Bersani dá ultimato por coalizão e Itália se aproxima de novas eleições

Líder da coalizão mais votada nas eleições parlamentares da Itália há uma semana, o social-democrata Pier Luigi Bersani deu um ultimato a seus opositores: ou colaboram para um governo, ou o país terá de retornar às urnas.

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / ROMA, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2013 | 02h03

A ameaça foi dirigida ao comediante Beppe Grillo, líder do movimento antissistema 5 Estrelas (M5S), que até aqui se recusa a uma aliança por reformas políticas e econômicas no Parlamento e ontem voltou a afirmar que não dará voto de confiança a Bersani. Sem acordo, Roma pode ter um novo governo de Mario Monti.

O ultimato veio a público durante uma entrevista concedida à rede de TV RAI 3 no final da noite de domingo. Bersani exortou Grillo a demonstrar "responsabilidade", colaborando com um voto de confiança para que ele possa formar um gabinete a partir do dia 15, tornando-se o novo primeiro-ministro. "Eu disse a Grillo: decida o que você quer ou vamos todos para casa", afirmou Bersani, referindo-se a dissolver o Congresso recém-eleito, mas ainda não empossado. "Há um movimento que teve um terço dos votos do Parlamento e deve decidir o que fazer."

Bersani é líder do Partido Democrático (PD), que obteve o maior número de votos nas eleições, mas conquistou apenas a maioria na Câmara dos Deputados, e não no Senado. Ainda assim, o social-democrata confirmou que pretende montar um governo de minoria. "Nós temos 460 deputados, o dobro da direita e três vezes mais do que Grillo. Logo, a primeira palavra nos cabe", argumentou, sem no entanto cantar vitória. "Nós também perdemos, porque conseguimos um resultado inferior às expectativas."

Nas eleições parlamentares dos dias 24 e 25, a Itália dividiu-se entre Bersani, PD, Silvio Berlusconi, do Povo da Liberdade (PDL, centro direita), e Grillo, do M5S, partidos que foram separados por menos de 10% dos votos.

Caso Grillo refute de fato a ameaça de Bersani, a Itália tende a mergulhar em meses de total paralisia democrática. Isso porque novas eleições teriam de ser convocadas, mas só depois da eleição do novo presidente da república, que substituirá em abril o atual chefe de Estado, Giorgio Napolitano. Até lá, uma das hipóteses seria a manutenção do atual premiê, o tecnocrata Mario Monti, em um governo enfraquecido e incapaz de promover reformas para reverter a crise econômica que abala o país.

Quem confirmou essa hipótese ontem foi o recém-eleito presidente da bancada do M5S no Senado, Crimi Vito, que ontem concedeu a primeira entrevista coletiva à imprensa italiana, até então boicotada. Horas depois de Grillo reafirmar sua indisposição de apoiar o voto de confiança de que Bersani precisa para governar, o senador demonstrou não acreditar que o governo do líder PD realmente saia do papel. "Nós avaliaremos toda proposta alternativa ao governo dos partidos", disse, referindo-se ao PD e ao PDL. "Cabe a Napolitano identificar um governo."

Preocupado com o impasse, Napolitano havia aumentado a incerteza política que paira sobre a Itália ao enviar uma mensagem a Bersani e Grillo no sábado à noite. O presidente insinuara a intenção de recusar um eventual governo de minoria parlamentar na Itália, como o proposto pelo social-democrata, preferindo que um premiê tecnocrata administre o país até novas eleições. Ainda assim, o presidente disse esperar que os três partidos cheguem a um entendimento. "Eu recomendaria a qualquer entidade política o realismo e o sentimento de responsabilidade nestes dias dedicados a reflexões", afirmou Napolitano.

Ouvido pela agência Reuters, o vice-presidente do instituto de pesquisas SWG, Maurizio Pessato, disse que o M5S não tem interesse de conceder o voto de confiança a Bersani. "É do interesse de Grillo que os italianos retornem o mais rápido possível às seções eleitorais", afirmou. Isso porque, na atual configuração da Câmara dos Deputados e do Senado, o líder do movimento "antissistema" não conseguiria chegar ao poder. "Para ele, é impossível se aliar à velha guarda."

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