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Biden contra a China

Revisão ordenada pelo presidente americano mostra que confronto se dará por meio de políticas industriais

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2021 | 05h00

O presidente Joe Biden ordenou, na quarta-feira, uma revisão da cadeia de valores da indústria americana. A China, por sua vez, já havia iniciado a revisão do fornecimento de metais de terras raras, dos quais os EUA dependem para fabricar equipamentos eletrônicos e medicamentos. Esses movimentos indicam que a disputa entre as duas potências será travada por meio de políticas industriais. 

A indústria americana está sofrendo com uma grave escassez na oferta de semicondutores, dos quais também a China é a grande fornecedora. Ford, Fiat Chrysler, Volkswagen e Toyota tiveram de reduzir a produção por falta de semicondutores, que compõem os chips. 

Além dessa revisão, que deve durar cem dias, Biden já havia anunciado também punições e incentivos tributários para atrair de volta para os EUA fábricas de empresas americanas instaladas em outros países.

Ele citou o desabastecimento de produtos de proteção e equipamentos médicos necessários na resposta ao coronavírus como prova da urgência dessas medidas. E também a necessidade de criar empregos nos EUA e de reduzir a emissão de carbono.

Como se vê, trata-se de uma estratégia que amarra os principais objetivos da administração Biden, e não apenas o interesse de fazer frente à ascensão da China. Não há contradição entre essas motivações. Na visão de Biden e de seus assessores, a disputa vai além dos interesses econômicos: é também um confronto entre os modelos democrático e autoritário.

É uma abordagem com mais amplitude e nuances do que aquela adotada por Donald Trump. O ex-presidente tinha uma visão mercantilista da disputa com a China. Seu objetivo praticamente se limitava a reverter o déficit americano no comércio bilateral. 

Antes de alcançá-lo, Trump ameaçou a China nos dois primeiros anos de seu mandato com a sobretaxação de seus produtos. Enquanto negociava o acordo, passou o ano de 2019 procurando agradar ao líder chinês, Xi Jinping, a ponto de apoiar, privadamente, os campos de “reeducação” dos uigures, a minoria muçulmana, segundo o relato de John Bolton, então conselheiro de Segurança Nacional, no livro The Room Where It Happened

Depois do acordo firmado em 15 de janeiro de 2020, que prevê a compra excedente de US$ 200 bilhões em produtos americanos, Trump elogiou Xi publicamente 15 vezes, por sua condução da pandemia. Só em 18 de março, quando viu que havia perdido o controle do surto nos EUA, decidiu culpar a China pelo flagelo.

Agora, os americanos passam a lidar com a China num terreno mais conhecido dos chineses e do restante do mundo: a velha (e não tão boa assim) “eleição de campeões”. Tanto que o governo em Pequim se antecipou e iniciou a própria “revisão”.

As ações da MP Materials Corp., única processadora americana de terras raras, subiram 180% nos últimos três meses. Esses minerais são um grupo de 17 elementos da tabela periódica fundamentais na indústria mais avançada, e estão espalhados pelo mundo inteiro, incluindo o Brasil, terceiro em reservas, depois de China e Vietnã.

Como parte de sua estratégia de industrialização conduzida pelo Estado, a China investiu pesadamente na extração desses metais. Consequentemente, tornou-se o celeiro do mundo também em relação a eles, assim como dos produtos manufaturados de maneira geral. 

Oitenta por cento das terras raras usadas pela indústria americana são importadas da China. Os EUA tentam aumentar a produção, lançando mão dos aliados, que serão incluídos em sua nova política industrial. O Pentágono assinou dia 1.º um contrato de US$ 30 milhões com a australiana Lynas Rare Earths, que montará uma usina no Texas. Por enquanto, os chineses estudam bloquear a venda de terras raras para empresas, como a Lockheed Martin, que vendeu armas a Taiwan. Encare como um ensaio do que está por vir.

É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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