Frederic J Brown/AFP
Frederic J Brown/AFP

Biden anuncia doação de 500 milhões de doses em meio a críticas por campanha de reforço nos EUA

Número dobra a meta inicialmente estabelecida pelo governo americano

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 18h33

WASHINGTON - O presidente americano, Joe Biden, anunciou nesta quarta-feira, 22, que os EUA estão comprando mais 500 milhões de doses da vacina contra a covid-19 da Pfizer para serem doadas aos países de baixa renda. Os planos de compra, antecipados na terça-feira pela Bloomberg, elevarão a 1,1 bilhão o total de vacinas que os EUA planejam doar. Ao mesmo tempo, o país se mobiliza para distribuir doses de reforço a milhões de americanos totalmente inoculados. 

Ao presidir cúpula virtual sobre a escassez de vacinas em países mais pobres, Biden explicou que quase 160 milhões das doses já foram embarcadas e 200 milhões devem sair até o fim do ano. Segundo funcionários do governo, as 800 milhões restantes serão enviadas até setembro do ano que vem. 

Biden instou outros líderes mundiais, executivos farmacêuticos, filantropos e organizações da sociedade civil a se unirem para formar um consenso global em torno de um plano de combate à crise do coronavírus. O governo da Itália também aproveitou a cúpula desta quarta-feira para informar que o país doará 45 milhões de doses de vacinas até o final do ano.

A cúpula presidida por Biden foi uma tentativa de afastar as críticas ao plano de vacinação de reforço dos EUA, que vai aplicar a terceira dose em milhões de adultos americanos enquanto muitas nações lutam para garantir a primeira dose às suas populações. Embora os EUA tenham doado mais vacinas do que qualquer outro país, de acordo com dados do Unicef, a política de reforço poderá pressionar outros países a seguirem o exemplo, exacerbando ainda mais as desigualdades globais.

“É como se você e eu tivéssemos um colete salva-vidas e eles estivessem nos jogando mais um ou dois, quando mais da metade do planeta não tem nenhum”, disse Tom Hart, presidente-executivo interino da campanha ONE, que defende a exportação de vacinas para nações de baixa renda. “Não é apenas ultrajante em termos morais, também não faz nenhum sentido em termos epidemiológicos”, disse ele. “A melhor maneira de proteger os americanos é extinguir o fogo nos outros lugares o mais rápido possível."

A equipe de Biden, falando em um briefing privado na semana passada, disse que a cúpula de quarta-feira não deve ser um evento de um dia, mas sim o início de um processo de um mês para definir metas de vacinação internacionais claras e caminhos para alcançá-las, disseram pessoas familiarizadas com o tema.

Em uma audiência na sexta-feira, os cientistas da Food and Drug Administration (FDA) reconheceram a crescente pressão política em torno do plano de reforço. Peter Marks, diretor do Centro de Avaliação e Pesquisa Biológica da FDA, começou a audiência pedindo ao painel que se concentrasse na ciência das vacinas de reforço, sem desviar para “questões relacionadas à igualdade global das vacinas”.

O painel votou para recomendar reforços da vacina Pfizer/BioNTech para pessoas com 65 anos ou mais, bem como aquelas com condições que as colocam em maior risco de sofrer covid-19 grave. O resultado do painel foi 16 a 2 contra a recomendação de reforços para todos os adultos dos Estados Unidos, como a Pfizer havia solicitado.

A FDA ainda precisará conceder a autorização final. E um painel consultivo externo dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças também fará recomendações detalhadas para o uso de doses de reforço em uma reunião na próxima semana.

Até agora, o país doou e despachou mais de 140 milhões de doses para o exterior. Mas o mundo precisa de bilhões de doses para conter a pandemia – uma meta difícil de atender apenas com doações. Muitos defensores de uma maior equidade global de vacinas dizem que Biden deveria relaxar as proteções legais para fórmulas de vacinas e fazer acordos entre fabricantes e instalações em outros países.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou contra o plano americano para doses de reforço. “Se tomar vacinas de reforço em um país significa que outros não terão vacinas, é claro que essa não é a melhor maneira de enfrentar a doença”, disse ele, em entrevista. Biden se reuniu com Guterres nesta segunda-feira antes de discursar na Assembleia Geral da ONU, na terça-feira, e de realizar a cúpula da vacina, nesta quarta.

Os EUA têm vacinas suficientes para dar doses de reforço aos americanos sem afetar suas promessas de doação, mas “o escopo desse acesso expandido vai reverberar por todo o sistema global”, disse Tom Bollyky, diretor do programa de saúde global do Conselho de Relações Exteriores.

Algumas doações foram prejudicadas pela burocracia. Para enviar 3,5 milhões de doses de Moderna para a Argentina em julho, por exemplo, as autoridades americanas tiveram de passar por um processo de nove etapas, incluindo aprovação regulatória, acordos legais, emendas de contratos e até mesmo uma mudança nas regulamentações locais de vacinas. O presidente da Argentina, Alberto Fernández, assinou um decreto suavizando a burocracia jurídica e técnica para abrir caminho para a doação.

As doações americanas são enviadas diariamente ou quase diariamente. Desde o momento da produção, há uma janela de 96 horas para embalar, enviar e entregar as vacinas congeladas antes que elas estraguem. Caminhões, aviões e até navios da Guarda Costeira estão fazendo as entregas.

Alguns países não conseguem receber a vacina da Pfizer, que requer um armazenamento mais frio, e alguns solicitam a vacina da Johnson & Johnson, que demanda apenas uma dose.

“Nós nos orgulhamos de todo o trabalho que o governo dos Estados Unidos vem fazendo para cumprir o compromisso do presidente de compartilhar vacinas com o mundo e estamos ansiosos para fazer mais”, Natalie Quillian, uma funcionária sênior da Casa Branca envolvida na resposta à covid-19, disse em uma entrevista no mês passado.

Mas as autoridades americanas reconhecem que ainda há muito a se fazer. A indústria de vacinas foi construída para produzir entre 4,5 bilhões e 5 bilhões de doses por ano e agora precisa de uma capacidade muito maior, disse uma autoridade do país.

“Os Estados Unidos transportaram pelo menos 140 milhões de doses de vacina até agora”, disse Krishna Udayakumar, diretor-fundador do Duke Global Health Innovation Center. “Esse número ainda está longe do tamanho e do escopo necessários, mas é de deixar outros países com vergonha”.

O cirurgião-geral Vivek Murthy refutou as críticas de que o programa de reforço dos EUA era incompatível com o esforço de ajudar a vacinar o restante do mundo. “Não aceito essa premissa de que, de alguma forma, não está certo fornecer proteção ao povo americano”, disse Murthy. “Temos de fazer as duas coisas. Não podemos escolher entre uma e outra.”

Mas Lawrence Gostin, professor de direito da Universidade de Georgetown e diretor do Centro de Colaboração da Organização Mundial da Saúde para Leis de Saúde Pública e Direitos Humanos, criticou o plano de reforço de Biden e a alegação de Murthy.

“Desafia o bom senso sugerir que, em face da extrema escassez global, se você usar muito mais vacina em casa, não afetará a capacidade de vacinar no exterior”, disse Gostin. “O principal motivo da injustiça é a escassez de suprimentos”. /AP, TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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