Kevin Lamarque/Reuters
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Análise: Biden acena a duas alas ao mesmo tempo em busca de 'coalizão Obama'

Ao nomear a primeira mulher negra a concorrer como vice, filha de pai jamaicano e mãe indiana, Biden busca o voto do eleitorado não branco - negros e latinos - e também dos jovens que foram às ruas em junho após a morte de George Floyd

Beatriz Bulla/Correspondente, Washington , O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 19h35

A escolha de Kamala Harris como vice na chapa presidencial coloca Joe Biden no caminho para reconstruir o que ficou conhecido nos Estados Unidos como "coalizão Obama". Para recuperar a aliança histórica que levou Barack Obama à Casa Branca, Biden precisa garantir o voto de negros, latinos e jovens sem perder o apoio de brancos moderados dos subúrbios americanos. É o que ele parece buscar com a escolha de Kamala.

Ao nomear a primeira mulher negra a concorrer como vice, filha de pai jamaicano e mãe indiana, Biden busca o voto do eleitorado não branco - negros e latinos - e também dos jovens que foram às ruas em junho após a morte de George Floyd. Em 2016, negros, mulheres e jovens não se empolgaram com a candidatura de Hillary Clinton e a abstenção desses segmentos do eleitorado, tradicionalmente democrata, foi um problema para o partido.

Mas Biden também não pode abrir mão da percepção de que é um candidato de centro e moderado, de olho em eleitores brancos e nos independentes, o que deu a Kamala ainda mais força. Ela é vista como uma senadora pragmática, centrista e disposta a flexibilizar opiniões para compor com o establishment democrata. Isso deve dificultar a tentativa de Trump de identificá-la como uma radical de esquerda -- a saída fácil para a campanha republicana, que explora a polarização. 

Kamala foi procuradora eleita por São Francisco em 2003 e depois pelo Estado da Califórnia em 2010. Em 2016, elegeu-se para o Senado. Sua trajetória era um calcanhar de aquiles entre o eleitorado progressista, que a acusa de não ter pressionado por um sistema de política criminal mais moderno e ter sido responsável por condenação de um inocente. Mas ela esteve ao lado dos manifestantes, literalmente, nos protestos de junho contra o racismo e pela reforma da polícia americana e passou a ser uma voz importante sobre o tema nas televisões. 

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

O movimento feito pela senadora nos últimos meses parece ter diminuído o volume das críticas sobre seu passado na procuradoria. Ao mesmo tempo, sua carreira na procuradoria dificulta a campanha de Trump que tenta apresentá-lo como o único candidato "da lei da ordem".

Kamala preenchia mais um requisito buscado por Biden: a proximidade. Como ex-vice-presidente, ele dizia buscar uma parceria de confiança. Ela serviu como procuradora da Califórnia quando ficou amiga de Beau, filho de Joe Biden, que ocupava o mesmo cargo pelo Estado de Delaware.

Mesmo antes de desistir de sua própria campanha presidencial, ela e Biden haviam se aproximado. Isso não a impediu de ser uma crítica voraz da campanha do atual companheiro de chapa quando disputava a nomeação do partido. A acusação feita por ela de que Biden foi contrário ao fim da segregação racial em escolas no passado precisará ser dissipado pela dupla e a contradição já é explorada por Trump. 

Com média de nove pontos porcentuais de vantagem na corrida eleitoral, a campanha de Biden tem ganhado por passar os últimos meses longe de polêmicas. Na escolha da vice, o movimento de campanha mais ousado, Biden não poderia errar. Em 2019, Kamala tentava se viabilizar como candidata democrata repetindo que era necessário resgatar a "coalizão Obama". O nome dela não decolou e ela deixou a campanha antes das primárias, mas ainda poderá ser crucial para o partido reconstruir a aliança em novembro.

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