AFP PHOTO / ATTILA KISBENEDEK
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Berlim se prepara para receber maior fluxo de refugiados desde a 2ª Guerra

O governo alemão mobiliza-se para o maior fluxo de refugiados desde a 2.ª Guerra; o país já conta com 11 milhões de estrangeiros

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL / PASSAU, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2015 | 02h00

Eles deixaram suas casas enquanto seus bairros eram bombardeados. Levaram semanas para conseguir sair da Síria e encontrar refúgio em um território vizinho. Ali, esperaram por meses em barracas, na expectativa de que a guerra logo terminaria. Isso não ocorreu. A opção foi tomar um longo caminho em direção à Europa. 

De caminhão, à pé pela noite ou em botes, esse refugiados passaram por Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria. Mas, finalmente, após um périplo de meses, essas pessoas que sobrevivem às bombas, ao mar, aos traficantes e ao controle das autoridades chegam ao destino tão sonhado: a Alemanha. 

O governo de Berlim mobiliza-se para o maior fluxo de refugiados desde a 2.ª Guerra. O país já conta com 11 milhões de estrangeiros e verá esse número crescer de forma importante entre este ano e 2016 e, por isso, quer um acordo europeu para compartilhar esse fluxo. 

O Estado visitou a cidade de Passau que, nos últimos meses, tem sido a porta de entrada para esse sonho de milhares de refugiados. Na fronteira com a Áustria, a pequena localidade de 55 mil habitantes à beira do Rio Danúbio começou a receber por dia entre 400 e 700 refugiados nas primeiras semanas de agosto. Mas, na terça-feira, o número saltou para 1,1 mil – 70% sírios. Em Munique, chegaram mais 2 mil pessoas. 

Um número significativo vem pelas mãos de traficantes, que os deixam ainda pela madrugada nos bosques escuros perto do Rio Danúbio. Vultos passaram a ser frequentemente vistos cruzando as estradas da região e não são poucos os atropelamentos. 

Pela manhã, as rádios locais, além de informar sobre o trânsito, alertam os motoristas sobre os pontos de cruzamento de refugiados. Placas de trânsito estão sendo também instaladas nas rodovias para indicar aos motoristas para o risco.

“Isso está ocorrendo principalmente pela madrugada”, explicou Michael Walch, coordenador sanitário da Malteser Hilfsdienst, uma entidade de ajuda ligada à Ordem de Malta. “A previsão é que esse movimento dure por ao menos um ano”. “Eles chegam exaustos e muitos recebem os primeiros atendimentos médicos aqui, após meses de guerra e fuga.” 

Khaled, de Damasco, evita usar a palavra “traficante”. “Vim de Viena com um táxi, se é que você me entende o que quero dizer com isso”, disse ao Estado. “Paguei euros 500 apenas para esse último trecho”, lamentou, contando que também pagou por vários outros trechos e, principalmente, para cruzar o Mar Mediterrâneo entre a Turquia e a Grécia.

 

Segundo as autoridades gregas, 2,5 mil refugiados chegaram a Lesbos apenas na quarta-feira, enquanto outros 15 mil estão na ilha esperando ser transportados para Atenas. 

Mas a maioria apenas usa a Grécia para chegar a cidades alemãs. Passau foi obrigada a investir para poder receber esses refugiados. “Não acreditamos que esse fluxo vai parar”, declarou ao Estado o representante da Polícia Federal na cidade, Thomas Schweikl. 

“Por isso, estamos construindo um novo centro de acolhida, além dos outros quatro que já temos.” Apenas em agosto, a cidade recebeu 17 mil pessoas, mas grande parte foi distribuída por centros de refugiados da região. 

O volume de policiais teve de ser aumentado, com reforços de outras localidades da Alemanha, e ginásios em escolas foram transformados em instalações para os refugiados.

“Há seis meses, o departamento que se ocupava de refugiados menores de idade tinha um funcionário. Agora somos 20”, declarou Ralf Grunow, responsável pela área. 

Para as autoridades, a generosidade da população tem surpreendido, com doações frequentes, até de brinquedos. Mas também têm ocorrido atos de xenofobia. Dois centros de acolhida foram incendiados e, ontem, um homem foi preso ao atacar os refugiados com gás de pimenta. 

Mas, para os refugiados, o símbolo de generosidade passou a ser a chanceler Angela Merkel. “Ela é a mama Merkel para muitos de nós”, brincou Ibrahim, de 28 anos, que deixou a cidade síria de Alepo há dois anos. A França ofereceu 5 mil vagas para refugiados desde 2012, a Espanha, 2 mil e a Dinamarca, 14 mil. Mas a Alemanha diz que receberá 800 mil pedidos de asilo apenas este ano. O governo garante que tem condições de receber esses refugiados, mas sabe que a conta dos gastos sociais do governo será elevada e quer, para os próximos anos, repartir essa população pelo continente europeu. 

Para o governo austríaco, a Alemanha vai pagar o preço pela generosidade e acusa Berlim de estar criando “falsos sonhos” entre os estrangeiros. Viena teme que, estando na passagem entre os Bálcãs e a “terra prometida” (Alemanha), acabe sendo obrigada a receber milhares desses refugiados.

Entre os imigrantes, o sentimento é de alívio. Mas, diante do trauma da guerra e das incertezas vividas por anos, o tom também é de cautela. O temor é o de que a felicidade seja rapidamente substituída pela dura realidade de ter de aprender uma nova língua, viver uma nova cultura e buscar trabalho. 

Ao contrário do fluxo de pessoas que por anos chegou à Europa sem educação ou treinamento, a nova onda de refugiados sírios é composta por estudantes de economia, engenheiros, médicos e profissionais liberais que já sabem que terão de adaptar suas vidas. 

Mas os mais jovens já fazem planos e contam ao Estado que passaram os últimos meses elaborando a estratégia para “recomeçar a vida”. “Acho que vou querer ser alemão”, contou Ali Hussein, apenas quatro dias depois de entrar no território. 

Quem já está na Alemanha há alguns meses, porém, alerta que a integração e o processo burocrático não são fáceis. “Há um ano estou aguardando apenas para que me interroguem sobre o meu caso”, contou ao Estado o eritreu Kosay Abrahem. “Até hoje aguardo para saber se vou receber status de refugiado ou não e, enquanto isso, é como se a vida estivesse em suspense”, afirmou. 

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