Berlusconi e Bersani refletem os opostos da sociedade italiana

Ex-premiê é um magnata envolvido em escândalos; ex-comunista é discreto e faz questão de manter contato com suas raízes

ROMA, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 02h06

Vendedor de sonhos, irresponsável, indecente e até mentiroso. Silvio Berlusconi foi acusado de tudo e por todos durante a campanha eleitoral. No entanto, ontem, promoveu uma vingança pessoal. Numa eleição marcada por candidatos excêntricos e por uma grave crise econômica, ele e Pier Luigi Bersani dividiram os eleitores, disputaram voto a voto e, para observadores, tornaram-se um reflexo dos opostos da sociedade italiana.

Três vezes primeiro-ministro e acusado de ter levado o país ao caos, Berlusconi nunca perdoou quem o empurrou para fora do governo, em novembro de 2011. Apenas aguardou o momento certo para contra-atacar, o que ocorreu no fim de 2012, quando ele anunciou que estava retirando seu apoio do governo de Mario Monti.

A medida foi uma retaliação contra a tentativa de tribunais italianos de condená-lo por corrupção e abuso de menores. A aposta parecia ousada demais, mesmo para Berlusconi: abandonar o governo, forçar eleições e mostrar que é ainda é decisivo. Ontem, para muitos em Roma, o Cavalieri venceu a aposta.

Quando renunciou,, os mais apressados o apontaram como politicamente morto e orquestras foram às ruas festejar. No entanto, o resultado das urnas mostrou seu poder de convencimento, mesmo com toda a Europa contra ele. Não foi por acaso que Bersani, quando ficou sabendo que Berlusconi seria candidato, teria declarado a seus assessores mais próximos que o jogo havia mudado "radicalmente".

Durante a campanha, Berlusconi ignorou as denúncias de corrupção, as acusações de promover a prostituição e fez questão de insistir em um programa com base no combate à austeridade, uma defesa do corte de impostos e uma avalanche de sua imagem por todos os seus canais de TV.

Raízes. O magnata, com uma oratória muito superior à de Bersani, insistiu em atacar o passado "comunista" de seu adversário e dizer que foi "expulso" do governo pela chanceler alemã, Angela Merkel.

Do lado oposto estava Bersani, filho de um mecânico do norte da Itália. O ex-comunista admite a necessidade de seguir com muitas das reformas adotadas por Monti, que são duramente criticadas pela esquerda.

No entanto, é sua imagem pessoal que mais o distingue de Berlusconi. Ao lançar sua campanha, escolheu justamente o posto de gasolina onde trabalhava seu pai para seu primeiro discurso, lembrando a todos que "sem raízes, não somos nada". Num país marcado pelo conservadorismo, seu discurso "interiorano" é o contraste que os italianos buscavam depois do showman Berlusconi e dos anos de austeridade de Mario Monti.

Suas frases chegam a fazer parte de programas humorísticos por sua falta de clareza. Uma das mais famosas é sua explicação sobre o impacto da crise. "Quando chove, chove para todos", disse, sem se explicar.

Ao contrário de Berlusconi, Bersani não hesita em mostrar suas rugas. Diz estar orgulhoso de estar casado com a mesma mulher por mais de 30 anos e não tem nenhum processo contra ele. Sua palavra de ordem é "justiça".

No ano passado, foi flagrado por fotógrafos sentado num bar, escrevendo seus discursos, uma imagem distante da tradição de drama e ópera da Itália, onde sempre há um vilão e um herói no final da história.

Comemoração. Numa eleição marcada pela tentativa de volta de um bilionário, um ex-comediante populista e até um ex-banqueiro que comandou o país sem ser eleito, Berlusconi não hesitou em cantar vitória ontem, aos 76 anos e dono de uma fortuna de 8 bilhões. Assim, abriu uma crise de proporções continentais. / J.C.

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