Bergoglio, o príncipe do povo

Papa presenteará católicos com instruções sobre a doutrina, mas a grande dádiva é o homem em si - sua maneira de ser

David Brooks, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2015 | 02h00

Um dos romances preferidos do papa Francisco é Os Noivos, do escritor italiano Alessandro Manzoni. Dois amantes veem frustrado seu desejo de se casar por um padre covarde e moralmente medíocre e por um nobre invejoso. Um frade bondoso protege o casal em sua desventura. Neste momento, a peste assola o país, lembrando às pessoas de sua mortalidade e vulnerabilidade, e propiciando um julgamento moral.

Enquanto os médicos cuidam dos corpos nos hospitais, os homens bons da Igreja cuidam das almas. O sacerdote covarde é repreendido por um cardeal: "Você deveria ter amado, meu filho, amado e orado. Então, teria percebido que as forças da iniquidade têm o poder de ameaçar e ferir, mas não têm o poder de mandar". No final, há cenas comoventes de confissão, de perdão, de reconciliação e, enfim, o ansiado casamento.

Falei do romance, que Jorge Bergoglio leu quatro vezes, porque nós da imprensa carregamos sua visita aos Estados Unidos de excessivo sentido político. Sentimo-nos confortáveis falando de nossas lutas ideológicas, por isso acompanhamos de perto e cobrimos toda indicação que ele dá sobre o aborto, o casamento gay, o aquecimento global e o divórcio.

No entanto, a visita é também um acontecimento cultural e espiritual. Milhões de americanos exibirão sua fé em público. Francisco brindará aos católicos instruções sobre a doutrina, mas a grande dádiva é o homem em si - sua maneira de ser, de se comportar. Especificamente, Francisco oferece um modelo a respeito de duas questões: você ouve profundamente, você aprende? Defende determinados padrões morais, enquanto ama e é caridoso com seus amigos?

Durante toda a sua vida, a mensagem fundamental de Francisco tem sido anti-ideológica. Como Austen Ivereigh observa em sua biografia, O grande Reformador, Francisco critica consistentemente os sistemas intelectuais abstratos que falam de cruas generalidades, instrumentalizam os pobres e ignoram a rica natureza peculiar de cada alma e de cada situação.

Ele escreveu que muitos dos nossos debates políticos são tão abstratos que não conseguimos sentir o cheiro de suor da vida real. Eles reduzem tudo a "narrativas gastas, medíocres como as revistas de histórias em quadrinhos".

Ao contrário, o grande presente de Francisco é aprender por meio da intimidade, não apenas estudando a pobreza, mas vivendo entre os pobres e experimentando a convivência como algo pessoal no nosso íntimo.

"Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois da batalha", disse o papa ao entrevistador, padre Antonio Spadaro. "A coisa de que a Igreja mais precisa hoje em dia é a capacidade de sanar as feridas e aquecer os corações dos fiéis. Ela precisa da proximidade, do contato. Sanemos as feridas, sanemos as feridas. E teremos de começar de baixo para cima."

Esta proximidade nos ensina detalhes granulares, mas também desperta um sentimento de respeito. "Vejo a santidade do povo de Deus, esta santidade diária", disse. "Vejo a santidade na paciência do povo de Deus: a mulher que cria os filhos, o homem que trabalha para levar o pão para casa, os doentes, os sacerdotes idosos com todas as suas feridas, mas que conservam um sorriso no rosto."

Nós praticamos o elitismo material e intelectual, buscando um status superior e um conhecimento especializado e desprovido de espiritualidade. O papa Francisco enfatiza que diferentes tipos de conhecimento vêm de ambientes diferentes. Como afirmou: "É o que ocorre com Maria: se vocês quiserem conhecê-la, perguntem aos teólogos. Se quiserem saber como amá-la, perguntem ao povo."

Isolamento. Nos nossos dias, alguns fiéis acreditam que precisam se isolar da corrupção da moderna cultura decadente, mas Francisco afirma que precisamos nos atirar nas várias culturas vivas deste mundo para ver Deus em toda a sua glória. E precisamos de fé para ver as pessoas em toda a sua profundeza.

Ele gosta de citar uma frase do romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski: "Quem não acredita em Deus, não acredita no povo de Deus. Somente o povo, e seu futuro poder espiritual, converterá os ateus que abandonaram a própria terra".

O enfoque de Francisco é totalmente pessoal, íntimo e específico de cada situação. Se formos demasiado rigorosos e nos limitarmos a aplicar regras abstratas, de acordo com ele, nos limitaremos a lavar as mãos das nossas responsabilidades para com uma pessoa. Mas, se formos demasiado frouxos e apenas tentarmos ser bonzinhos com todos, ignoraremos a verdade do pecado e a necessidade de emendá-lo.

Somente mergulhando na especificidade daquela pessoa e daquela alma misteriosa poderemos conseguir o justo equilíbrio entre rigor e compaixão. Somente nos tornando íntimos e amando poderemos corresponder à autoridade que vem da Igreja, ensinando com a sabedoria democrática que brota do senso comum de cada indivíduo.

O papa Francisco é um aluno, um ouvinte extraordinário e um cético a respeito de si mesmo. Os momentos melhores desta semana serão os que nos permitirão observá-lo se relacionar com as pessoas, ouvir profundamente e aprender com elas, como ele as vê em seus grandes pecados, mas também com uma compaixão infinita e um amor despojado./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

DAVID BROOKS É COLUNISTA DO THE NEW YORK TIMES

 

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