Tamir Kalifa/The New York Times
Tamir Kalifa/The New York Times

Convenção democrata começa nesta segunda, 17, com Joe Biden pregando união contra Trump

Em convenção democrata que começa a partir das 22 horas do Brasil, candidato terá ao lado ex-rivais Bernie Sanders, Elizabeth Warren e sua vice, Kamala Harris

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 20h30
Atualizado 17 de agosto de 2020 | 14h34

Começa nesta segunda-feira, 17, uma nova fase da eleição americana, com as convenções partidárias – que oficializam as candidaturas. A primeira é a do Partido Democrata, que terá incício às 21 horas (2 horas no horário de Brasília). Será a primeira vez que a convenção será realizada de maneira remota, em razão da pandemia de coronavírus. Em seu discurso, Joe Biden pretende se colocar como candidato capaz de unir os EUA

“A convenção é para todos, não importa em quem você votou no passado”, disse a responsável pelo programa da convenção democrata, Stephanie Cutter, que batizou o encontro de “Unindo a América”.

Em 2016, Hillary Clinton usou a convenção para pedir que os eleitores rejeitassem “forças” que ameaçavam dividir o país. O recado era para o então candidato Donald Trump, mas o discurso não foi suficiente. Quatro anos depois, Biden argumentará que o país já está dividido e precisa de uma reunificação.

Para isso, ele contará com as estrelas do partido, que endossarão seu nome em público – entre eles o casal Obama e sua vice, Kamala Harris. O evento de quatro dias será online em razão da necessidade de isolamento social. A ideia é passar uma mensagem unificada de que todo o partido está ao lado de Biden e, mais importante, contra Trump.

“As pesquisas têm sido consistentes nos últimos meses, dando vantagem a Biden. O que vamos ver, portanto, é o que temos visto de Biden no último ano e meio: um discurso sobre seus planos e sua habilidade de restaurar a nação e unir as pessoas”, afirmou Mark Feierstein, ex-assessor da Casa Branca durante a presidência de Barack Obama. 

Desta vez, a convenção será diferente da que confirmou Obama, em 2008. Na época, o candidato democrata estava tecnicamente empatado com o republicano John McCain e precisava usar o momento para reacender paixões entre o eleitorado.

Há uma semelhança, no entanto: tanto Obama, em 2008, como Biden, em 2020, buscam mostrar na convenção que são capazes de tirar o país do buraco. No caso de Obama, a crise era financeira. Biden tem a seu favor o fato de o adversário ser o atual presidente, que tem tropeçado durante as crises social, sanitária e econômica. 

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A média das pesquisas agregada pelo site Five Thirty Eight indica que 57,3% dos americanos desaprovam a resposta de Trump à pandemia – e 39,2% aprovam. Os EUA são o país com maior número de vítimas da covid-19, mais de 5 milhões de infectados, 170 mil mortos e uma taxa diária de óbitos crescente, em razão da reabertura promovida de maneira desigual em diferentes partes do país. A aprovação de Trump se mantém em 41%, pouco abaixo dos 44% registrados no início do ano e antes do surto de covid-19. 

Seguindo o roteiro adotado nos últimos meses, os democratas devem descrever Trump como uma figura polarizadora, inexperiente, com foco no próprio interesse e desprezo pelo conhecimento científico. Enquanto isso, Biden será apresentado como um político hábil e disposto a unir diferentes grupos sociais, comprometido com o serviço público, ao qual dedicou toda a carreira e assessorado por especialistas e cientistas.

Marcada para julho, a convenção precisou ser adiada para agosto em razão da pandemia e, mais recentemente, remodelada. Até o início do mês. Biden planejava fazer o discurso pessoalmente em Milwaukee, local do evento e maior cidade de Wisconsin, um importante Estado-chave. Mas a campanha democrata recuou e decidiu transmitir o discurso de Biden e dos demais figurões de maneira virtual. 

Uma das principais plataformas do democrata é mostrar que sua campanha trata com seriedade a pandemia, em oposição aos republicanos, o que fez Biden desistir da ideia de prosseguir com uma aparição presencial. Estádios lotados, barracas de venda de souvenir, voluntários, artistas e jornalistas do mundo todo andando pelas ruas darão lugar às telas de computador. 

Eles não falarão para grandes plateias, gritando e acenando. Então, a dinâmica será bem diferente, porque não terão a empolgação da plateia. Não está claro como os discursos acontecerão e se conseguirão manter o mesmo nível de entusiasmo”, afirma Eric Heberlig, professor de ciência política da Universidade da Carolina do Norte e autor de livro sobre as convenções partidárias.

Aliança

Nos últimos meses, Biden buscou uma composição com a ala progressista do partido, ao convidar assessores de Bernie Sanders e Elizabeth Warren – adversários nas primárias – para grupos de trabalho. Sanders e Warren discursarão em horário nobre na convenção. Os democratas precisam de um comparecimento recorde em novembro, com apoio de jovens, mulheres e negros em escala semelhante ao que teve Obama – coisa que Hillary não conseguiu.

O anúncio de Kamala Harris como vice da chapa presidencial é parte da busca para repetir a “coalizão Obama”, como os democratas chamam a histórica aliança entre negros, jovens, mulheres e brancos do Meio-Oeste, que levou o primeiro negro à Casa Branca. 

Kamala é a primeira mulher negra a concorrer como vice por um grande partido nos EUA e sua história pessoal como filha de imigrantes atende a anseios da parcela do eleitorado que cobra maior diversidade no Partido Democrata, ao mesmo tempo em que mantém a percepção de que o governo Biden será centrista e moderado.

Com discurso marcado para quarta-feira, Kamala terá boa parte das atenções da mídia e do público pelo caráter histórico de sua nomeação e pela perspectiva de que seja a potencial candidata democrata em 2024 – se vencer, Biden teria 82 anos e ainda não é certo que disputaria a reeleição. “O partido vai celebrar esse momento histórico, que envia uma mensagem importante sobre o compromisso de um futuro governo Biden com a diversidade”, disse Feierstein.

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Sanders discursará na segunda-feira, no primeiro dia, que será encerrado com a fala de Michelle Obama. A programação da terça-feira prevê congressistas como a estrela jovem Alexandria-Ocasio-Cortez, além do ex-presidente Bill Clinton. Quem encerra o segundo dia é Jill Biden, mulher do candidato. 

Na quarta-feira estão previstos os discursos de Hillary, Warren, Kamala e do ex-presidente Obama. A maratona de duas horas diárias de convenção começa sempre às 21 horas locais (22 horas em Brasília). Biden aceitará a nomeação do partido no último dia, na quinta-feira, quando se tornará oficialmente o candidato democrata.

 

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