Melina Mara/The Washington Post via AP
Presidente Joe Biden discursa ao Congresso americano   Melina Mara/The Washington Post via AP

Biden chega a 100 dias de um governo reformista e em guerra contra o vírus

Presidente americano assumiu prometendo recuperar a economia dos EUA e combater a pandemia de covid-19; 100 dias depois tem a aprovação de mais da metade da população

Beatriz Bulla/ Correspondente, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - No início da corrida presidencial de 2020, Joe Biden era visto como um democrata conservador. Os 40 anos que passou em Washington, como senador e vice-presidente, eram apontados pela ala progressista do partido como um sinal de que uma presidência dele seria apenas mais da mesma velha política. Em 100 dias na Casa Branca, no entanto, ele transformou sua imagem de moderado em uma de presidente reformista. 

Em ritmo acelerado, Biden declarou guerra à pandemia de coronavírus – e já consegue vê-la pelo retrovisor –, foi menos conciliatório e mais ousado do que esperavam e propôs transformar o tamanho do Estado americano. Biden quer fazer o governo federal, os mais ricos e as empresas financiarem a revitalização da infraestrutura dos EUA, o maior acesso à educação e à saúde e a criação de empregos para a classe média. Tudo isso com uma economia mais sustentável e ambientalmente consciente. Com três pacotes trilionários (um deles aprovado e os outros dois sob teste), ele quer colocar o governo no centro da resposta à crise econômica.

A inspiração é clara. Ao redecorar o Salão Oval, Biden fez questão de que a imagem de um ex-presidente americano ficasse em frente à mesa de onde ele despacha: a de Franklin Roosevelt, conhecido pela proatividade nos 100 primeiros dias de governo e por aumentar o tamanho do Estado para tirar os EUA da Grande Depressão.

“Temos de provar que a democracia ainda funciona. Que nosso governo ainda funciona – e pode ajudar as pessoas”, disse Biden em seu primeiro pronunciamento ao Congresso, na noite de ontem. Antes de assumir, ele sabia que qualquer conquista seria inócua se o país não superasse a pandemia que matou mais de 570 mil pessoas nos EUA, mas chega à data com sua principal promessa cumprida: a de aplicar 100 milhões de doses de vacinas nos 100 primeiros dias. A meta foi revisada no meio do caminho e ampliada para 200 milhões, algo que ele também atingiu. 

A senadores e deputados, Biden tentou relembrar que herdou um país em crise, mas que ele colocou os EUA “em movimento”. “A pior pandemia em um século. A pior crise econômica desde a Grande Depressão. O pior ataque à nossa democracia desde a Guerra Civil.” 

Desde que foi marcado, já se sabia que o discurso teria uma carga simbólica: a fala do presidente na mesma sala atacada em janeiro por extremistas pró-Trump, que tentaram impedir a certificação de sua eleição. “Agora, depois de apenas 100 dias, posso dizer à nação: os EUA estão em movimento novamente. Transformando o perigo em possibilidades. Crise em oportunidade. Revés em força”, disse.

Mais da metade dos adultos nos EUA já recebeu ao menos uma dose de alguma das três vacinas disponíveis. Os imunizados já podem sair ao ar livre sem máscara e fazer planos de comemoração do Dia de Independência, em 4 de julho. Os negócios voltaram a abrir.

“Estamos vacinando a nação. Estamos criando centenas de milhares de empregos. Estamos entregando resultados reais que as pessoas podem ver e sentir em suas próprias vidas. Abrindo as portas da oportunidade. Garantindo equidade e justiça”, comemorou o presidente.

Biden usou sua fala para vender seu plano econômico. “Wall Street não construiu o país”, garante o presidente americano. “A classe média construiu o país. E os sindicatos construíram a classe média.” 

