Bibi reduz papel de chanceler israelense

Lieberman, que chega ao Brasil na terça-feira, perde espaço no governo

Daniela Kresch, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2009 | 00h00

Desde que o ultranacionalista Avigdor Lieberman tomou posse como chefe da diplomacia israelense, há três meses, Israel parece ter muitos ministros das Relações Exteriores. O líder do partido de extrema direita Israel Beiteinu (Israel Nossa Casa), que desembarca depois de amanhã no Brasil para uma visita de dois dias (seguindo depois para Argentina e Colômbia), parece estar trabalhando meio expediente. Mas não por preguiça. A multiplicação de chanceleres tem outro motivo: alguns líderes mundiais e diplomatas preferem se encontrar com outros representantes israelenses porque consideram as ideias de Lieberman racistas ou até fascistas. Segundo recentes pesquisas de opinião, Lieberman é rejeitado por 60% dos israelenses por causa de seu discurso antiárabe e por sugerir leis como a que suspende a cidadania de quem não jurar lealdade à bandeira israelense. O chanceler também defende a "transferência" de cidades árabes-israelenses para o futuro Estado palestino em troca da anexação, por Israel, de colônias judaicas na Cisjordânia. Oficialmente, ninguém confirma o esvaziamento do papel de Lieberman, mas o fato é que o primeiro-ministro, Binyamin Bibi Netanyahu, do partido de direita Likud, considerado menos extremista do que o Israel Beiteinu, tem enviado para as principais missões diplomáticas nomes mais populares no exterior, como o presidente Shimon Peres, o ministro da Defesa, Ehud Barak, e o vice-premiê, Silvam Shalom. É Peres quem tem levado adiante o delicado relacionamento entre Israel e o mundo islâmico. Em geral, o cargo de presidente em Israel é quase decorativo, mas o veterano político de 86 anos, ganhador do Nobel da Paz, está trabalhando duro. Há dez dias, ele foi ao Cairo para discutir com o presidente egípcio, Hosni Mubarak, a retomada do diálogo de paz com os palestinos. Mesmo se quisesse, Lieberman não seria recebido por Mubarak. Isso porque, em novembro de 2008, ele mandou o presidente egípcio "ao inferno" em um discurso na Knesset (o Parlamento israelense). Desde então, é persona non grata não só no Egito como na Jordânia. Lieberman também foi substituído por Peres na primeira e histórica visita, há um mês, de um representante de Israel ao Casaquistão e ao Usbequistão, dois países muçulmanos.DIÁLOGOO chanceler de Israel também não é bem visto pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Para o líder palestino, Lieberman é um "obstáculo para a paz". Além disso, o chanceler israelense insinua que Abbas não tem autoridade para negociar porque representa apenas metade dos palestinos - os da Cisjordânia. A Faixa de Gaza é controlada pelo grupo radical Hamas.O desprezo mútuo entre Abbas e Lieberman fez com que Netanyahu designasse seu vice-premiê, Silvan Shalom, para encontros com o ex-primeiro ministro Britânico Tony Blair, atual enviado ao Oriente Médio do Quarteto (grupo formado por EUA, União Europeia, Rússia e ONU). Mesmo quando se trata do maior aliado de Israel no planeta, os EUA, Lieberman está sendo deixado de lado. É o ministro da Defesa Ehud Barak quem tem lidado com a pressão da Casa Branca pelo congelamento na construção de assentamentos judaicos na Cisjordânia - ponto fundamental nas negociações com os palestinos. Lieberman diz ter se afastado voluntariamente porque ele mesmo mora em um assentamento, o de Nokdim, perto de Jerusalém. Seria, segundo ele, um "conflito de interesses". Mas Barak, ex-premiê de Israel, foi designado para conversar com Washington depois de um desastroso encontro entre Lieberman e a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, há dois meses. A entrevista coletiva após o encontro foi tensa. Tudo o que Hillary dizia, Lieberman contradizia, principalmente na questão de "dois Estados para dois povos" - a criação de um Estado palestino ao lado de Israel. Hillary teria ficado "ofendida" com algumas das observações do colega. Assim que terminou a coletiva, ela caiu e quebrou o cotovelo. Não demorou para que os diplomatas afirmassem, em tom de brincadeira, que Lieberman a empurrou escada abaixo. Na mesma viagem à capital americana, o chanceler israelense não foi recebido pelo presidente Barack Obama. A péssima imagem de Lieberman nos EUA também levou Netanyahu a decidir representar, ele mesmo, Israel na próxima Assembleia Geral da ONU, em setembro. Há três anos, o país era representado pela então chanceler Tzipi Livni, do partido de centro Kadima, hoje líder da oposição.A volta de Livni, aliás, foi um pedido pessoal a Netanyahu do presidente da França, Nicolas Sarkozy. Em conversa por telefone com o premiê israelense, o francês disse que ele deveria "se livrar" de Lieberman e substitui-lo por Livni. Ao contrário do que se esperava, Lieberman reagiu com sutileza, alegando que a afirmação foi só um "lapso verbal" de Sarkozy.VIAGEMPara muitos, Netanyahu está contando os dias para que seu chanceler tenha de deixar o cargo. Isso porque ele está sendo investigado por fraude e lavagem de dinheiro. "Bibi pode estar esperando o indiciamento de Lieberman. Assim, ele deixaria a chancelaria, mas seu partido não sairia da coalizão, o que não derrubaria o governo", disse Emanuel Adler, do Centro de Estudos Israelenses da Universidade de Toronto, no Canadá. O Israel Beiteinu é a terceira maior bancada no Knesset, com 15 das 120 cadeiras.Enquanto isso, Lieberman tem se dedicado a viagens menos polêmicas, como a visita que fará ao Brasil. É o que acredita Efraim Davidi, da Universidade de Tel-Aviv, especialista nas relações entre Israel e America Latina."A América do Sul é longe o suficiente do Oriente Médio para que uma visita de Lieberman tenha alguma consequência regional", disse Davidi. "Mas não quer dizer que Israel não encare com seriedade o Brasil e os outros países. Israel quer aumentar o relacionamento com a América Latina, principalmente para barrar a influência do Irã na região."O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Andy David, disse ao Estado que a viagem já estava sendo cogitada desde novembro, muito antes antes da posse de Lieberman. "Vemos Brasil, Argentina e Colômbia como países muito importantes", afirmou David. "O Brasil se destaca como uma potência em ascensão no mundo. Justamente por isso estamos reabrindo o consulado em São Paulo, fechado há cinco anos", disse o porta-voz.

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