Menahem Kahana / AFP
Menahem Kahana / AFP

Bibi reedita plano para concentrar obras nos 3 maiores assentamentos

Para evitar o colapso das negociações de paz e uma revolta de sua base aliada, o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, desengavetou uma proposta de seu antecessor, Ehud Olmert, para permitir construções nos três principais assentamentos na Cisjordânia - cuja anexação ao território israelense o governo considera certa. A informação foi revelada ontem pelo jornal israelense Haaretz.

Gustavo Chacra CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

O anúncio seria feito hoje em Sharm el-Sheikh (Egito), no segundo encontro entre o líder israelense e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Os dois já se reuniram nos EUA, há duas semanas, para iniciar o chamado "diálogo direto".

Os palestinos ameaçam deixar a mesa de negociação caso Israel não concorde em prorrogar o congelamento total na expansão de assentamentos. Em dezembro, Bibi declarou uma moratória de dez meses nas construções israelenses na Cisjordânia - gelo que oficialmente expira no dia 26.

Temendo um agravamento da crise, o Departamento de Estados dos EUA, que serve de mediadores das conversas de paz, decidiu cancelar eventos ligados à imprensa depois do encontro de hoje. Netanyahu, Abbas e a secretária de Estado, Hillary Clinton, devem apenas posar para fotos.

Após a reunião no Egito, Hillary embarca para Jerusalém para voltar a se reunir com Netanyahu e outras autoridades israelenses, amanhã. No dia seguinte, a secretária de Estado tem encontro com Abbas e o premiê palestino, Salam Fayyad, em Ramallah.

A viagem de Hillary a Israel e Cisjordânia depois da cúpula no Egito busca convencer os dois lados a permanecer nas negociações, mesmo se nenhum compromisso real for alcançado no diálogo de hoje.

O governo americano tentou ao longo do fim de semana pressionar Israel a manter o congelamento na construção de novas unidades residenciais nos assentamentos. A moratória é uma exigência dos palestinos, que reivindicam o território como parte de seu futuro Estado.

Netanyahu, porém, enfrenta internamente uma força no sentido oposto, para a permissão na retomada nas construções. Caso o premiê mantenha o congelamento, integrantes de sua coalizão ameaçam deixar o governo, o que pode provocar o fim da atual administração israelense.

Ariel. A saída do primeiro-ministro foi permitir novas construções apenas nos maiores assentamentos, como Maale Adumim, Gush Etzion e Ariel, que são praticamente cidades, mas manter a paralisação nos menores. Israel afirma que estas colônias maiores permaneceriam sendo territórios israelenses em qualquer acordo de paz. Em troca, os palestinos receberiam terras em áreas não habitadas.

O principal problema está em Ariel. Esse assentamento, diferentemente dos outros dois, não está perto da fronteira entre Israel e a Cisjordânia. Com uma população de quase 20 mil colonos, fica 20 quilômetros território palestino adentro. Na avaliação de analistas, se Israel mantiver Ariel, o futuro Estado palestino precisará ser praticamente cortado ao meio.

Palestinos até agora rejeitam a ideia de Israel manter pedaços de território na Cisjordânia.

Os israelenses também exigem que os palestinos façam concessões importantes. Netanyahu demanda o reconhecimento de Israel como Estado judaico - a Autoridade Palestina concorda apenas em reconhecer o Estado israelense, mas não aceita falar em religião.

Analistas como o professor de Harvard Alan Dershowitz, um dos maiores defensores de Israel nos EUA, dizem que poderiam haver gestos como o rei Abdullah, da Arábia Saudita, convidar Netanyahu para ir a Riad. O colunista Thomas Friedman, do New York Times, escreveu artigo na mesma linha.

A Liga Árabe propõe estabelecimento de relações com Israel caso haja retirada dos territórios ocupados em 1967 - Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental e Colinas do Golã.

PARA ENTENDER

A colonização da Cisjordânia foi inicialmente incentivada por militares israelenses pouco após o território ser ocupado na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Eles acreditavam que a povoação judaica, sobretudo do Vale do Jordão, reduziria as ameaças ao território israelense. Pouco a pouco, porém, religiosos viram nos assentamentos um instrumento para assegurar o controle judaico sobre a "Judeia e Samaria", realizando o sonho da Grande Israel. Hoje, de acordo com a organização Paz Agora, de Israel, apenas um terço dos colonos estão no território palestino por "ideologia". Os demais teriam escolhido viver nos assentamentos pelos atrativos incentivos fiscais e práticos oferecidos pelo governo.

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