O pacote que pretende revitalizar toda a infraestrutura dos EUA deve custar US$ 2,2 trilhões, com uma injeção de investimento federal em obras para criar empregos e consolidar a agenda ambiental do democrata. Com 55% de aprovação, Biden chega aos 100 dias mais popular do que Trump, mas menos do que Barack Obama

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Mais da metade dos americanos aprova desempenho de Biden nos seus primeiros 100 dias

Julgar o desempenho de um presidente após os primeiros 100 dias é uma tradição da política americana que, segundo historiadores, começou com o primeiro mandato de Franklin Roosevelt, em 1933

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2021 | 20h00

O presidente dos EUA, Joe Biden, fará nesta quarta-feira, 28, um discurso em uma sessão conjunta do Congresso para marcar os 100 primeiros dias no cargo. Julgar o desempenho de um presidente após os primeiros 100 dias é uma tradição da política americana que, segundo historiadores, começou com o primeiro mandato de Franklin Roosevelt, em 1933, quando ele embarcou em uma implementação rápida de medidas para conter a Grande Depressão.

Mais da metade dos americanos aprovam o desempenho de Biden nesse período, um nível de apoio que seu antecessor republicano Donald Trump nunca alcançou e que deve ajudar os democratas a impulsionar os gastos com infraestrutura e outros grandes itens de sua agenda.

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Por que a marca dos primeiros 100 dias importa nos EUA?

Historiadores dizem que prática começou no primeiro mandato de Franklin Roosevelt em 1933

Beatriz Bulla / Correspondente , O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Cerca de 40 dias antes de assumir a presidência americana, em dezembro de 2020, Joe Biden prometeu que aplicaria 100 milhões de doses de vacina contra covid-19 nos 100 primeiros dias de seu mandato. A meta marcava o que o então presidente eleito buscava anunciar como vitória em uma data na qual ele já sabia que seria cobrado por suas ações, como aconteceu com todos os presidentes americanos nas últimas oito décadas.

Não há uma previsão legal para que presidentes prestem contas após 100 dias de governo, mas um compromisso carregado desde o governo de Franklin D. Roosevelt. Ao assumir o país em meio à Grande Depressão, Roosevelt emplacou uma série de ações regulatórias e projetos de lei ousados para conter a crise e indicar os novos rumos do país. 

Neste período, Roosevelt suspendeu um feriado bancário nacional, forneceu socorro econômico a desempregados, começou a desenhar o que veio a se tornar o New Deal e aprovou um recorde de propostas legislativas: 76 projetos de lei. 

Em um pronunciamento de rádio na época, Roosevelt cravou a data, ao falar dos seus "primeiros 100 dias". A produtividade de FDR, como o ex-presidente é chamado, se tornou um marco para presidentes americanos. Mas poucos, desde então, emplacaram uma agenda de mudanças tão ambiciosa quanto o responsável por inaugurar esse marco. Segundo analistas, Ronald Reagan foi um dos que chegou mais próximo. Outros marcaram uma mudança geracional ou de estilo e política relevantes com relação ao antecessor. 

Quando Barack Obama assumiu a Casa Branca, assessores do presidente minimizaram, em entrevistas, o marco de 100 dias e compararam a data a feriados comerciais -- lembrados nos comerciais, mas sem um significado genuíno. Na época, os mais próximos ao presidente diziam que era absurdo achar que ele poderia controlar em alguns meses "uma recessão de 100 anos, um colapso bancário, duas guerras e um mal-estar global", segundo a imprensa da época.

A produtividade e capacidade de aprovar projetos caiu desde Roosevelt e variou nas últimas décadas a depender da composição partidária no Congresso. Os avanços de 1933 são considerados exceção, mas os presidentes tentam aproveitar a lua de mel inicial para emplacar sua agenda e comemorar o marco. 

Os presidentes também aproveitam a popularidade após a eleição para adotar uma série de medidas executivas que não dependem do Congresso e revisar políticas de seus antecessores. Na média da história moderna americana, presidentes assinaram mais ordens executivas nos 100 primeiros dias de mandato do que nos 100 subsequentes.

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Do combate à covid-19 ao controle de armas: iniciativas de Biden nos primeiros 100 dias

Conheça algumas propostas do presidente americano e como ele está se saindo em cada uma delas

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Os primeiros 100 dias de governo do americano Joe Biden surpreenderam muitos políticos e analistas americanos. Veja algumas das principais iniciativas de Biden nesse período e como ele se saiu em cada uma.

