Berlusconi, o ´telepopulista´, adora se fazer de vítima

Com a campanha eleitoral italiana próxima do fim, uma das principais estratégias do atual primeiro-ministro e candidato a reeleição, Silvio Berlusconi, tornou-se mais clara. A julgar por suas últimas declarações, o líder da coalizão de centro-direita está empenhado em se apresentar para a população como vítima de uma perseguição por parte de jornalistas e outros setores da sociedade. A análise é do professor de sociologia da comunicação da Universidade de Perugia, na Itália, Paolo Mancini. Para ele, junto com os ataques à esquerda e a insistência na discussão da questão fiscal, Berlusconi, o maior empresário do setor de comunicações do país, tenta "ganhar posições passando-se por vítima da mídia". Dono de três das quatro maiores redes de TV aberta da Itália e exercendo controle indireto sobre emissoras públicas, esse empenho passaria por piada não fosse um detalhe. Em certa medida, ainda de acordo com Mancini, Berlusconi tem razão. Isso porque grande parte da imprensa italiana apóia abertamente a candidatura do líder da oposição, Romano Prodi. "É tradição entre os jornais italianos tomar posição", explica Mancini. Daniel Hallin, professor de comunicação da Universidade da Califórnia e estudioso da mídia italiana, explica a atitude de Berlusconi. "Uma característica comum deste tipo de campanha, que podemos chamar de ´telepopulismo´, é que os líderes sempre se apresentam como vítimas da mídia", diz Hallin. Mas, com Berlusconi, há um diferença fundamental: "O que é especialmente irônico nesse caso, é o fato de Berlusconi controlar metade das redes de TV do país", completa Hallin. Isso, no entanto, não significa que Berlusconi usufrua plenamente de seu domínio sobre os meios de comunicação. "Ele tenta usar a mídia a seu favor, mas a sociedade e as leis o impedem de fazer da maneira que gostaria", destaca Mancini. Ainda assim, com tanto poder concentrado, pode-se dizer que o líder italiano tem um forte instrumento de barganha nas mãos. "Eu não gosto de dizer se isso é bom ou ruim. Em muitas democracias do mundo, a mídia é usada como parte de um processo de negociação política e econômica. O importante é que isso deve estar claro para o eleitor", conclui Mancini.

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