Berlim quer que EUA expliquem agente duplo

Governo de Merkel exige que Washington esclareça sua relação comfuncionário alemão que admitiu passar dados à inteligência americana

BERLIM, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2014 | 02h01

O governo alemão quer uma explicação rápida e clara de Washington sobre contatos da equipe de inteligência dos Estados Unidos com o funcionário alemão preso na semana passada, sob acusação de ser um agente duplo, disse o ministro do Interior, Thomas de Maiziere, em entrevista ao jornal Bild que será divulgada hoje. "Espero que todos cooperem prontamente para esclarecer essas alegações."

O Ministério das Relações Exteriores alemão divulgou um comunicado dizendo ter convidado o embaixador dos EUA para conversas sobre a questão e pediu uma rápida explicação. Para o ministro Frank-Walter Steinmeier, é interesse de Washington colaborar com o esclarecimento do caso o mais rápido possível.

A Casa Branca e o Departamento de Estado americano recusaram-se a comentar, até ontem, sobre a prisão do funcionário de 31 anos da BND, agência de inteligência internacional alemã. O caso pode piorar a relação entre os dois países, abalada no ano passado após revelações sobre vigilância por parte da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA, na sigla em inglês).

O funcionário preso admitiu passar informações a um contato americano, disseram fontes políticas e de inteligência. Entre os documentos, estão detalhes discutidos por um comitê parlamentar alemão criado para investigar as revelações de espionagem feitas por Edward Snowden, ex-funcionário da NSA.

Snowden foi quem informou que Washington havia realizado uma ampla vigilância de cidadãos na Alemanha e monitorado o telefone da chanceler Angela Merkel - o monitoramento americano sobre mensagens da presidente brasileira, Dilma Rousseff, e sobre a Petrobrás também foi revelado por Snowden. O comitê parlamentar que investiga o caso da NSA faz reuniões confidenciais.

Um integrante do comitê disse que o funcionário preso não tinha uma relação direta com o grupo e não era um agente de alto escalão. Segundo o jornal Fráncfort, o funcionário alemão preso trabalhava como espião para a inteligência americana desde o fim de 2012 e repassou mais de 200 documentos.

Fontes políticas e de inteligência afirmaram que o homem ofereceu seus serviços aos EUA de forma voluntária e teria recebido 25 mil para entregar 218 documentos da BND ao contato americano.

O presidente alemão, Joachim Gauck, ex-pastor protestante e ativista de direitos humanos, afirmou a uma TV alemã ser necessária uma posição dura sobre o caso. "Se realmente um serviço americano está usando um empregado de nossa agência dessa maneira, temos de dizer chega."

A chanceler alemã, que viaja pela China, não comentou o caso, mas pessoas próximas a ela, citadas por repórteres que a acompanham, disseram que ela está "surpresa e desapontada" com a possibilidade de a equipe de inteligência dos EUA ter recrutado funcionário alemão.

A ex-secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton, principal presidenciável democrata para 2016, disse que o assunto é sério, mas pediu calma para "não pôr em perigo" as relações bilaterais, que são necessárias e importantes.

"É necessário esperar os fatos, porque há uma investigação federal em andamento sobre acusações sérias", disse Hillary durante apresentação da sua autobiografia em Berlim. / EFE, NYT e REUTERS

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