Uriel Sinai/The New York Times
Uriel Sinai/The New York Times

Bibi e a parábola do populismo moderno

Premiê israelense defende da boca para fora a paz com os palestinos, não adotando nenhuma medida significativa nesse sentido

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2019 | 05h00

Seus devotos o chamam de “O Mágico”, “O Vencedor” e, mais recentemente, “Rei de Israel” (melekh yisrael). Binyamin Netanyahu é o político mais talentoso do país em uma geração. É o segundo primeiro-ministro a se manter mais tempo no cargo e, se vencer sua quinta eleição na terça-feira, baterá o recorde do pai fundador de Israel, David Ben-Gurion.

Bibi, como é conhecido, é importante não apenas em Israel. E não apenas porque fala inglês e hebraico perfeitamente, mas por se manter firme e confiante no caótico Oriente Médio de hoje. Ele é importante porque incorporou a política do nacionalismo musculoso, do chauvinismo e do ressentimento das elites bem antes de esse populismo se tornar uma força global. Netanyahu conta com amigos e aliados como Donald Trump e Narendra Modi, da Índia, além de Viktor Orbán, da Hungria, e Mateo Salvini, da Itália.

O reinado do Rei Bibi é assim uma parábola da política moderna: a ascensão de um político talentoso e bem-sucedido com base na implementação de políticas saudáveis e aumentando de modo oportunista as divisões. Quando seu poder é ameaçado, ele ataca com mais força a imprensa livre, o Judiciário e as forças paralelas. Bibi enfrenta agora sua maior ameaça, as acusações de corrupção.

Em uma época diferente, ele teria de renunciar e estaria se defendendo como um cidadão comum. Mas como pretende se manter no cargo, espera que os eleitores o salvem da polícia, dos promotores e dos juízes. A política israelense converteu-se numa disputa entre autênticas realizações e a demagogia de um lado, e o estado de direito do outro. Todos aqueles que se preocupam com a democracia deveriam prestar atenção a isso.

A pequena Israel atrai a atenção porque tem uma grande história: romance bíblico e talento tecnológico; o massacre do Holocausto e as proezas militares; uma democracia vigorosa e a longa ocupação de terras reivindicadas e habitadas pelos palestinos. 

Netanyahu é mais inteligente e capaz do que muitos populistas. Ao reduzir o tamanho de um Estado inflado, ele ajudou a economia de Israel a florescer, particularmente as startups de tecnologia. Com o uso hábil da diplomacia, e mais cautelosamente da força militar, reforçou a segurança sem descambar para guerras desastrosas. Graças a isso e à hostilidade compartilhada contra o Irã, as relações com muitos dirigentes árabes estão melhores do que nunca em Israel.

Netanyahu é também, inquietantemente, um dogmático. Ele defende apenas da boca para fora uma paz com os palestinos, não adotando nenhuma medida significativa nesse sentido. Denunciou toda cooperação ocidental com o Irã, mesmo que ela tenha servido para limitar o programa nuclear iraniano. Na visão pessimista de Bibi, Israel está cercada de lobos em pele de carneiro e lobos na pele de lobos.

Esse “anti-solucionismo” só vai armazenar problemas futuros. Aumenta o perigo de uma guerra com o Irã, ou de os radicais insistirem nas armas nucleares. Quanto mais Israel se entrincheira na Cisjordânia, mais sua ocupação militar “temporária” parece uma opressão permanente dos palestinos com base numa lei separada, até um apartheid. E tudo isso piora na ausência da influência limitadora dos EUA.

Netanyahu abraçou calorosamente Trump, que por seu lado o tem coberto de presentes, como seu recente endosso da anexação das Colinas do Golan por Israel. Poderá Trump respaldar também a anexação por Israel de partes da Cisjordânia, negando aos palestinos a esperança de um Estado? No longo prazo, o alinhamento de Bibi com os republicanos e os evangélicos americanos põe em risco o consenso bipartidário pró-Israel em Washington, que é a base da segurança do país judaico. 

Mas a ameaça maior ao reinado de Bibi é interna. Ele está no poder não apenas pela força de suas realizações, mas também tentando se beneficiar politicamente por meio de uma corrosão das normas democráticas do país. Afirmando que nenhuma paz com os palestinos é possível (ou desejável), membros de sua coalizão de direita adotam medidas para asseverar a supremacia judaica.

Netanyahu promoveu um pacto eleitoral com o antes intocável grupo Poder Judaico, de extrema direita, que deseja anexar todos os territórios ocupados e “encorajar” os árabes, incluindo aqueles com cidadania israelense, a deixar a região. Bibi tem adotado a política do nós e eles por tanto tempo que exacerbou as muitas divisões no país – entre judeus e árabes, judeus da diáspora e israelenses, judeus asquenaze e judeus Mizrahi do oriente, judeus religiosos e seculares. 

Netanyahu e seus amigos denunciam como traiçoeiro qualquer judeu que se interpõe no seu caminho: a livre imprensa dissemina fake news e os rivais políticos, até mesmo os generais que afluíram para o partido de oposição Azul e Branco, estão coniventes com os árabes. Bibi tem cortejado a teoria conspiratória muito em voga entre antissemitas de que George Soros, bilionário judeu, trama para subverter governos nacionalistas no mundo todo.

Netanyahu afirma que as acusações de corrupção contra ele são um “libelo de sangue” (um boato vil segundo o qual os judeus misturaram o sangue de crianças cristãs assassinadas no seu pão de Páscoa). Mas o delegado de polícia que investigou as acusações e o procurador-geral que ordenou seu indiciamento foram escolhidos por ele. A esquerda, desorganizada em muitos países, sofreu um golpe violento em Israel por causa de sua tentativa de negociar um acordo de paz em troca de terra com os palestinos que terminou num banho de sangue. 

Israel é um teste importante da resiliência da democracia. Os eleitores israelenses terão de fazer uma escolha transcendental: reeleger Netanyahu e recompensá-lo por subverter a independência das instituições do país, ou removê-lo do cargo na esperança de restabelecer a fé na democracia – e esperar ser “uma luz para as nações”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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