'Berlusconi é só parte do problema' , diz analista sobre crise italiana

Giovanni Orsina é historiador, cientista político, escritor e professor da Escola de Governo da Universidade Luiss Guido Carli, de Roma. Em entrevista ao Estado, ele falou sobre a recente crise política causada pela condenação do ex-premiê Silvio Berlusconi.

Entrevista com

ANDREI NETO - CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2013 | 02h18

Por que a Itália está em crise?

Trata-se de uma crise de um sistema político instável há 20 anos, quando parte dos partidos italianos foi destruída pela intervenção da Justiça. Desde então, o sistema político nunca mais foi estável. Por mais paradoxal que pareça, nesse período, Berlusconi tem sido um elemento de estabilidade, porque ele reorganizou a direita e obrigou a esquerda a se mobilizar contra ele. A partir deste momento, a Itália se dividiu entre pró-Berlusconi e anti-Berlusconi.

Quais os problemas estruturais do sistema político da Itália? Nossa legislação eleitoral não garante estabilidade política. A direita se mostra incapaz de viver sem Berlusconi e há uma tensão real entre a Justiça e os políticos. A Justiça vem desempenhando um papel político desde os anos 90. Esses componentes causaram os problemas da Itália nos últimos 20 anos, mas se agravaram nos últimos três anos.

Então, Berlusconi não é a causa de todos os problemas, como muitos afirmam?

Não, ele é apenas parte do problema, mas há outros. Berlusconi foi condenado pela Justiça, mas parte do eleitorado não acredita no Judiciário e muita gente diz que Berlusconi não está sendo banido da vida política porque cometeu um crime, mas porque a Justiça está politizada. Muitos acreditam que ele é perseguido. E, cá entre nós, esses eleitores têm razão.

Por isso ele é tão popular?

Quando ninguém consegue atrair os eleitores, eles voltam a votar em Berlusconi. Em 2011, Berlusconi estava morto, mas ganhou nova vida em fevereiro. Foi o início do problema atual. A solução foi construir a atual coalizão, com Enrico Letta. Mas em agosto entramos em uma crise nova, totalmente diferente.

Em agosto Berlusconi foi condenado. Ele esperava ser salvo da prisão pela coalizão?

Ele não sabia o que fazer nos últimos dois meses. Ele ficou encurralado pelo Judiciário. Agora, ele compreendeu que a coalizão não o defenderia, por isso, no sábado, decidiu lançar a nova crise política. Mas, desta vez, nem ele sabe para onde ir. O desfecho da crise é imprevisível.

Letta sobrevive ao voto de confiança no Parlamento?

É possível, mas hoje é difícil dizer o que pode ocorrer. Até porque o próprio Berlusconi pode mudar de ideia de novo. Se Letta convocar novas eleições, será um período ainda mais complicado. A situação será confusa até para Letta, porque ninguém sabe quem será o candidato do Partido Democrático. Não deve ser ele, mas Matteo Renzi (prefeito de Florença e um dos líderes do PD).

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