Bibi e Barack, a continuação

Líderes de Israel e dos EUA estão diante de duas oportunidades únicas: Irã e palestinos

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2013 | 02h08

Será que Binyamin "Bibi" Netanyahu e Barack Obama poderiam dividir o Prêmio Nobel da Paz de 2014? À primeira vista, a ideia parece divertida. Eles não têm nenhuma simpatia recíproca e manifestam visões de mundo radicalmente diferentes. Mas, por mais que procurem manter distância um do outro, as artimanhas da história continuam reaproximando-os, entrelaçando seus destinos. Isso deverá ocorrer especialmente nos próximos seis meses, quando serão concluídas tanto as negociações lideradas pelos EUA para neutralizar a capacidade do Irã de construir a bomba nuclear quanto as negociações por uma paz definitiva entre israelenses e palestinos.

Se os dois líderes abordarem as duas tarefas com uma visão razoavelmente semelhante (e cada um pressionar o outro nesse sentido), poderão influir de modo considerável na reformulação da situação no Oriente Médio. Então, juntamente com o secretário de Estado John Kerry merecerão o Prêmio Nobel, um Emmy, um Oscar e o Prêmio Pritzker da Arquitetura.

Comecemos pelas negociações sobre o Irã. Depois da explosão inicial contra o acordo nuclear, Netanyahu se acalmou um pouco e nomeou uma equipe para definir com os EUA os termos precisos de um acordo final com os iranianos. Contudo, espero que Bibi não se mantenha calmo demais. Embora ache que o acordo provisório seja a base correta para negociar o verdadeiro fim da capacidade do Irã de construir a bomba, as chances de alcançar esse fim crescerão se Bibi se comportar ocasionalmente como Bibi e funcionar como o nosso revólver carregado sobre a mesa de negociações.

Quando se negocia numa região implacável e obstinada como o Oriente Médio, é vital nunca permitir que qualquer um dos lados pense que poderá enlouquecer o outro. Judeus e curdos são algumas das poucas minorias que conseguiram criar para si espaços autônomos no mundo árabe-muçulmano, porque, em última instância, jamais permitiriam que seus inimigos os enlouquecessem.

Eles fizeram o que tinham de fazer para sobreviver e, às vezes, esbarraram em situações realmente difíceis, mas sobreviveram para contar a história. Quem viu de perto o que o Irã e o Hezbollah foram capazes de perpetrar - os atentados contra a embaixada americana e contra soldados dos EUA em Beirute, o assassinato do primeiro-ministro Rafik Hariri, no Líbano, o atentado nas Torres Khobar, na Arábia Saudita, e aquele contra um centro comunitário Judaico em Buenos Aires - sabe que os iranianos costumam ir até o fim. Jamais se deve negociar com o Irã sem dispor de algum trunfo e sem ter um louco ao lado. Os líderes do Irã são duros e cruéis.

Na frente palestino-israelense, ocorre o oposto. Se Kerry não tivesse obstinadamente empurrado Bibi e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, para a mesa de negociações, o líder israelense não teria ido lá sozinho. Como Stanley Fischer, o respeitado ex-presidente do Banco Central de Israel, disse num fórum na Universidade de Nova York, na terça-feira: "A estratégia que nos obriga a ser fortes, porque, se não formos fortes seremos derrotados, é absolutamente correta. No entanto, não é o único componente da estratégia nacional. O outro é a necessidade de buscar a paz - e isso não está acontecendo na medida em que deveria."

Na frente iraniana, a tarefa de Netanyahu consiste em se mostrar o mais irritante possível com Obama para garantir que as sanções só sejam retiradas totalmente em troca do fim da capacidade nuclear para fins militares, de modo que isso seja passível de verificação. Quanto à questão palestino-israelense, a tarefa de Obama consiste em ser o mais irritante possível com Netanyahu. Cada um precisa pressionar o outro para que se consigam os melhores acordos em ambas as frentes.

Este é um raro momento de flexibilidade no Oriente Médio. Não tenho a ilusão de que todos os problemas possam ser resolvidos de uma vez por todas. Mas, com um pouco de imaginação e com a combinação exata de firmeza e abertura na questão do Irã e na questão palestino-israelense, o primeiro-ministro de Israel e o presidente dos EUA poderão, com certeza, chegar a uma solução satisfatória. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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