Berlim versus Washington

Desconfiança entre os antigos aliados é maior do que nunca após os casos de espionagem

Jacob Heilbrunn, Los Angeles Times/O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2014 | 02h01

Quando o candidato Barack Obama discursou em Berlim, em julho de 2008, perto do Portão de Brandenburgo, disse a um delirante público alemão que paz e progresso "exigem aliados que ouçam o que o outro tem a dizer, aprendam uns com os outros e, principalmente, confiem uns nos outros". Acreditava-se que esta atitude seria o oposto da diplomacia do cowboy de George W. Bush, que afastara a Alemanha e grande parte da Europa. Mas, seis anos mais tarde, a desconfiança nas relações entre Washington e Berlim é maior do que nunca.

Muitos alemães hoje consideram os EUA um Estado militarista agressor, mais perigoso até do que a Rússia ou o Irã. O problema maior é que o presidente Obama ouve muito bem tudo o que se passa com os alemães - graças aos mais de 150 pontos instalados na Alemanha pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) pode espioná-los, segundo documentos sigilosos que o ex-contratado da CIA Edward Snowden vazou para Der Spiegel.

Os alemães, que guardam a dolorosa lembrança da vigilância totalitarista exercida pela Alemanha nazista, prezam a rigorosa proteção de seus dados e os limites do monitoramento do Estado. A espionagem abrangente de um dos parceiros mais valiosos dos EUA - até mesmo do celular da chanceler alemã, Angela Merkel - enraiveceu o público alemão.

Agora, com a recente revelação de que a CIA recrutou um funcionário da inteligência alemã como espião e talvez tivesse outro no Ministério da Defesa, a fúria atingiu o ápice. No dia 4, o embaixador americano John B. Emerson foi convocado pelo Ministério das Relações Exteriores para prestar esclarecimentos sobre o primeiro incidente. Dias depois, a Alemanha ordenou a saída do chefe da CIA em Berlim.

Mas o estardalhaço não acabou. O presidente da Alemanha, Joachim Gauck, disse que, se as acusações de espionagem forem comprovadas, "eles passaram dos limites". Karl-Georg Wellmann, destacado membro do Partido Cristão Democrata de Merkel, exige a expulsão de todos os agentes americanos.

Além disso, os principais políticos alemães pedem uma reavaliação das negociações com Washington sobre um acordo de livre comércio transatlântico que poderia ser vital para o futuro econômico da Europa e dos EUA. Por outro lado, o ministro do Interior, Thomas de Maiziere, anunciou que Berlim encerrará um acordo de não espionagem com os EUA e a Grã-Bretanha, em vigor desde 1945, e começará a monitorá-los na Alemanha. Como disse Stephan Mayer, porta-voz do partido de Merkel: "Devemos nos preocupar muito mais com nossos supostos aliados".

Supostos? Tais declarações, impensáveis há poucos anos, refletem claramente uma antipatia maior pelos EUA entre o público alemão que, em sua maioria, considera Snowden um herói, principalmente por suas revelações a respeito da extensão da vigilância americana na Alemanha.

Desde que, em 2003, o governo Bush levou a guerra ao Iraque - à qual o então chanceler, Gerhard Schroeder, se opôs veementemente - muitos alemães passaram a ver os EUA como um estado militarista agressor, mais perigoso até do que a Rússia e o Irã. Na realidade, uma pesquisa recente da Infratest Dimap indica que apenas 27% dos alemães acham que os EUA são dignos de confiança e a maioria os considera uma potência agressiva.

Portanto, a Alemanha está passando por uma transformação fundamental.

Depois da derrota nazista em 1945, o primeiro chanceler da república, Konrad Adenauer, enfatizou que a Alemanha tinha de acabar com sua tradição de procurar manobrar entre Oriente e Ocidente como potência independente. Ao contrário, tinha de se unir ao Ocidente econômica e militarmente. Somente Washington poderia garantir a existência de uma Alemanha Ocidental livre e democrática. Mas é precisamente essa tradição que está chegando ao fim, pois a Alemanha começa a agir de acordo com seus novos interesses nacionais.

A Alemanha já mostra uma simpatia maior pela Rússia do que pelos Estados Unidos. O ex-chanceler Schroeder faz parte do conselho da Gazprom e é amigo do presidente russo, Vladimir Putin. Outro ex-chanceler, Helmut Schmidt, disse que era "totalmente compreensível" que Putin anexasse a Crimeia. Além disso, interesses econômicos alemães afirmam que Berlim procura manter uma posição amistosa em relação a Moscou.

Além disso, os alemães são avessos a um confronto militar com a China, que vem se destacando como um de seus parceiros comerciais mais importantes.

Não deve causar surpresa se, quase 25 anos após a queda do Muro de Berlim, a Alemanha unificada deixa de ser a dócil aliada da Guerra Fria para tornar-se uma potência soberana que se sente menos inibida por seu passado nazista e menos devedora em relação aos EUA.

Mas tampouco há alguma razão para os EUA se voltarem contra um país que há muito tempo é seu aliado. Ambas as partes precisam estabelecer novos vínculos com base no respeito mútuo. São muitos os interesses que elas têm em comum na área do comércio, na tentativa de dissuadir a agressão russa e no combate ao terrorismo no Oriente Médio.

Menosprezando as liberdades civis alemãs, o governo Obama está manchando a imagem dos EUA e permitindo que os alemães se sintam moralmente superiores ao conquistador de outrora.

Se Obama é incapaz de coibir a espionagem na Alemanha, talvez descubra que está contribuindo para torná-la uma adversária e não mais uma aliada. Se Obama voltar as costas para uma antiga aliada, desfechará um golpe à segurança nacional dos EUA que nenhum volume de informações secretas poderá justificar.

*Jacob Heilbrunn é jornalista e escritor.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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