Berlusconi renuncia e põe fim a uma era

A crise econômica conseguiu o que juízes, oposição e parte de um país inteiro tentaram por anos concretizar: a queda de Silvio Berlusconi, o homem que mais permaneceu no poder na Itália desde Benito Mussolini. Ontem, o Parlamento italiano aprovou o pacote de austeridade exigido pela União Europeia (UE) e abriu as portas para o fim de 17 anos da "era Berlusconi".

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2011 | 03h01

A queda abre esperança de que a crise que assola a Itália comece a ser contida de fato, uma condição para a sobrevivência do euro. Um novo governo será anunciado hoje e deve ser liderado por Mario Monti, reitor da Universidade de Bocconi, em Milão, que assumirá o país com uma árdua tarefa: implementar a maior reforma feita nos últimos 50 anos para tirar a Itália do caos e acalmar os mercados.

O anúncio levou na noite de ontem milhares de pessoas às ruas de Roma. Cantavam e levavam cartazes que diziam "Palhaço". Ao chegar ao palácio presidencial para entregar sua renúncia, Berlusconi foi atacado por moedas jogadas pela população.

Se a festa ontem era de parte dos italianos, foi o risco que toda a Europa corria que derrubou Berlusconi, que ocupou a chefia do governo em três ocasiões.

A UE teme que, se a Itália for engolida pela crise e não tiver acesso a créditos, não haverá fundos suficientes para socorrê-la, como ocorreu nos casos de Grécia, Portugal e Irlanda. A quebra da terceira maior economia da UE ameaçaria, portanto, a estabilidade do bloco.

Diante do cenário catastrófico, Berlusconi anunciou na semana passada que renunciaria. Mas antes aprovaria o orçamento para 2012 e convocaria eleições antecipadas. O mercado e a UE rejeitaram o plano e a queda foi acelerada. Na sexta-feira, o Senado aprovou um pacote que prevê cortes de 60 bilhões no orçamento italiano. A estratégia funcionou: os mercados se acalmaram e o risco país retrocedeu depois de atingir o nível da Grécia quando a UE teve de interceder para evitar uma quebra.

Após passar no Senado, o pacote foi aprovado ontem na Câmara de Deputados. Entre outras medidas, prevê venda de ativos do Estado (calculados em US$ 21 bilhões), aumento da idade mínima de aposentadorias para 67 anos em 2026, congelamento de salários e reforma da administração pública.

Mudança de comando. A nova administração deve assumir já com uma previsão de quanto tempo ficará no poder. Originalmente, as eleições estão programadas para ocorrerem em 2013.

Ontem mesmo, Monti se reuniu com o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, para desenhar uma estratégia para tirar a Itália da crise. Ele também recebeu o apoio da diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, que apelou para que o governo de transição mande um "sinal claro de credibilidade".

O presidente italiano, Giorgio Napolitano, começa hoje consultas com líderes políticos para a formação do novo governo. Mas Monti terá dias difíceis pela frente. Alguns deputados da oposição têm restrições à sua indicação.

Berlusconi passou o dia de ontem negociando a saída. "Posso aceitar tudo. Mas não ser humilhado", disse ele. Odiado ou amado, Berlusconi despertava diferentes reações na Itália. Mas ninguém ficava indiferente a ele. Nos últimos dias, descobriu que seu carisma e habilidade política já não eram suficientes para convencer o mercado nem os parceiros europeus de que tinha como reconduzir o país à estabilidade.

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