Berlusconi abandona pose de mágico

Começaram ontem na Itália as eleições legislativas, antecipadas por causa da demissão do primeiro-ministro centro-esquerdista Romano Prodi. Dois homens disputam para comandar o futuro governo: pela esquerda, Walter Veltroni, da aliança denominada Partido Democrático (PD); pela direita, o incansável Silvio Berlusconi, da frente O Povo da Liberdade (PDL). Berlusconi volta ao primeiro plano do palco. Ele nasceu em 1936, o que lhe dá 72 anos, a mesma idade do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, John McCain. Tem um ano a mais que Ronald Reagan quando este se tornou presidente dos EUA. Seu rival de esquerda, Walter Veltroni, tem 52 anos.Velho, Berlusconi? Os implantes e o lifting que foram alguns dos grande momentos de seu último período no poder (2001-2006) resistiram bem. Ele tingiu os cabelos de um belo negro. E, como aplica cada vez mais creme no rosto, quando é visto de uma certa distância parece ter 20 anos a menos.De perto, essa juventude se evapora e ele ganha o aspecto de uma máscara. Além disso, Berlusconi sofreu duas enfermidades cardíacas, mas seus médicos são muito bons. Em 2006, ele recebeu um marca-passo que funciona perfeitamente.O líder conservador ainda encena seu tradicional número de velho jovem - grande conquistador de mulheres, espirituoso e emotivo, com um humor de fim de banquete sempre pronto a sair de seus lábios. Na semana passada, saiu-se com esta: "As mulheres de direita são mais belas que as mulheres de esquerda."Engenhoso, maquiavélico, cínico, demagogo, encantador. A infelizes que se queixavam dos impostos, ele responde, apiedado: "Ah, os impostos, nem me falem! Ainda esta manhã, fiz um cheque de 43 milhões, o tanto que eu devo ao fisco!" E a coisa anda. Essa exibição de sucesso agrada: se ele é bom em ganhar dinheiro, fará a Itália enriquecer também.Assim, tudo parece no devido lugar. Bem tratado, o sorriso largo, o verbo ferino, impaciente para ganhar um terceiro mandato. Mas os italianos vêem hoje um homem um pouco cansado, menos mágico. É como se seu brilho, sua vulgaridade e suas tiradas não divertissem mais. Esse é o inconveniente dos velhos atores que interpretam sempre o mesmo papel. As pessoas querem concluir suas falas em seu lugar.Esse desgaste será um efeito da idade? É preciso não esquecer que a Itália é um país de velhos. Há uma multidão de Berlusconis, homens e mulheres idosos que se arruinam em cuidados para parecer jovens. A Itália bate recordes no Ocidente. Apenas um cidadão em cada quatro tem menos de 25 anos. Na outra ponta da cadeia etária, um cidadão em cada quatro tem mais de 65 anos.O grande escritor e semiólogo Umberto Eco, de 76 anos, escreve no jornal espanhol El País: "Na Itália, mesmo os que perderam uma eleição são representados. Temos a classe política mais idosa do mundo. O futuro da Itália depende da morte de uma dezena de velhos."O cansaço de Berlusconi se explicará por sua idade? Seja como for, ele mudou. Outrora, ele se apresentava como um ilusionista, tinha saquinhos de pó mágico em todos os bolsos, ia reconstruir o país por hipnose. Isso acabou. Seu estoque de pó de pirlimpimpim se esgotou.A seus eleitores, Berlusconi não diz mais que basta "querer para poder". Sua linguagem é severa, sombria: "A situação é muito difícil. Os italianos precisam ter consciência disso." Ou então: "Não prometemos fazer milagres, porque não os faremos." Da parte de um camelô tão genial como ele, essa linguagem soa como um dobre de finados.Entretanto, Berlusconi chegou às eleições liderando as pesquisas, talvez porque a velha sedução berlusconiana ainda funcione, ou talvez porque esse linguajar da verdade comova um povo cansado de uma classe política corrompida, preguiçosa, desonesta e velha, de finanças calamitosas, de armações e ceticismo generalizado.O estranho é que, ao menos pelo que indicam as sondagens de opinião, seu adversário Veltroni, que se apresenta justamente como o homem da mudança, não conseguiu convencer a maior parte dos italianos. Mas Veltroni tem seus trunfos: relativamente jovem, simpático e considerado não corrupto, o que é uma raridade. Uma pérola. Como prefeito de Roma, teve belos resultados. Para mostrar sua probidade, ele se demitiu do cargo de prefeito para concorrer.Mas ele tem uma desvantagem: seu antecessor no comando da esquerda, Romano Prodi. O homem era estimado, mas seus dois anos no poder foram quase nulos. Um pouco por culpa do próprio Prodi. Mas muito porque ele estava à frente de uma coalizão de nove partidos, de católicos a comunistas empedernidos. Ou seja, antes de cada decisão era preciso consultar nove partidos separados em tudo - e nenhuma decisão conseguia ser tomada.As lembranças dos anos frouxos e debilitantes de Prodi pesam sempre sobre a imagem de Veltroni. Apesar da estima que há por ele, não consegue ultrapassar o velho Berlusconi.Teme-se, e alguns desejam, que os dois homens, os dois campos, não consigam se distanciar de maneira significativa na votação. Muita gente poderosa, dirigentes de empresas, órgãos de imprensa, homens de Igreja, não esconde que deseja um "empate".Esse partido inexistente, mas importante, age nesse sentido. Por exemplo, berlusconianos se afastam de seu campeão. Alguns lobbies que arrecadavam fundos para financiar campanhas de Berlusconi, este ano se abstiveram. Sua doutrina é surpreendente: eles acham que a única maneira de tirar a Itália da letargia e da beira do abismo seria um empate. Essa seria, dizem eles, a única maneira de evitar a instabilidade ou a paralisia.Suponhamos um empate. E depois? Duas hipóteses são sustentadas pelo lobby do empate: ou Berlusconi se mantém, mas depois de fazer uma aliança com Veltroni (os dois não se detestam, na verdade até sentem certo apreço um pelo outro); ou então os dois rivais seriam liquidados e se formaria um governo em torno da União do Centro (UDC), agrupando as principais forças políticas do país numa espécie de governo de emergência. Alguns nomes circulam para dirigir essa eventual equipe sem Veltroni e Berlusconi, como Pier Fernando Casini, chefe da UDC, e Luca Cordero di Montezemolo, antigo líder do empresariado italiano, figura dotada de um grande poder oculto, subterrâneo, que, apesar de sua influência, evitou cuidadosamente participar da campanha eleitoral e tomar partido por um dos dois candidatos.*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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