Berlim paga R$ 11,8 bi em indenização a escravos do nazismo

Com um ´reconhecimento moral´, país encerra dívida por crimes do 3º Reich

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 02h47

A Alemanha saldou o pagamento de indenizações aos antigos escravos do nazismo, com o envio de cerca de € 4,4 bilhões (R$ 11,8 bilhões) a 1,66 milhão de sobreviventes, e encerrou a última dívida do total de € 67 bilhões (R$ 180 bilhões) que o país pagou desde o pós-guerra pelos crimes do Terceiro Reich. "O dinheiro não pode compensar a dor infligida, mas é um reconhecimento moral da responsabilidade sobre milhões de vítimas", disse nesta terça o presidente alemão, Horst Köhler, em um ato no Palácio de Bellevue. Os pagamentos são "apenas uma indenização simbólica" perante o sofrimento de "milhões de pessoas que não sobreviveram ao martírio e aos outros que o fizeram, mas com conseqüências físicas ou psíquicas que permanecem até hoje", reconheceu a chanceler Angela Merkel. Köhler e Merkel encerram assim a iniciativa criada em 1998 pelo então chanceler Gerhard Schröder para saldar a dívida tardia com os antigos trabalhadores forçados, entregues pelo regime nazista a indústrias, bancos "e até hospitais e instituições sociais", lembrou o presidente. "Muitos alemães tiraram proveito voluntária ou involuntariamente do trabalho desses escravos", disse Köhler. O presidente ressaltou que esta não foi uma prática "isolada" de alguns consórcios ou empresas, mas de todo o complexo industrial alemão. Crimes Calcula-se que o Terceiro Reich, sob a liderança de Adolf Hitler, empregou cerca de dez milhões de trabalhadores forçados, que foram entregues pelo regime nazista como mão-de-obra preferencialmente à indústria armamentista, mas também para outros tipos de instituições, incluindo a igreja. Deles, foram localizados e identificados 1,665 milhão de sobreviventes, a maioria em territórios da antiga União Soviética. Os grupos de vítimas de outras partes do mundo tinham sido indenizados por meio de diferentes pacotes negociados durante o pós-guerra e em anos posteriores com as potências aliadas, Israel e a maioria dos países europeus, incluindo a Polônia. No entanto, a grande maioria de sobreviventes do Leste Europeu ficou de fora, até que surgiu esta iniciativa, canalizada pela Fundação Lembrança, Responsabilidade e Futuro, criada em 1999, explicou Merkel. "A indústria demorou a levar o problema a sério", admitiu Manfred Gentz, o representante da indústria na fundação. A partir daí, foi aberto um processo de "análise científica" do passado e dos vínculos com o nazismo, assumido "pela maioria dos consórcios", acrescentou Gentz. Negociações A Fundação Lembrança, Responsabilidade e Futuro iniciou um longo processo de negociações com o ex-ministro da Economia e presidente de honra do Partido Liberal Otto Graf Lambsdorff, marcado por sucessivas controvérsias e novos obstáculos. Com a iniciativa já em andamento, na qual inicialmente estiveram englobados doze grandes consórcios industriais, surgiu o temor entre as empresas envolvidas de que tal reconhecimento de culpa gerasse uma onda de demandas coletivas procedentes dos Estados Unidos. Após complexos procedimentos, e ainda sem garantias absolutas de que isso não ocorrerá, se pactuou inicialmente um pacote de € 5,1 bilhões, dos quais a metade foi assumida pelo Estado e o resto, pelas empresas envolvidas. Os antigos escravos do nazismo receberam entre € 2.500 e € 7.500, conforme o período e as tarefas que se viram obrigados a realizar. As quantias começaram a ser liquidadas em 2001, através de sete organizações, entre elas a Jewish Claims Conference e várias fundações em Rússia, Ucrânia e Belarus. Em nome da Jewish Claims Conference, e também das vítimas, o sobrevivente do gueto de Varsóvia, do campo de extermínio de Auschwitz e ex-escravo do nazismo Noah Flug falou no Palácio de Bellevue. Flug ressaltou a impossibilidade de "compensar com dinheiro" os sofrimentos dele, da esposa - também presente no auditório - e de todos aqueles que passaram pelo calvário. O sobrevivente, no entanto, agradeceu a "excepcional" tarefa de confronto com o passado realizada pela Alemanha atual.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.