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Sanders desiste da disputa e Biden será o candidato democrata contra Trump

Senador estava perdendo força à medida que o ex-vice-presidente ganhava apoios no partido

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 12h46
Atualizado 08 de abril de 2020 | 18h07

O senador Bernie Sanders anunciou nesta quarta-feira, 8, que desistiu da corrida presidencial dos Estados Unidos, abrindo o caminho para o ex-vice-presidente Joe Biden disputar a e eleição de novembro contra Donald Trump. Com cerca de 300 delegados a menos do que Biden, o senador por Vermont anunciou que sua campanha não terminaria bem sucedida e, em um momento de crise como o atual, não viu sentido em continuar.

Foram dois meses de uma disputa interna da qual Biden despontou com resultados frustrantes, mas sai agora como vitorioso graças à ajuda da ala tradicional do Partido Democrata. Sanders perdeu fôlego semana após semana desde que o establishment da legenda se uniu em torno de Biden para garantir a vitória do ex-vice-presidente na Super Terça, em 3 de março. De lá para cá, Sanders saiu derrotado em 8 das 11 prévias realizadas. A desistência marca a vitória dos centristas do partido sobre os progressistas.

Em pronunciamento transmitido online, Sanders anunciou a desistência e disse que Biden é "um homem decente" com quem irá trabalhar. O movimento é diferente do adotado pelo senador quando disputou a nomeação democrata em 2016 e foi criticado por integrantes do partido por estender a disputa interna contra Hillary Clinton.

"Eu não posso, em boa consciência, continuar a montar uma campanha que não poderá vencer e iria interferir no importante trabalho que todos temos nesta hora difícil", disse Sanders. "Unidos, vamos derrotar Donald Trump, o presidente mais perigoso da história moderna americana", disse. 

No discurso de desistência, Sanders repetiu parte dos seus mantras de campanha, como o acesso a saúde pública como direito humano. Taxado de radical nos últimos meses por adversários, Bernie Sanders viu parte de suas ideias de acesso a saúde e educação públicas defendidos, em maior ou menor grau, por outros candidatos do partido durante a campanha deste ano. 

Sanders afirmou que vai continuar com seu nome nas cédulas de votação. A medida, disse ele, é para obter mais delegados e dar ao seu movimento poder de influência na plataforma política do partido.

Trump vinha demonstrando que preferiria concorrer contra Sanders, com quem poderia manter seu discurso de polarização política. Sanders se autodenomina um "socialista democrático" e tem ideias no campo progressista, o que faz com que Trump seguisse no discurso de enfrentamento contra políticos de esquerda que deu força a ele em 2016.  

Um sinal da preocupação de Trump com a nomeação de Biden é o pedido do presidente para que a Ucrânia investigasse negócios do filho do democrata, Hunter Biden, como tentativa de prejudicar o adversário. O fato fez Trump enfrentar no Congresso um pedido de impeachment, aprovado na Câmara e rejeitado no Senado. 

A ala tradicional do partido democrata acendeu sinais de alerta em fevereiro quando Bernie Sanders mostrou sua força nas três primeiras prévias, em Iowa, New Hampshire e Nevada. Sanders, um senador independente, não filiado ao Partido Democrata, era o nome mais à esquerda dentro do cenário ainda embaralhado de candidatos. 

Quando Biden mostrou que conseguira formar uma coalizão maior entre o eleitorado do que os demais centristas, impulsionado pelo voto dos americanos negros da Carolina do Sul, a máquina partidária agiu. Alguns superdelegados deram sinais de que poderiam entrar em cena na convenção de julho para nomear Biden, ainda que Sanders viesse a ter a maior parte dos eleitores consigo. Dois dos candidatos moderados com mais votos - Pete Buttegieg e Amy Klobuchar - fizeram um movimento coordenado de endosso à Biden, que o levou à vitória na Super Terça. 

A partir daí, Biden ganhou de Sanders não apenas em mais regiões, como em Estados-pêndulo cruciais para a ambição democrata de derrotar Trump em novembro, como Michigan, Carolina do Norte e Flórida, além de sair vencedor no Texas.

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As pesquisas nacionais mais recentes mostram Biden com ao menos 5 pontos de vantagem sobre Trump, na preferência do eleitorado. Como o voto nos EUA é indireto, entretanto, o democrata pode sair vencedor no voto popular e ainda assim perder a eleição, como aconteceu com Hillary em 2016.

