de Carson - e o próprio candidato disse que o nome que usou na sua história e outro que usou para falar sobre seu passado aparentemente violento eram "fictícios".

"Não gosto de mencioná-los", disse Carson a repórteres na quinta-feira, no Texas. "Os nomes que usei como exemplo são fictícios. É que não quero envolver pessoas em coisas desse tipo porque sei o que vocês fazem com a vida das pessoas", E acrescentou: "Não pretendo expô-los".

Numa entrevista para a Fox, também na quinta-feira, Carson explicou o motivo. Na entrevista, "Bob" virou um "parente próximo". "A pessoa que tentei esfaquear, bom, falei com ela hoje", disse. "Eles não tinham a menor intenção de que seus nomes fossem revelados. Era um parente próximo, e não quis tornar isso público".

A CNN disse que não se tratava apenas de proteger suas fontes. A rede afirmou que conversou com dez pessoas que deveriam ter conhecimento do temperamento de Carson - e elas não se lembravam do episódio. A emissora disse também que entrou em contato com a equipe de campanha de Carson para mais informações e não as recebeu.

"Procuramos essas pessoas em Detroit", disse a repórter Maeve Reston da CNN. "Pesquisamos nos anuários. Falamos com vários dos seus colegas de classe. Encontramos amigos íntimos de todos os períodos de sua vida. E a pessoa que ele descreve na história que costuma contar na campanha e que o teria levado a essa "conversão" não consegue lembrar de nenhum episódio de violência".

As pessoas com quem a CNN conversou não desmentiram as histórias. Mas o Carson descrito nos livros do candidato não é o Carson que elas conheceram. "Não sei nada disso", disse Gerald Ware, colega de Carson no colégio, entrevistado pela emissora. "Todos na escola saberiam (se algo assim houvesse ocorrido)."

"Eles o descrevem como uma pessoa mansa, calada", disse a repórter. "Do tipo que jamais desafiaria ordens da mãe. Por isso ,começamos a questionar essas histórias".

Mais dúvidas. Em outro incidente, descrito por Carson em Gifted Hands, ele disse que trocou socos com um colega de classe que ter zombou dele por uma resposta errada que deu na aula de Inglês na sétima série.

"Jerry me empurrou", escreveu. "Tropecei e fiquei nervoso. Esqueci que ele era mais forte do que eu, nem vi os colegas e os professores no corredor. Me virei com o bloco da fechadura na mão e o golpe o pegou bem na testa". Após a intervenção do diretor, Carson diz ter pedido desculpas.

"Fiquei envergonhado", escreveu. "Um cristão não perde a calma daquele jeito. Pedi desculpas a Jerry e o incidente foi encerrado". Mas a CNN não encontrou o tal Jerry.

"Ainda estamos procurando o tal Jerry e o Bob que ele descreveu", disse a repórter. "Mas entramos em contato com todos os Jerrys e Bobs que pudemos em sua classe e ainda não encontramos ninguém que tivesse participado desses incidentes ou que estivesse envolvido neles. Tampouco achamos testemunhas".

Carson achou essa investigação equivocada. "Para que alguém teria conhecimento de episódios particulares como esses?", disse à CNN. "Eu era uma pessoa educada, em geral, só tinha um temperamento péssimo. Por isso, a não ser que se tratasse da vítima do meu temperamento, como saberia disso? Só por que ela me conheceria? Isso não faz sentido". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

JUSTIN WM. MOYER É JORNALISTA DO THE WASHINGTON POST

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