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Berlim forma governo, para espanto de Paris

Já faz alguns anos que Angela Merkel ocupa a posição de mulher mais poderosa do mundo. Hoje, ela confirmará esse status "galáctico", pois será nomeada formalmente chanceler (premiê) da Alemanha pela terceira vez. Belo triunfo para a antiga garotinha estudiosa, tímida e discreta que cresceu na Alemanha Oriental, onde seu pai era pastor da Igreja Luterana.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2013 | 02h01

Para obter essa terceira consagração, Merkel mobilizou mais uma vez seus talentos de "manobrista". De fato, embora seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU) - com sua prima bávara, União Social-Cristã (CSU) -, tenha vencido, há três meses, as eleições legislativas, ele não obteve a maioria absoluta.

Para desatar a chancelaria, Merkel precisou então "misturar água no seu vinho". Precisou negociar com outro partido para formar uma maioria. O realismo de Merkel fez maravilhas. A Alemanha será dirigida por uma "grande coalizão" que compreenderá, sob o comando obstinado e sutil de Merkel, os dois partidos de governo rivais encarniçados e inimigos - a CDU (de direita) e o Partido Social-Democrata (SPD), de esquerda.

Os franceses acompanham essa operação com olhos arregalados. Eles não conseguem entender. Então, dois partidos contrários em tudo exceto na sua qualidade de alemães, podem, não só cooperar, mas ainda se atrelar à mesma charrete e correr como o vento.

Impensável para uma mentalidade francesa! Se você é de direita, deve atirar uma bomba contra o cerco dos socialistas, dizer que todas as pessoas de esquerda são cretinas e, com a ajuda do jornal Figaro, atear fogo ao governo de François Hollande. Os socialistas, por sua vez, na época em que a direita (Nicolas Sarkozy) conduzia o trem, não poupavam esforços para tirar o comboio dos trilhos.

Eis uma diferença categórica entre dois países que, no entanto, se amam, a Alemanha e a França. Grande coalizão numa margem do Reno, e poder solitário na outra, a francesa. Para um socialista, aliar-se à direita para salvar o país da desgraça seria uma covardia, uma obscenidade. E a direita não o aceitaria, tampouco.

Essências. Como explicar? Os analistas recorrem a uma noção cômoda, porque ela é perfeitamente vaga, subjetiva e ilusória: o "gênio" de cada povo. O gênio da França é a querela, o desafio, a fanfarronada, o duelo e o brio.

A França passou toda sua história a brigar consigo mesma, por exemplo, em 1789 com a Revolução Francesa e suas centenas de cabeças cortadas. Mas a Idade Média e a Renascença já haviam parecido vastas "brigas de trapeiros". E, no século 19, após a morte de Napoleão, a França continuou a fabricar, a cada 20 anos, uma cópia deslavada e muito mortal, contudo, da Revolução de 1789.

Essa explicação é séria. Mas não é suficiente. Quando se abandona o campo das ideias vagas e da psicologia dos povos e se volta humildemente à mecânica política, outras pistas podem ser propostas. A Constituição francesa da Quinta República, polida pelo general Charles de Gaulle em 1958, não facilita os acordos de governo entre partidos opostos. As coalizões, sejam elas "grandes" como na Alemanha ou "pequenas", são pouco compatíveis com ela.

O sistema francês não é parlamentarista. É, com nuances, presidencialista. Toda autoridade é detida pelo chefe de Estado, eleito por sufrágio universal por cinco anos. E para se manter no poder esse chefe de Estado não precisa dispor da maioria no país. Por exemplo, neste momento, François Hollande é aprovado por 25%, quando muito 30% da população francesa. Ele não dá a mínima. O presidente não pode ser derrubado.

De fato, em caso de impopularidade notória ou risco de o "governo" ficar em minoria (o governo, não o presidente) na Câmara, o chefe de Estado pode agradecer a seu primeiro-ministro e nomear outro (nessa circunstância, mas muito raramente, ele pode nomear um primeiro-ministro saído da oposição, como no passado Jacques Chirac nomeou Lionel Jospin). Mas o presidente flutuará sempre acima das tempestades.

De mais a mais, por que se cansar em construir uma "grande coalizão" com um pouco de esquerda, um pouco de direita, um pouco de centro, um pouco de "verdes"? Basta ser eleito presidente da república e depois, durante cinco anos, é só deitar e rolar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORREPONDENTE EM PARIS

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