O importante é conseguir o maior número de delegados no Colégio Eleitoral que define o presidente e, para isso, há alguns Estados-chave. Nestes locais, Biden e Trump competem por cada voto. Em Michigan, por exemplo, os dois aparecem empatados. Na Pensilvânia, Trump sai ligeiramente na frente, mas fica dois pontos atrás de Biden na Carolina do Norte. 

Para o professor da Universidade George Washington e presidente do instituto de pesquisa Idea Big Data, Maurício Moura, ainda não está claro o quanto a desistência de Sanders irá fortalecer a campanha de Biden contra Trump. Primeiro, diz ele, porque há incerteza sobre como será a campanha eleitoral durante a crise do coronavírus. "Ninguém sabe como vai ser a campanha diante da crise do coronavírus. Todas as campanhas já fizeram um movimento fortíssimo para trabalhar 100% digital, republicanos e democratas estão focados em desenvolver métodos para que os eleitores votem antes", afirma.

Além disso, o eleitor de Sanders, de perfil mais jovem e progressista, não costuma ser o mesmo que vota em Biden, um candidato da ala centrista do Partido Democrata.

"Depende de um movimento dos eleitores do Sanders para votar no Biden, o que ainda é muito incerto, não há muitos dados sobre isso. Pelo menos dois terços dos apoiadores do Sanders precisam comparecer e votar pelo Biden. Essa equação é fundamental para os democratas", afirma Moura.

Eleitora em dúvida

No fim de fevereiro, Lilly Alegria, moradora da região de Grand Rapids, no leste de Michigan, um Estado-pêndulo que deu a vitória a Trump por pouco mais de 10 mil votos em 2016 disse ao Estado que votaria em Bernie Sanders. A política e discurso de Trump contra imigração faz com que a americana, que tem pais que vieram da Guatemala, seja categórica ao dizer que o presidente não terá seu voto. 

Nesta quarta-feira, ao saber que Sanders estava desistindo da candidatura, a americana disse ter ficado triste. "Ele tem muitas políticas que beneficiaram os latino americanos", afirma. "Eu votei por Bernie. Não diria que não vou votar em ninguém, porque sei que todo voto importa, mas acho que terei de pensar, saber mais sobre os pontos positivos e negativos de Biden. Ainda não sei", disse Lilly nesta quarta-feira.

Há pelo menos um mês as campanhas eleitorais deixaram de fazer comício e de usar um dos expedientes típicos da campanha americana: contar com voluntários que possam bater de porta em porta e convencer eleitores a votar. O fato de as pessoas estarem fechadas em casa na maior parte do país em razão do coronavírus faz com que Trump, que tem exposição diária na televisão para divulgar as medidas de combate à crise, saia com vantagem.

O problema da falta de protagonismo dos candidatos democratas até agora fez crescer as especulações de que o governador de Nova York, Andrew Cuomo, poderia concorrer à presidência. O Estado comandado por Cuomo concentra quase metade dos casos de coronavírus no EUA e o governador tem feito coletivas de imprensa em tom sóbrio para tratar da crise, se mostrando uma figura de oposição a Trump. 

Por ser governador de um Estado importante como NY, Cuomo é o único que tem exposição próxima à de Trump desde que a pandemia atingiu os EUA mais fortemente e tornou o país o novo epicentro mundial de propagação do vírus. Cuomo nega a ambição de concorrer à presidência. 

"Nesta crise, Trump é muito mais protagonista que o Biden. Biden já não era uma figura extremamente carismática, ainda mais tendo de fazer campanha virtual, em casa. Trump tem vantagem em termos de exposição incomparável", afirma Maurício Moura. 

A taxa de aprovação de Trump subiu na semana em que o presidente começou a tomar medidas mais duras para conter o avanço do coronavírus, depois de ter passado meses minimizando a pandemia.

Trump, que vinha fazendo comícios semanais desde o início do ano, usa as coletivas diárias na Casa Branca sobre o coronavírus para defender sua plataforma política. São frequentes as vezes em que o presidente defende pilares do seu programa eleitoral não relacionados ao combate ao vírus - como a construção de um muro na fronteira com o México para conter imigração ilegal - durante as explicações sobre o enfrentamento da pandemia. As entrevistas coletivas de Trump têm durado cerca de 2 horas diárias, inclusive aos finais de semana. 

 

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