Berlusconi ameaça derrubar governo

Condenado por fraude, ex-premiê exige reforma do Judiciário como contrapartida para a manutenção do apoio de seu partido à coalizão

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h03

A condenação de Silvio Berlusconi abriu uma crise política na Itália. Ontem, o magnata ameaçou derrubar o governo, condicionando seu apoio à coalizão no poder a uma reforma judiciária. Se suas exigências não forem atendidas, ele promete pedir uma nova eleição, a segunda este ano.

Há dois dias, Berlusconi foi condenado por fraude, no primeiro processo em 20 anos a chegar à última instância. Ele, porém, é o líder incontestável de um dos dois partidos que formam o governo e obteve, em fevereiro, mais de 30% dos votos dos italianos. A prisão e a saída de Berlusconi da vida pública italiana significariam o fim da coalizão liderada por Enrico Letta, do Partido Democrático, de centro-esquerda.

Em uma aparição coreografada, Berlusconi convocou os senadores do partido da Povo da Liberdade. Quando entrou no salão do Palácio Grazioli, sua casa em Roma, foi recebido com uma ovação, transmitida a todo o país. O discurso foi de desafio ao governo. Se a Justiça não for reformada, afirmou Berlusconi, seu partido não terá outra opção senão a de pedir novas eleições. Ou seja, ou ele é resgatado ou derrubará o governo.

O objetivo é o de conseguir que o presidente Giorgio Napolitano o poupe da condenação em nome da estabilidade do país. "Se não houver uma reforma do Judiciário, estamos prontos para uma eleição."

Seus aliados repetiram o discurso. "Devemos pedir eleições o quanto antes para garantir uma vitória", ameaçou Angelino Alfano, secretário do Povo da Liberdade e ministro do Interior. "Devemos defender nossos princípios e nossa história, que coincide com a sua", disse ele a Berlusconi. "Estamos preparados para pedir nossa demissão."

O porta-voz do partido de Berlusconi no Senado, Renato Schifani, deixou claro que a meta é que Napolitano anuncie um indulto ao empresário.

Do outro lado, o Partido Democrático, que por anos lutou contra Berlusconi, vive um dilema. Se não ceder ao ex-primeiro-ministro, corre o risco de ser derrubado do poder. Uma parte significativa do movimento de centro-esquerda, porém, se opõe à ideia de seguir governando em aliança com um condenado por fraude fiscal.

Letta, sequestrado em seu cargo de primeiro-ministro, continua reforçando a ideia de que os partidos políticos precisam ser "responsáveis". "Seria um crime deixar esse governo cair", disse. "Acima de tudo está o interesse do país. Hoje, a Itália precisa de respostas e precisa ser governada."

O ex-secretário do Partido Democrático, Pier Luigi Bersani, não deixou dúvidas sobre a situação crítica que vive a Itália. "A condenação de Berlusconi terá consequências políticas graves. Todos precisam pensar, inclusive nós", analisou. "O risco da ingovernabilidade é cada vez maior."

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