Tara Todras Whitehill/Reuters
Tara Todras Whitehill/Reuters

Bibi ignora apelo dos EUA e diz que obras na Cisjordânia serão retomadas

Primeiro-ministro israelense declara que congelamento de expansão dos assentamentos não será renovado depois do dia 26, justifica decisão alegando que a vida dos moradores do local ''não pode ficar congelada'' e opta por não desafiar a ultradireita

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Ignorando os apelos da Casa Branca e do Departamento de Estado dos EUA, o premiê de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, declarou ontem que a medida que congela a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia não será renovada. A moratória, estabelecida há dez meses, expira dia 26 e os palestinos consideram sua manutenção fundamental para o sucesso do recém-lançado diálogo direto patrocinado pelos EUA.

"Os palestinos demandam que não haja construções depois de 26 de setembro. Mas Israel não pode manter o congelamento", disse Netanyahu, admitindo o reinício das obras em duas semanas. De acordo com a organização pacifista israelense Peace Now, a construção de mais de 2.000 casas serão iniciadas assim que o congelamento for encerrado.

O primeiro-ministro acrescentou que os israelenses "não construirão todas as residências já aprovadas (pelo organismo que regulamenta construções de Israel), mas também não podemos congelar a vida dos residentes de Judeia e Samaria (nomes bíblicos pelos quais os judeus se referem à Cisjordânia)".

Caso mantivesse o congelamento, integrantes mais conservadores de sua coalizão ameaçavam deixar o governo, provocando um colapso da administração do atual premiê.

A Casa Branca e o Departamento de Estado não comentaram imediatamente as declarações de Netanyahu. Na sexta-feira, durante entrevista coletiva em Washington, o presidente americano, Barack Obama, havia afirmado que "o bom senso indica que Israel deve manter o congelamento" - apesar de deixar claro que entende as dificuldades do premiê para convencer sua coalizão a renovar a moratória.

Analistas destacam a delicadeza da situação de Netanyahu, que precisa se equilibrar entre o processo de paz - bancado por seu principal aliado e patrocinador no exterior - e a agenda política doméstica israelense.

"O governo apenas se mantém estável porque resiste à pressão americana sobre o processo de paz. Netanyahu não é ingênuo. Ele sabe o ocorreu com seu governo (1996-1999) e todos os outros desde 1990 - foram derrubados pela direita. Desta vez, ele decidiu proteger esta sua base direitista. Isso acaba indo contra os passos necessários para atender às mínimas exigências dos palestinos com o objetivo de chegar a um acordo", disse em análise Steven Cook, analista de Oriente Médio do Council on Foreign Relations, em Nova York.

A paralisação na expansão dos assentamentos tinha sido determinada por Netanyahu como forma de restabelecer a confiança dos palestinos. No início deste mês, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, reuniu-se com o premiê israelense nos EUA depois de 20 meses sem diálogo direto. Os dois líderes devem encontrar-se novamente no dia 22, em Sharm el-Sheikh, no Egito.

Abbas tem declarado nas últimas semanas que a retomada das construções nos assentamentos significaria o fim das negociações.

O presidente palestino ão se manifestou sobre a decisão de Netanyahu. A resposta palestina foi dada por Saeb Erekat, chefe dos negociadores. "Espero que o governo israelense, tendo que escolher entre a paz e os assentamentos, escolha a paz. Não dá para ter os dois", disse.

PONTOS DE ATRITO

Assentamentos - Congelamento de construções israelenses na Cisjordânia

Refugiados - Direito de retorno dos palestinos que deixaram a região em 1948

Jerusalém Oriental - Devolução da zona ocupada em 1967, que os palestinos querem como capital do futuro Estado

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