Combate à covid-19

A principal promessa de Biden quanto ao combate à covid-19 foi vacinar 100 milhões de americanos em seus 100 primeiros dias de governo. Cerca de 290 milhões de doses já foram distribuídas, mais de 230 milhões administradas e cerca de 96 milhões de cidadãos estão totalmente vacinados, 29% da população.

A campanha de vacinação de Biden capitalizou esforços iniciados por seu antecessor, Donald Trump, para fabricar e distribuir as vacinas, mas ele acrescentou locais de vacinação em massa e mobilizou agências do governo para ajudar no trabalho de distribuição.

Empregos e recuperação econômica

Biden dedicou a maior parte de suas primeiras semanas à aprovação de um projeto de lei de estímulo de US$ 1,9 trilhão para limitar as consequências econômicas da pandemia.

O Plano Americano de Resgate, aprovado mesmo com a oposição dos republicanos, cumpriu a principal promessa econômica feita por Biden na campanha: cheques para os americanos.

Impulsionado pelo plano de estímulo para famílias e negócios e também pela distribuição contínua das vacinas, o crescimento econômico deve passar de 7% neste ano, o mais veloz desde 1984. Ele viria na esteira da contração de 3,5% do ano passado, o pior desempenho em 74 anos. Quase um milhão de empregos foram criados em março, mais do que os 379 mil de fevereiro.

Política externa

Biden se mostra inesperadamente duro na política externa. Ele impôs sanções à Rússia em reação à interferência de Moscou nas eleições de 2020 e a um ataque cibernético maciço atribuído à Rússia e chamou o presidente Vladimir Putin de "assassino". 

O presidente democrata manteve as sanções da era Trump ao Irã e se recusou a suspendê-las como condição para Teerã se envolver em negociações diretas sobre seu programa nuclear. Manteve as tarifas comerciais impostas à China, permitiu que diplomatas dos EUA visitassem Taiwan e aumentou a pressão sobre Pequim devido à sua repressão aos ativistas democráticos de Hong Kong.

Imigração

Biden reverteu rapidamente algumas das políticas imigratórias rígidas de Trump, mas tem dificuldade em conter o aumento expressivo de imigrantes na fronteira com o México. Ele suspendeu a maior parte da construção do muro de fronteira de Trump e reverteu a proibição adotada pelo ex-presidente à entrada de pessoas de 13 países africanos e de maioria muçulmana pouco depois de tomar posse.

O presidente ainda prometeu aumentar o número de refugiados acolhidos no país, mas depois recuou e manteve o teto historicamente baixo de Trump para este ano.

Armas e reforma policial

Os massacres a tiros nos EUA, que diminuíram durante os lockdowns para conter a covid, voltaram a aumentar em 2021, o que mostra quão pouco poder imediato Biden tem como presidente para mudar a cultura permissiva de porte de armas do país.

O presidente pede mudanças legais abrangentes, incluindo a proibição de armas de assalto de estilo militar e pentes de munição de grande capacidade, mas elas precisam ser aprovadas no Congresso.

Ele não cumpriu a promessa de encomendar relatórios sobre as reformas de supervisão de armas do Departamento de Justiça ou sobre as falhas do programa de verificação de antecedentes. / REUTERS

 

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Biden: do candidato das 'promessas' ao presidente das 'mudanças' pós-covid, leia a análise

Presidente americano não prometeu revoluções, mas pandemia mudou o cenário e ele está propondo mudanças importantes na sociedade americana

Ashley Parker / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Como candidato democrata às primárias, Joe Biden disse aos espectadores do debate que entendia que a maioria dos americanos estava “em busca de resultados, não de uma revolução”. Ele prometeu aos doadores ricos que, em um governo Biden, “nada mudaria fundamentalmente”. E declarou às plateias de comícios que se via “como uma ponte, nada mais”, para uma nova geração de líderes democratas.

Mas aí a covid mudou tudo.

Quando Biden ascendeu à presidência, ele já tinha se remodelado como um líder transformacional - um presidente preparado para reformar fundamentalmente o papel do governo na sociedade em nome dos trabalhadores e trabalhadoras do país.

A pandemia - que chegou à marca de meio milhão de americanos mortos no início de seu segundo mês no cargo - forneceu um princípio organizador para a presidência de Biden e uma missão clara para ele liderar. Mas o coronavírus também expôs desigualdades arraigadas, desde o racismo estrutural até uma classe média frágil, a apenas uma doença ou um pagamento atrasado da queda livre.

