Beslan encontra Columbine

A palavra mais associada a "checheno" é "terrorista" em razão dos ataques ao Teatro Dubrovka em Moscou em 2002, contra crianças em Beslan, em 2004, e, agora, contra a Maratona de Boston. Mas a palavra mais precisa para a associação com "checheno" deveria ser "refugiado". Possivelmente 20%, ou mais, de todos os chechenos partiram da Chechênia nos últimos 20 anos.

Oliver Bullough, New York Times

23 de abril de 2013 | 02h01

Dzhokhar Tsarnaev, suspeito do atentado de Boston, nasceu numa família chechena. Era apenas um bebê quando Boris Yeltsin enviou tanques para subjugar sua nação sublevada. Por enquanto, sabemos pouco sobre as motivações dos suspeitos de Boston. Não está claro quanto tempo ele e o irmão passaram na Chechênia, ao passo que viveram anos nos EUA. Tudo que sabemos é que, para sua geração, a Chechênia sempre foi um lugar de violência, sequestros, viúvas, órfãos e estupros: um lugar do qual se quer fugir.

A guerra pelo controle desse pedacinho de território no sul da Rússia dura, quase sem interrupção, de 1994 aos dias de hoje. Custou muitos milhares de vidas. Grozny, no início dos anos 2000, era uma terra devastada de aço retorcido, pedaços espalhados de concreto e asfalto esburacado.

Os chechenos me mostraram cartões-postais da cidade antes de a artilharia russa ter feito seu trabalho, com suas casas bonitas e passeios agradáveis ao longo do Rio Sunzha. Mas creio que até eles já haviam deixado de acreditar que os cartões mostravam a mesma cidade. Não surpreende que tantos fugiram.

Em 2008, passei um mês viajando pela diáspora chechena na Europa, tentando compreender como as pessoas haviam sido afetadas pelo que tinham vivido. Conheci Birlant e seu marido, Musa, na cidade de Terespol, o ponto de entrada dos chechenos que buscavam asilo na Polônia. O pai e o irmão de Birlant tinham sido mortos a tiros na sua frente. Agora ela vivia num albergue numa floresta de pinheiros, com outras 48 famílias chechenas, e odiava o local; eles queriam ir para a Áustria. "Se eles não conseguem tratar gente como gente, por que não nos deixam ir para um país que trate?", perguntou Musa.

Foi um sentimento que ouvi com frequência. Onde quer que estivessem, eles sempre queriam ir para outro lugar, fazer outra coisa, ser outra pessoa. Musa me telefonou durante anos após aquele breve encontro, de Helsinque, de Estocolmo, de Oslo, sem nunca parecer mais feliz.

Umar Israilov, em Viena, era diferente. Ele estava aprendendo alemão, procurando emprego. Havia encontrado um advogado para buscar reparação, no Tribunal de Justiça da União Europeia, pelos abusos que havia sofrido. Ele me deu esperanças. Umar pode ter sido torturado. Pode ser pobre e discriminado. Mas ali estava um refugiado checheno que falava do futuro com esperança.

Ele foi morto a tiros menos de um ano depois, em janeiro de 2009. Um júri austríaco aceitou o argumento dos promotores de que aliados do Kremlin na Chechênia tinham se aborrecido com o que ele andava falando e mandaram assassinos atrás dele.

Há injustiça por todos os lados para refugiados chechenos. Eles perderam seus lares numa guerra que não começaram, terminaram em países para onde não queriam ir e enfrentaram retaliações quando esperneavam.

Não surpreende que a internet esteja cheia de fóruns onde eles discutem suas mazelas; as mazelas de seus compatriotas em casa; as mazelas dos irmãos muçulmanos no Afeganistão, Síria ou Iraque.

Não sabemos o que precipitou a ação de Dzhokhar Tsarnaev, que foi capturado após um cerco policial num subúrbio de Boston na quinta-feira à noite, e seu irmão, Tamerlan, de 26 anos, morto depois de uma perseguição policial na noite anterior. Entre as motivações talvez estivesse um apelo de 2007 do líder militante checheno Doku Umarov.

"Hoje no Afeganistão, Iraque, Somália, territórios palestinos, nossos irmãos estão lutando", disse ele. "Nosso inimigo não é a Rússia somente, mas todos os que travam guerra contra o Islã."

Já há o suficiente nos EUA para alienar jovens capazes de matar dezenas em escolas como as de Denver ou Columbine. Há armas suficientes para matar qualquer um que se queira. Talvez o que presenciamos em Boston tenha sido um encontro de Beslan com Columbine. Esperemos que essas duas variedades tóxicas da violência moderna não se encontrem novamente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É JORNALISTA

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