BID quer rediscutir reformas inspiradas no Consenso de Washington

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que abre a assembléia-geral neste domingo em Fortaleza, decidiu incluir o polêmico tema do Consenso de Washington na pauta de debates, que se estende até o dia 13 de março. O impacto das reformas econômicas inspiradas por essa fórmula, duramente criticada por economistas como o Nobel de Economia Joseph Stiglitz, devido às limitações e generalização, parece ter chegado a um ponto crítico na região, provocando ainda mais dúvidas e maior ceticismo.O BID quer saber se vale a pena retificar ou até mesmo emendar as idéias do Consenso, dado os erros cometidos na concepção de políticas econômicas que, nos últimos anos, levaram a América Latina a uma situação de alto risco de ruptura democrática. A situação argentina, a luta pelo poder na Venezuela e o problema da guerrilha na Colômbia são um claro exemplo desse perigo.Combinação explosivaPara o diretor-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), embaixador Rubens Ricupero, a Argentina e a Venezuela enfrentam hoje um dramático processo de desintegração social e política, com consequências sérias. "As instituições ficaram totalmente desmoralizadas, a descrença está levando as pessoas às ruas e essa combinação é explosiva", alertou Ricupero, em entrevista concedida à Agência Estado, por telefone, de Genebra.Quando os sistema político de um país é rejeitado pelo povo, acrescentou o embaixador, o resultado é uma situação de paralisia e, embora não tenha se chegado a esse extremo, o momento é de perigo. Por isso, o BID, a maior e mais importante fonte de financiamento de políticas sociais da região, quer discutir os efeitos da globalização e descobrir se esse processo transformou-se em uma rua sem saída, da qual é necessário escapar de alguma forma.O banco quer saber também se as privatizações na região fracassaram e se os governos deveriam adotar uma posição política mais ativa para melhorar a situação social dos povos latino-americanos.DesaceleraçãoEconomistas, especialistas e gestores de políticas econômicas em vários países tentam entender a clara desaceleração que o crescimento da região vem experimentando nos últimos anos. Os mais pessimistas avisam que os países latino-americanos não devem se expandir mais do que 2% este ano, isso se for excluída a Argentina. Caso contrário, o resultado será um dos piores dos últimos dois anos. No ano passado, por exemplo, a economia latino-americana cresceu apenas 0,5%, significativamente abaixo da expansão de 4,1% registrada em 2000.As diferenças entre ricos e pobres no continente são cada vez maiores e apenas uma parcela infinitamente minoritária da população foi beneficiada pelo crescimento econômico dos últimos dez anos. De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), a América Latina apresenta hoje a distribuição de riqueza mais desigual do planeta. Dados da Cepal mostram que 20% dos mais pobres recebem apenas 4% da riqueza nacional.IndigentesNos últimos 20 anos (entre 1980 e 2000), o número indigentes - pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza - aumentou de 62,4 milhões para 89,4 milhões. Em números relativos, a proporção praticamente se manteve - passou de 18,6% para 18,5%. Já o número de pobres passou de 135,9 milhões (40,5%) para 211,4 milhões (43,8%).Vale lembrar que pobreza extrema em momentos de fragilização democrática alimenta o surgimento do populismo. E esses são os casos da Venezuela e Argentina, países com elementos considerados perigosos que podem propiciar o rompimento do processo democrático.No início da década de 90, por exemplo, dizia-se que a América Latina havia alcançado um grau de desenvolvimento democrático e econômico que lhe permitiria tomar o rumo do crescimento sustentável. Os planos de estabilização ao final da década de 80 conseguiram certo êxito macroeconômico, mas - e hoje isso é evidente - pouca ou nenhuma conquista institucional ou estrutural foi obtida.PopulismoAnalistas estimam, por exemplo, que boa parte do futuro dos fluxos de capital para a região depende da habilidade do governo argentino para conduzir a crise na qual mergulhou o país. O temor é de que um possível fracasso do presidente Eduardo Duhalde permita que outros países da região incentivem políticos populistas a colocar a situação caótica da Argentina como exemplo do fracasso das políticas do Consenso de Washington tema, na opinião de Ricupero, já superado.Instituições como o FMI acreditam que é necessário criar um marco institucional que dê garantias jurídicas suficientes para estimular o investimento privado, local e estrangeiro. Essas regras, dizem, poderiam estar em perigo se a região ir em direção ao populismo. Embora pouco mais de duas semanas atrás tenha optado pela ortodoxia, ao liberar o regime cambial e cortar ainda mais o gasto público, gestos comemorados pelos mercados, os discursos anticapitalistas de Hugo Chávez, por exemplo, fazem temer uma eventual reestatização da economia venezuelana.Eleições no BrasilA proximidade das eleições no Brasil e na Colômbia abrem também um horizonte de incertezas sobre a continuidade ou não das políticas econômicas ortodoxas. Para analistas políticos, a América Latina está, de novo muito mal e há um grande risco de ruptura democrática e, portanto, paralisação do crescimento econômico e do necessário desenvolvimento estrutural e institucional.O risco de ruptura democrática já teve o alerta do presidente Fernando Henrique Cardoso na recente viagem ao Leste Europeu. E alguns números mostram isso. Em 2001, por exemplo, apenas 48% dos latino-americanos afirmavam que a democracia é melhor do que qualquer outra forma de governo. Esse número é bem inferior aos 61% de 1996, quando a maioria apoiava o sistema democrático. A situação é tão grave que a metade da população prefere o desenvolvimento econômico, em detrimento do sistema democrático.Há pouco dias, analistas do Banco Mundial (Bird) lançaram um alerta: "Há países na América Latina que não se permitem praticar mais a democracia." Diante disso, a pergunta que os investidores se fazem é qual dos países da região corre maior risco de ruptura democrática. A resposta parece simples: aqueles com menor apoio e maior insatisfação democrática, entre eles Argentina, El Salvador, Guatemala, Brasil, Panamá, Paraguai Equador, Nicarágua e México.Apenas citando o Brasil e o México, seria suficiente para demonstrar o grave risco de agonia da democracia latino-americana, já que 50% da população não está mais preocupada se os militares podem ou não voltar ao poder.

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