Biden assumiu a presidência citando quatro grandes crises - o coronavírus, a economia, a desigualdade racial e as mudanças climáticas - e com essas emergências surgiu a oportunidade de se tornar grande, ousado e ambicioso, levando a cabo uma legislação massiva, com ou sem o apoio dos parlamentares republicanos em Washington.

“Antes da covid, nunca pensei que ele seria um presidente transformador, pensava apenas que ele daria os próximos passos. Agora, a situação o fez dar saltos”, disse Greg Schultz, conselheiro de Biden de longa data que gerenciou sua campanha presidencial de 2020 durante as primárias.

Ele procurou redefinir o bipartidarismo, apelando menos aos republicanos do Congresso e mais aos eleitores e às autoridades eleitas de todo o país. E, até agora, Biden em grande parte aplacou as preocupações da esquerda e do centro, parecendo moderado em tom e temperamento, mas buscando muitas das prescrições de política liberal promovidas pela base de seu partido.

Muitos republicanos, porém, argumentam que Biden realmente deu uma guinada radical. O senador Lindsey O. Graham (Carolina do Sul), que conhece Biden desde seus dias no Senado, lembrou a reputação do presidente como “um cara estável” e um político que “sempre foi progressista, mas com quem você pode negociar”. Ele disse que ficou “surpreso” com o que viu de Biden como presidente até agora.

Aliados e conselheiros dizem que Biden chegou à presidência como um político versado em estratégia e negociação - com 36 anos no Senado e 8 como vice-presidente de Obama - e como uma pessoa versada em perdas.

Aos 78 anos, Biden está em paz profissionalmente, dizem seus aliados, querendo realizar muito, mas com obrigação de provar pouco. Ele vê a presidência como uma pedra angular, não um trampolim, e traz para o cargo a crença de que conseguirá unificar uma nação dividida.

“A história cria momentos para os líderes e não sei se em alguma outra época Joe Biden teria sido presidente dos Estados Unidos”, disse David Axelrod, ex-conselheiro de Obama. “Mas ele era a pessoa certa para este momento: sua empatia, sua calma, sua experiência são qualidades que este momento exigia.”

À medida que se aproxima da marca dos cem dias, Biden se aproxima também do fim da parte já roteirizada de sua presidência.

Ele enfrenta uma crise de imigração na fronteira sul do país, um debate acalorado sobre as reformas policiais na sequência de um veredicto de assassinato no caso de George Floyd e uma pressão para aprovar controles de armas mais rígidos em meio a uma maré de tiroteios em massa. O conselheiro sênior Mike Donilon disse que as experiências de vida de Biden o prepararam para se adaptar a mudanças repentinas.

No ano passado, durante as primeiras semanas da pandemia, tanto Biden quanto a senadora Elizabeth Warren (democrata de Massachusetts) perderam uma pessoa próxima para o coronavírus. Para Biden, foi seu velho conselheiro Larry Rasky. Para Warren, foi seu irmão mais velho, Don Reed Herring.

Warren contou como, em um telefonema entre os dois logo após essas mortes, Biden “conseguia, na mesma frase sobre política e saúde pública, falar sobre o que significa perder alguém que você ama”.

Algumas das ideias que eles discutiram durante a conversa - a importância dos centros de saúde comunitários, do melhor acesso ao teste do coronavírus e da vacinação - acabaram se refletindo no pacote de auxílio que ele sancionou como presidente.

Liberais como Warren estão bastante satisfeitos com a forma como Biden tem governado até agora, especialmente diante de sua reputação de centrista durante as primárias.

Biden muitas vezes parece ter um forte senso dos rumos do Partido Democrata. Como vice-presidente em 2012, ele saiu do roteiro quando apoiou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em resposta a uma pergunta no programa ‘Meet the Press’ do canal NBC - frustrando a Casa Branca por ficar à frente de Obama, que ainda não havia feito uma declaração pública.

Essas quatro crises que Biden identificou, disse o chefe de gabinete da Casa Branca, Ron Klain, ajudaram a formar “os quatro pilares de sua presidência”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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